O FILICIDA - Narrativa Verídica Cruel - Autor anônimo do séc. XIX
O FILICIDA
Autor anônimo do séc. XIX
Richard Jeffery era um alfaiate da City casado há oito anos. A mulher, porém, não pôde suportar por mais tempo um gênio tão iracundo e cruel, e uma separação amigável se realizou, retirando-se ela para casa da mãe, em Holbron, com uma criancinha.
Em 30 de julho passado, Jeffery foi à casa da sogra, onde estava o filho, e exigiu a companhia deste. Era um domingo de tarde. A criança estava na cama e, ao ver entrar o pai, começou a gritar com as mãos postas:
—Não me leve daqui, não, pai!
Este não fez caso e não atendeu nem às lágrimas nem aos rogos da sogra.
Pegou o filho o levou-o. Isto se passou em Holbron.
Jeffery atravessou High Street, e meteu-se numa daquelas hediondas ruas que vão ter a Seven Dials, o mais horrível nos bairros de Londres. Chegou depressa a uma casa de White Lion Street, onde residia o cunhado, ao qual pedia licença para ali dormir com a criança.
Antes de deitar, Jeffery tomou o filho entre os joelhos e fê-lo rezar.
Depois, deitou-se com a criança ao lado.
O sono não queria conciliar-se com Jeffrey.
Um pensamento infernal revolvia o cérebro deste homem, e lhe fazia despertar o sono — era o assassínio do filho! Quis afastar da ideia este sinistro pensamento que o torturava; mas baldados foram os esforços.
Continuou nesta luta, e afinal disse lá consigo:
—Hei de matar o rapaz!
Jeffery saltou abaixo da cama, cheio de resolução, e disse à criança que se levantasse para o acompanhar.
A irmã e o cunhado quiseram opor-se à partida, mas o assassino estava inexorável.
— É preciso que sejas muito má — disse ele à irmã — para supores que eu seja capaz de fazer algum mal a esta criança. Vou para o campo com ele, facilmente o não tornarás a ver.
A criança pôs-se a chorar, mas o pai indicou-lhe a porta da rua, dizendo:
—Marche!
Havia de ser duas horas da manhã e a noite estava fria e medonha.
Jeffrey meteu-se em Neal’s Passage e entrou às apalpadelas numa casa arruinada, exposta por todos os lados ao vento. Disse à criança que sufocasse a respiração, e desceu com ela, no meio da maior escuridão, um lanço de escadas toscas e escorregadias, atravessou depois um corredor, tornou a descer novos degraus, deu alguns passos para diante e fechou uma porta atrás de si.
Acendeu um coto de vela que levava na algibeira.
A criança deu um grito medonho.
Estavam num pavimento subterrâneo de paredes denegridas, nuas e úmidas, cobertas destas pastas pegajosas que se encontram sempre nos lugares imundos; o chão desaparecia debaixo do estrume e da podridão; no meio, havia uma cisterna de boca aberta e de todo este antro imundo e horrível subiam emanações tão infectas que a criança logo desmaiou.
O assassino relanceou em torno de si.
À boca da cisterna estava espetado um barril meio podre. Jeffery atou na extremidade uma corda de que ia munido, tomou a criança nos braços, passou-lhe o nó corredio ao pescoço e deixou ficar o infeliz filho dependurado sobre a boca da cisterna. E logo em seguida o monstro apagou a vela e fugiu a passos precipitados do lugar do crime, indo esconder-se em Halifax, onde obteve trabalho com o nome suposto de Samuel Mortimer.
Mas o diabo, que mal as tece, deixou que Jeffery, um dia em que bebeu vinho demais, estendesse mais alguma coisa a língua. O certo é que em 15 de setembro, estando ébrio, Jeffery badalou demais a lingua e desvelou o seu crime, constituindo-se até prisioneiro. Depois, ainda quis retratar-se, mas já era muito tarde.
Jeffery foi julgado em Londres e, convencido do crime, logo condenado à forca.
Mais tarde fez as mais completas e terminantes revelações.
Depois da condenação, operou-se neste homem a mais completa transformação: já não era o mesmo homem. Cheio de sentimentos religiosos, assistia regularmente aos ofícios divinos da capela da prisão e gostava muito de conversar com o capelão.
Só duas pessoas o foram visitar—o irmão e a irmã, de quem fez as suas últimas despedidas a um sábado.
No dia seguinte, Jeffery ouviu com muita atenção o sermão dos condenados que o capelão pregou. Na noite de segunda para terça-feira, enquanto se armava o cadafalso ao lado de Newgale, começou a afluir a turba buscando aquilo que se chama uma boa conveniente posição: pôde-se avaliar, sem exageração, o número das pessoas que assistiram ao lúgubre espetáculo em vinte mil.
Às 8 horas precisas, o dobre fúnebre da prisão anuncia ao condenado que é chegada a hora fatal.
Toda a massa dos espectadores deixa de se agitar em todas as direções; segue-se um silêncio de morte, que domina esta turba até ali tão tumultuosa e inquieta.
Abre-se, com efeito, a porta e assoma por ela Jeffery.
É um homem de 30 e tantos anos, estatura pequena, figura seca e aparência respeitável, como se diz em inglês.
Ninguém julgaria, ao ver este homem, que ele fosse capaz de cometer um crime tão monstruoso.
O condenado subiu ao patíbulo com passo firme, não cessando nunca de tributar suas orações a Deus.
Depois, Calcraft meteu-lhe o carapuço verde até os olhos, passou-lhe o nó corredio ao pescoço e fez trabalhar o maquinismo que se ocultava debaixo dos pés de Jeffery.
O corpo estorceu-se, por momentos, em horríveis convulsões; logo após, viu-se a contorção dos músculos como se fossem movidos por uma corrente galvânica.
Estava tudo acabado e a justiça dos homens ficou satisfeita.
Fonte: O Publicador/PB, edição de 5 de fevereiro de 1867.

Comentários
Postar um comentário