UMA VIAGEM NO TEMPO - Conto Clássico de Ficção Científica - Octave Béliard
UMA VIAGEM NO TEMPO
Octave Béliard
(1876 – 1951)
Tradução de autor anônimo do início do séc. XX
Eu estava em Roma, mergulhado no estudo daquelas ruínas preciosas, dividindo minha admiração entre a cidade dos papas e a cidade dos Césares; a áspera beleza da Roma imperial, arte imensa de Miguel Ângelo e de Rafael mantinham-me em um deslumbramento sem fim. Chegava a imaginar que não se pudesse viver sem aquela atmosfera do passado grandioso.
O único laço que me prendia a meu tempo era a remessa regular de publicações novas, que meu livro de Paris fazia regularmente, porém, mesmo para ler esses frutos da mentalidade atual, eu procurava as sombras do Pincio, ou do Palatrio e, sobretudo, a Roma Quadrata dos primeiros reis, ainda coroada pelas ruínas dos palácios imperiais.
Foi quando encontrei outro visitante assíduo como eu. Era um velho bem-vestido, com ares de sábio, e que, caminhando penosamente, apoiado a uma bengala, vinha ficar, por muitas horas, sentado sobre os restos de uma coluna — sempre a mesma — nas ruínas dos banhos de Lívia.
Acabamos por nos saudar. Seu ar dolente e fatigado, a fixidez sonambúlica de seu olhar denunciavam profundo desespero. Sem dúvida, não era o amor pelo passado nem o prazer artístico que o traziam ali. Dir-se-ia que seu corpo, como sua alma, estavam irremediavelmente abatidos. Um dia, resolveu-se a falar-me; mas tão pouco… Em todo o caso fiquei sabendo que se chamava Bozzoli e que conhecia profundamente a história de Roma antiga.
*
Uma tarde, já habituado a seu laconismo e indiferença, tive a surpresa de vê-lo fazer um movimento brusco e vivaz. Arrancou-me das mãos o livro que eu trouxera e, murmurando uma rápida desculpa, sentou-se a ler. Leu umas cinquenta páginas; depois, erguendo a cabeça com uma expressão de angústia, que eu não podia compreender, disse:
—Veja o senhor! É um livro de pura fantasia, mas é singular; que…
Deteve-se com a cabeça entre as mãos meditando dolorosamente.
O livro era A máquina de Explorar o Tempo, de Wells, e dir-se-ia que seu aspecto abrira na alma do Sr. Bozzolli uma ferida antiga e ressuscitara recordações pungentes. Por quê? Eu não distinguira naquele romance coisa alguma que produzisse emoção. Seria louco esse homem de aspecto tão grave e distinto?
Entretanto, como se adivinhasse minha suspeita, o Sr. Bozzoli procurava arrancar-se a suas reflexões e, sorrindo, explicou:
— O senhor talvez não acredite… Mas o que esse romancista forjou como uma utopia é realizável.... Sim. Realizável… Tanto que eu a realizei.
— Como? — exclamei. Não é possível. O senhor realizou uma máquina capaz de explorar o tempo?… De se mover, não no espaço, mas através dos séculos?
— Há já quarenta anos que consegui esse prodígio… Sim… Desgraçadamente, eu o consegui.
Meu olhar fixou-se nele com tão evidente piedade que seu protesto foi veemente, quase indignado.
—Afirmo-lhe que se engana. Não estou doido, embora tenha muitos motivos para isso. Ouça, senhor. O só fato de existir esse romance, de ter surgido essa hipótese, prova sua possibilidade. Toda a coisa concebível por um espírito humano é coisa possível. Difícil, é claro, com grandes e terríveis dificuldades. Porém, venci-as todas… Ai de mim! — concluiu ele, recaído em sua profunda tristeza.
Fiquei atônito. Não sabia o que pensar, mas a ideia, predominante da confusão de meu cérebro, era a de uma demência, com ideia fixa e melancolia…
Observava-me atentamente, como se quisesse prescrutar meus pensamentos; depois, com um gesto simples, mas imperioso, convidou-me a acompanhá-lo.
Segui-o até uma casa de modesta aparência a poucos passos do Fórum, onde as escavações continuam a trazer à luz tribunais e templos. Aí o Sr. Bozzoli levou-me até uma adega abobadada, que parecia de construção muito antiga, e que ele transformara em laboratório.
A adega estava cheia de estantes e armários carregados de livros, frascos… Mas, por todos os lados, havia teias de aranha, e o cheiro característico dos lugares por longo tempo fechados indicava que o estranho homenzinho há muito interrompera seus estudos.
—Tenho a impressão de penetrar em um túmulo — murmurei.
— Com efeito, há aqui dois cadáveres — disse pausadamente o Sr. Bczzoli.
E como eu tivesse um movimento instintivo de recuo, ele deteve-me com um gesto, acrescentando:
—Sim. Mas, como aqui tudo é extraordinário, eles são invisíveis. Olhe… — e apontava o centro da cripta. — Foi aqui que eu coloquei minha máquina… E provavelmente ela ainda aí está. Sim… Sim… Está aí, nesse espaço, porém não em nosso tempo. E com ela meus dois pobres filhos.
O velho sábio ajoelhou-se e beijou o solo com profunda emoção. Depois, ergueu-se e, indicando a parede de um lado, disse:
—Pode ver aqui o plano dessa maldita máquina.
Vi, toscamente emoldurado, um desenho complicado, que nada adiantou à minha ignorância. Julguei distinguir o desenho de uma carriola sem rodas no meio de rabiscos incompreensíveis.
O Sr. Bozzoli continuava, como num sonho:
—Eu tinha dois filhos gêmeos com cerca de 12 anos. Minha mulher morrera… e eu confesso que não lhe sentia muito a falta, porque a ciência é um amor despótico e absorvente. Mas não houve quem cuidasse da educação de meus filhos, que, aos 12 anos, mal sabiam ler e escrever. Um dia, eu consegui resolver o problema, que absorvia todas as minhas faculdades, e fui tão tolo que me regozijei com isso. Meu entusiasmo foi tamanho que saí pelas ruas como um louco, deslumbrado de orgulho, a caminhar. Maior do que César ou Cristóvão Colombo, EU ERA SENHOR DO TEMPO. Tinha DESCOBERTO A ETERNIDADE.
À noite, voltando para casa, tive pela primeira vez um impulso de amor paternal; perguntei pelos meninos e estremeci de susto quando a criada me disse que eles tinham descido para brincar no laboratório! Sim! Na embriaguez do triunfo, eu tinha, pela primeira vez, deixado aberta a porta da adega. Precipitei-me pela escada, e, chegando aqui, imobilizei-me num pavor imenso. A máquina desaparecera.
—E os meninos?
—Tinham desaparecido como ela. Provavelmente tinham se sentado na carriola e, com um gesto imprudente, moveram a alavanca, que a punha em movimento.
Pronunciando essas palavras, a emoção do Sr. Bozzoli era tamanha que tive de ampará-lo. Mas eu continuava convencido de que estava diante de um doido. Certamente a máquina nunca existira, senão na imaginação do pobre pai, cujo cérebro se desequilibrara na mágoa de perder seus dois filhos em condições naturalmente normais, porém imprevistas. Como acreditar que houvesse naquele espaço vazio uma máquina viajando pelo tempo?
— O senhor não me acredita — continuou o ancião. — Sim, sim… Não pode acreditar; mas eu juro que eles desapareceram juntamente com a máquina… Mas como podia eu prová-lo? Toda a vizinhança tinha-me na conta de misterioso e suspeito, porque passava dias e dias sem sair de casa e pouco falava. Acusaram-me de ter assassinado meus filhos; fui preso e, por mais que dissesse a verdade aos juízes, ninguém me acreditou. Não me condenaram somente porque não conseguiram estabelecer provas materiais de meu crime; mas, considerando minhas afirmações fantásticas ou alucinadas, recolheram-me a um hospício, de onde só saí quando tive a coragem de fingir que esquecera minhas declarações e que era o primeiro a duvidar da existência de minha máquina.
Eu o ouvia assombrado e cheio de piedade. Que dúvidas podia ter? Aquele homem era vítima de uma obsessão incurável e, somente para evitar o regime do hospício, chegara a dissimular sua demência. Mas, apenas encontrava um ouvinte benévolo, recaía na ideia fixa. Contudo, para ver se o acalmava, fingi-me convencido, perguntando:
— E o senhor conseguiu alguma prova da morte de seus filhos?
— Como se poderiam salvar duas crianças daquela idade, arrastados através dos séculos em um veículo cujo funcionamento ignoravam? Partiram por aí… há quarenta anos… Ainda que não tenham morrido de encontro a algum obstáculo insuperável, ainda que tenham conseguido deter, afinal, a máquina e continuem a viver, para mim estão mortos, porque, ainda que eu construísse outra máquina e partisse também, teria que procurá-los por séculos e séculos, revistando-os dia a dia, hora a hora…
Ajoelhou-se de novo, soluçando, e eu compreendi que a loucura raciocinante é ainda mais horrível do que a loucura delirante.
*
No dia seguinte, chamado por um telegrama, voltei a Paris e ali fui forçado a permanecer cerca de oito meses. Mas, apenas pude ir de novo a Roma, apressei-me a procurar o “louco”, receando receber a notícia de sua morte. Não. Vivia ainda; mas encontrei-o em tal estado que não parecia destinado a durar muito. Sua mania não desaparecera. Estava instalado em uma enxerga na adega.
— Compreende.. — explicou-me. — Eu não quero morrer sem tornar a ver meus filhos. Mas estão demorando tanto!.
Não pude conter a pergunta:
— Mas, sinceramente, tem a esperança?
— Agora tenho —disse ele. — Olhe o que fiz.
Voltei-me e vi que havia agora no centro da adega, no lugar onde ele, meses antes, me dissera existir a máquina, um grande bloco de metal em forma de ferradura, ligado por fios a toda uma série de bobinas, de forma nova.
— Em vez de perder tempo construindo uma nova máquina para partir ao acaso em busca de meus filhos, dediquei-me a descobrir o princípio capaz de deter e atrair a máquina.
— E conseguiu-o? — exclamei assombrado.
— Creio que sim. Estou fazendo a experiência para verificá-lo. Porém, eles estão demorando tanto!…—repetiu em tom lamentoso.—A umidade deste lugar está me fazendo mal e eu temo apressar minha morte. Mas também não quero que eles apareçam e não me encontrem aqui.
Tinha razão. A temperatura da adega devia ser mortal para um homem naquela idade. Então, por piedade — ou talvez com uma vaga curiosidade—, ofereci-me para ficar ali como vigia, comprometendo-me a preveni-lo ao primeiro sintoma de funcionamento do aparelho. Para mim, o sacrifício não era grande. Viera a Roma para estudar, havia ali livros preciosos; poderia empregar bem meu tempo.
O Sr. Bozzoli aceitou com enternecimento; foi transportado para seu quarto e eu me instalei na adega.
Passaram-se vários dias de absoluto sossego. Eu encontrara nas estantes tais preciosidades de literatura antiga que chegava a esquecer as fantasias do Sr. Bozzoli, e sobressaltava-me quando, várias vezes por dia, um criado vinha bater à porta para me perguntar se houvera alguma coisa.
Mas, uma noite, estava quase adormecendo, e fitava inconscientemente o aparelho, quando estremeci ao distinguir uma visão de que a só lembrança, ainda hoje, me faz tremer.
Era como um reflexo humano muito pálido e sem consistência. Chamei todo o raciocínio em meu auxilio contra esse fantasma, que julgava modelado pelo medo; mas, a despeito de todos os meus esforços para não ver, a visão ia pouco a pouco se firmando, e eu acabei por ver nitidamente um homem, um guerreiro com armadura e capacete de aspecto bárbaro. Nesse momento, ouvi um choque violento e vi a máquina pousando no solo com tanta força que se partiu, e seus estilhaços saltaram sobre mim. Um bateu na lâmpada, extinguindo-a; outro, tocou-me o peito rudemente, atirando-me por terra.
Durante alguns minutos, não ousei mover-me e julguei que meus cabelos houvessem encanecido. Mas, no horrível silêncio que seguiu, ouvi duas respirações: a minha e a do recém-chegado, ambas arquejantes. Era de enlouquecer.
Mas não podia ficar assim. A adega estava fechada; não deixava passar o menor rumor. Portanto, eu não podia esperar socorro de fora. De resto, nada podia ser mais terrível do que aquele silêncio.
Cautelosamente, tirei os fósforos da algibeira e, de súbito, risquei um. Só me atrevi a olhar em torno quando a chama se ergueu clara e forte da lâmpada novamente posta sobre a mesa.
O homem ali estava, caído no meio dos destroços da máquina. Era um colosso, com face rude e espessa barba negra, mas só podia ser um dos filhos do Sr. Bozzoli regressando de sua viagem através do tempo. Essa reflexão me restituiu a coragem e, aproximando-me, toquei a fronte do colosso com um lenço molhado.
Ele abriu os olhos e pronunciou algumas palavras em uma língua que, a despeito de sua similitude com o italiano, não entendi.
— Quem é o senhor? — perguntei.
Ele fitou-me inquieto, repetiu a pergunta com voz irritante, depois balbuciou com um evidente esforço de memória.
—Eu sou Rom… Rom…
O resto foi indistinto, como se ele próprio não ousasse pronunciar com clareza. O Sr. Bozzoli nunca me dissera o nome do seus filhos, mas eu lembrava-me de tê-lo visto em uma das estantes livros escolares infantis. Apanhei uma aritmética elementar e li na página de guarda ‘Romualdo Bozzoli, 1° ano’. Pronunciei esse nome em voz alta; o homem sorriu, agitou cabeça em sinal afirmativo e cerrou os olhos, com uma expressão de profunda fadiga.
Compreendi seu estado e tratei de despojá-lo da pesada couraça feita de placas de bronze e amassada em vários pontos pela violência da queda. Ele auxiliou-me com movimentos maquinais, já semiadormecido. Consegui arrastar até o leito seu corpo de atleta, com músculos formidáveis, e deixei-o dormir. A emoção também me deixara em tal cansaço que fiquei junto dele até o romper do dia, refletindo nas consequências daquela espantosa aventura. O fato ali estava, positivo, indiscutível; ali, estavam os restos da máquina: ali estava um homem, que saíra de sua época, fora até os séculos futuros ou passados e voltara como uma testemunha inaudita. Outros seguiriam seu exemplo. O homem já não estava prisioneiro ao tempo; conquistara a eternidade.
Mergulhado nessas antecipações deslumbrantes, só dei por mim ao amanhecer. Então subi para prevenir Sr. Bozzoli. O ancião compreendeu, por meu aspecto, que chegara o momento tão esperado e apenas teve forças para perguntar:
— Voltaram?
— Voltou um apenas… Romualdo.
O pobre velho quis erguer-se, mas estava demasiadamente depauperado, e tive eu que ir buscar o estranho viajante.
Quando entrei na adega, Romualdo despertara e todos os indícios de fadiga tinham desaparecido de sua face. Ao ver-me, empunhou rapidamente sua espada curta e larga, que trouxera ao cinto, como para se defender. Mas, ao reconhecer-me, acalmou-se.
Quando lhe fiz compreender que ia ver seu pai, um fulgor brilhou em seus olhos sombrios de selvagem.
—Padre… padre — repetiu ele. E seguiu-me documente, mas ainda desconfiado, conservando na mão a espada desembainhada. O Sr. Bozzoli estendeu-lhe os braços soluçando; ele hesitava, contemplando ora seu pai, ora o quarto, que parecia reconhecer. Por fim, seus olhos se umedeceram e ele abraçou-se com o velho, murmurando palavras de ternura de envolta com termos desconhecidos. Era evidente que esquecera em grande parte a língua materna e só pouco a pouco a ia recordando.
—E teu irmão? — perguntou o Sr. Bozzoli.
O colosso estremeceu; seu olhar tornou-se mais sombrio, mais cruel. Passou a mão sobre a fronte com ar embaraçado; depois respondeu apena:
— Morreu.
*
Eu nada mais tinha a fazer naquela casa, mas a curiosidade retinha-me e, como o Sr. Bozzoli parecia contente com a minha permanência, deixei-me, ficar, a pretexto de fazer a reeducação de Romualdo, que nada conhecia da vida moderna.
Não era das mais simples essa incumbência Quem observasse Romualdo, sem estar ao par dos singulares incidentes de sua existência, teria a impressão de um perfeito imbecil. Sua linguagem era eriçada de termos incompreensíveis, seus gestos mais simples eram desajeitados e sua ignorância das coisas mais usuais era inverossímil.
Foi somente ao fim de alguns dias, reunindo as ideias, trazendo — como dizia o Sr. Bozzoli — sua mentalidade para nosso tempo, que Romualdo se animou a falar de sua existência nessa prodigiosa viagem; mas, ainda assim, só o fez pouco a pouco e, diante de suas hesitações, eu tinha a impressão de que ele receava nosso espanto ou talvez nossa incompreensão, tão diversa fora sua vida do que era a nossa em nossos dias.
Uma noite, depois de já ter adiantado algumas confidências esparsas, sem ordem, como se ele próprio fosse incapaz de compreender bem a sua odisseia, conseguimos que nos fizesse uma narração mais metódica, que, infelizmente, teve um desfecho bem trágico. Eis em termos gerais o que nos contou:
De fato, tinha descido com seu irmão até o laboratório e, vendo ali uma máquina com assentos semelhantes aos de uma carriola, sentaram-se nela e, maquinalmente, empunharam uma alavanca, colocada à esquerda, como nos automóveis de hoje. Moveu-a, por notar que era presa a uma engrenagem e, imediatamente, sentiram-se arrastados num turbilhão indescritível, com velocidade formidável. As paredes, que o cercavam, desapareceram quase imediatamente e, agarrados à máquina, presos de um terror imenso, urrando de medo, soluçando, viram tumultuar em torno de si paisagens e edifícios sem conta. Quanto tempo durou essa tortura? Não o saberia dizer. Ainda agora, há momentos em que julga ter passado muitas horas assim. De outros, tem a impressão de que foram apenas instantes. Detiveram-se afinal com um choque brusco de encontro a uma árvore e, no mesmo instante, tudo se deteve em torno deles.
Ergueram-se estonteados, com o corpo dorido, e viram que estavam num bosque espesso. Seu terror tornou-se ainda maior, porque até então haviam acreditado que, parando, achar-se-iam de novo em seu lar. Vagaram quase uma hora por esse bosque, até que encontraram um velho, seminu, porquanto tinha como único vestuário uma pele de carneiro, à guisa de tanga. Esse homem interrogou-os numa linguagem de que só percebiam uma ou outra palavra, que pareciam de italiano mal pronunciado. Depois, compreenderam que o velho estivera oculto por entre as árvores por tê-los visto surgir subitamente naquela máquina de forma estranha. Deixaram-se levar por ele para uma cabana e só muitos dias depois, quando começaram a compreender a linguagem daquele pastor, souberam que ele os considerava enviados do céu, personalidades predestinadas, dada a maneira singular como tinham chegado até ali.
Ficaram em companhia desse homem, vivendo frugalmente e ajudando-o a tomar conta de seu pequeno rebanho; porém, seu irmão não se resignava àquela vida e, constantemente, insistia com ele para que fugissem e “voltassem à cidade”.
Uma vez, resolveram ir até ao limite do bosque e, chegando a um espaço descoberto, viram dois grupos de homens armados, que combatiam entre si; mas, ao vê-los, voltaram-se todos com gritos tão ferozes, que se consideraram perdidos.
— Não sei ainda o que nos teria acontecido se o velho pastor não aparecesse correndo ansiosamente à nossa procura e não se precipitasse para os guerreiros, estendendo para eles mãos súplices. Mas aqueles homens rudes insistiam em apoderar-se de nós. Então, o velho teve a inspiração de uma audaciosa mentira para nos salvar.
— Cuidado! Não ofendam os deuses! Essas crianças são enviadas do céu para governar o mundo. Eu, que os recolhi errantes no bosque, bem o sei.
Nesse instante, apareceu na orla do bosque uma loba já muito velha, que fugiu diante do tumulto.
— É um presságio — disse um soldado.
O pastor aproveitou essa superstição para mais ornar sua engenhosa fábula.
— Homens valorosos! — exclamou ele. — Honrai o animal sagrado de Marte. Quando essas crianças foram expostas nuas no bosque, foi essa loba que os alimentou com o seu leite.
Então, todos os que ali estavam se prosternaram diante de nós com a face sobre a terra.
O Sr. Bozzoli ergueu-se deslumbrado.
—Rômulo… Tu viveste a existência de Rômulo, o fundador da cidade eterna.
Mas logo sua face se tornou livida; ele agitou as mãos num gesto de profundo horror e balbuciou:
—Mas então… Mas então, desgraçado, tu assassinaste teu irmão Remo.
*
É profundamente melancólico confessar que a morte de um dos mais admiráveis gênios do mundo foi um acontecimento tão obscuro como sua vida. Aquela última emoção libertou a alma do Sr. Bozzoli, que expirou esmagado pelo destino sangrento a que o condenara seu filho.
Romualdo ficou por alguns dias acabrunhado com aquela morte; mas, depois, à proporção que se ia habituando à vida moderna e conhecendo os acontecimentos, que tanto haviam atribulado a existência de seu pai, tornou-se extraordinariamente cauteloso e discreto. Toda a afeição que eu lhe dedicara, ele aproveitou para exigir de mim uma promessa formal de guardar silêncio sobre suas aventuras. Somente a muito custo consegui que me relatasse de que modo conseguira voltar a nós.
— Foi a causa mais simples deste mundo; depois de reinar sobre Roma por muitos anos, tive contra mim agitações tão frequentes que compreendi estar meu poderio irremediavelmente comprometido. Não tardaria uma revolta em que eu seria, decerto, vencido. Então, comecei a buscar o meio de evitar o desenlace fatal. Felizmente, a máquina fora zelosamente conservada pelo culto do ingênuo e bom pastor, que a considerava objeto sagrado e velara atentamente para que ninguém lhe tocasse. Quando fui feito rei da cidade que fundara, mandei construir para abrigo dessa máquina um templo votivo e, a pretexto de orar aos deuses, ia ali muitas vezes meditar, procurar recordar-me que mola movera para pô-la em marcha.
À força de refletir, eu compreendera o inaudito: que aquela máquina se deslocava no tempo e não no espaço. Notei atentamente um quadrante colocado diante dos assentos e por ele verifiquei que, em minha viagem, a agulha desse quadrante percorrera vinte e seis divisões. Daí, concluí que poderia voltar ao tempo de onde parti fazendo a mesma viagem em sentido contrário. Num dia, em que a revolta parecia prestes a estalar, e fazia grande tempestade, fechei-me no templo, sentei-me na máquina e movi a alavanca, exatamente quando fulguravam na floresta relâmpagos sem conta. Deve ter nascido dessa circunstância a legenda, que o senhor me contou, e pela qual se diz que o primeiro rei de Roma foi levado ao céu por uma faísca de fogo.
*
Satisfeita essa minha curiosidade, ele fez-me jurar que nunca mais faria perguntas e eu voltei para Paris. Romualdo deve viver ainda hoje num arrabalde de Roma, como um burguês pacato.
Compreendo sua prudência. Seu pai passou por louco, esteve por muito tempo num hospício. Se ele dissesse a verdade sobre o seu passado, não hesitariam em dar-lhe o mesmo destino.
Fonte: “Eu Sei Tudo”/RJ, edição de julho de 1922.
Ilustração: PS/Copilot.


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