A LÂMPADA MARAVILHOSA - Conto Clássico Fantástico - J.-H. Rosny
A LÂMPADA MARAVILHOSA
J.-H. Rosny
[Joseph Henri Honoré Boex (1856 – 1940) e Séraphin Justin François Boex (1859 – 1948)]
Ao encontrarmo-nos todos reunidos, Charles Labarre começou a acender a lâmpada, uma daquelas velhas lâmpadas que, quando se acendem, se põem a despedir certos ruídos como soluços de ébrio. Procedia à operação de acendê-la com um ar de alquimista. Barrat pôs-se a rir:
— Será esta a lâmpada de Aladim?
Charles Labarre ficou pensativo:
—É, na realidade, uma lâmpada maravilhosa. Há mais de meio século que está na família, e eu preferiria dar cem mil francos a perdê-la. Se, por acaso, se desarranja, eu mesmo a reparo, e todos os dias preparo-a e acendo-a com as minhas próprias mãos.
Enquanto Labarre falava, a lâmpada fora, pouco a pouco, alteando a chama. Espalhava uma claridade amarelada, muito suave e muito igual. E Labarre prosseguiu:
—Sinto por esta lâmpada um afeto enorme, como não sinto por muitas pessoas. Foi ela que iluminou as minhas vigílias, e assistiu tanto às minhas dores como às alegrias. E, além disso, tem sua história. Se eu fosse supersticioso, poderia dizer que ela exerceu uma influência benéfica sobre a minha família. Não sou supersticioso. Todavia, em certos momentos, não me vejo longe de atribuir-lhe uma espécie de vida, milagrosa, por assim dizer. Vocês verão, pois não resisto à tentação de lhes relatar agora algumas das aventuras em que ela desempenhou um papel importante.
A primeira remonta a 1804. Não pertencia ainda à nossa família nessa época. Era por uma tarde belíssima, à hora do crepúsculo; um magnífico colorido de rubi, esmeralda e topázio, matizava as nuvens. Os lilases e os jacintos projetavam, através do espaço, suas almas fragrantes. Emergia da terra toda uma doçura palpitante que repercutia nos sentidos dos homens. Minha bisavó Julienne, jovem então, com a cabeça adorável, povoada de sonhos, havia descido ao parque com sua aia Anastasie, e puseram-se a caminhar, ao acaso, até onde começavam as sementeiras no vale do Ivelaine. Descera a noite e a abóbada imensa do firmamento enchera-se de cintilações; a Via Láctea desdobrara sua romagem de estrelas. Chegaram ao rio. O Ivelaine alargava-se, trêfego, buliçoso.
Julienne ouvia por instantes as suas vozes, sem sentir a mínima inquietação. Subitamente, houve um rumor formidável, que tanto tinha de detonações de artilharia como de queda de blocos enormes na montanha: era a água que, rompendo os diques, se precipitava na planície. Julienne não compreendeu logo, mas a aia Anastasie, ensinada por uma larga experiência, exclamou:
—É a inundação, minha ama. Precisamos pôr-nos a salvo quanto antes!
Mas, por desgraça, as duas passeantes achavam-se no fundo do vale. As torrentes precipitavam-se em meio da escuridão, sem que nenhuma das duas pudesse determinar a direção. Assustadas, nervosas, perderam a cabeça. Tão depressa fugiam para um lado como para outro… Enquanto isso, a água aproximava-se. O seu rumor parecia o de rebanho e vislumbravam-se fosforescências terríveis. E como era a mesma coisa de todos lados, tornava-se impossível adivinhar onde ainda poderiam estar livres os caminhos. A velha Anastasie, que, a principio, se mostrara resoluta e sagaz, desanimou, entretanto, mais depressa que Julienne. E gritava, como louca:
—Vamos perecer! Morreremos aqui!
Acabara por sentar-se, completamente abatida, com o avental sobre a cabeça, esperando a morte. Julienne, quase tão fora de si quanto a aia, deitava em volta olhares desesperados. De repente, viu um clarão nas trevas, aquele clarão dos contos de fadas, das lendas, quem todos os tempos têm sido como um símbolo do socorro inesperado. Sentiu-se animada por uma confiança inexplicável e exclamou em voz firme:
—Vamos, Anastasie! Encontrei o caminho…
E, arrastando a aia, correu com quantas forças tinha. Passaram ainda um momento terrível, em que as ondas bramiam junto das fugitivas. Mas, primeiramente, salvou-as um montículo; depois, uma especie de calçada. E, guiadas sempre pela luz, chegaram, por fim, a uma casa toda branca, na falda de uma colina. Estavam, afinal, fora do alcance das águas. As boas e honradas criaturas que ali viviam acolheram-nas. Passaram a noite à luz da lâmpada, daquela lâmpada que as salvara com o seu clarão, e pela qual Julienne demonstrara tamanha gratidão que os seus donos lha ofereceram como recordação daquele salvamento.
*
Uma vez entrada na família, teve essa lâmpada uma história digna do começo. Era ela que presidia aos acontecimentos sérios ou alegres, mas geralmente favoráveis, como, por exemplo, a fortuna de meu pai.
Como vocês sabem, meu pai era historiador. Tinha a mania dos documentos. Naquela época, a região de que somos originários formigava, por assim dizer, de peças curiosas escondidas em antigas casas solarengas, cujos proprietários se prestavam indulgentemente à mania de meu pai. E aconteceu que um velho maníaco, o último descendente de uma família letrada, legou a meu pai toda a sua propriedade. Era, em verdade, pouca coisa: uma torre gretada, algumas muralhas em ruínas, quatro ou cinco hectares de terra inculta, cheia de pedregulhos. Mas era um verdadeiro ninho de documentos, de inscrições estranhas, de restos sugestivos e curiosos. Meu pai instalou-se aí um verão inteiro e começou a fazer escavações. Algumas vezes, prolongava-as até muito tarde e, munido de uma boa lanterna, sondava as velhas muralhas, visitava armários e esconderijos. Uma noite, a lanterna partiu-se. Tentou substituí-la por uma lâmpada de cozinha, mas essa lâmpada desprendia tanta fumaça que se viu obrigado a renunciar a ela. Foi então buscar a lâmpada e, com toda a precaução, utilizou-a para iluminar uma câmara abobadada, onde suspeitava que houvesse segredos. Estivera aí vinte vezes, no mínimo, e sempre em vão: todavia, o fracasso só fazia excitá-lo ainda mais.
Batia nas muralhas, arrancava o revestimento, sondando com o auxílio das suas ferramentas. Nada! Por fim, num acesso de bom humor, em que havia algo de burlesco, voltou-se para a lâmpada e apostrofou-a:
—Entraste na família salvando minha avó Julienne… E, afinal, que farás? Dizendo estas palavras, ia caminhando a passos curtos, com a lâmpada perto da muralha. De repente, a chama deu uma espécie de salto, depois agitou-se, virou-se e aumentou.
—É curioso… — murmurou meu pai, sempre em tom pilhérico. — Qualquer pessoa diria que me estás respondendo…
Parou e viu na pedra uma fenda muito ligada.
—Bem!— exclamou, rindo francamente. — Tomarei como favorável a tua resposta. Vejamos, pois, o que pode haver aqui…
Colocou a lâmpada no meio da câmara e, armado com todas as ferramentas necessárias, começou a trabalhar. Após uma hora esforços, acabou por arrancar um bloco silícico, e deparou-se-lhe um esconderijo quadrado, do qual saía um odor estranho. Apareceram ossos, telas velhas e mofentas e, no fundo, uma caixa retangular, coberta de limo e azinhavre, que meu pai apanhou com um grito de júbilo.
Esperando, por certo, encontrar dentro algo de valor e curioso, apressou-se em fazer saltar a tampa.
Ficou, então, aturdido de surpresa e alegria: a caixa estava, à altura de um terço, coalhada de joias: diamantes, rubis, safiras e topázios, pedras formosíssimas que representavam uma grande fortuna. E meu pai era o legítimo herdeiro da família que ocultara ali aquelas riquezas.
Quanto à lâmpada, um físico nos explicaria sua intervenção formulando a hipótese de gazes escapados pela fenda. Explicação que, até certo ponto, seria muito plausível. No entanto…!
*
Passarei a narrar-lhes o terceiro acontecimento, que, desta vez, me diz respeito e é de ordem idílica.
Tinha eu vinte e quatro anos. Estava enamorado como um louco por Hélène Fombreuse. Sentia por ela uma paixão violenta, que partilhava com dez rivais. Hélène era formosíssima e havia recebido os dons misteriosos da graça e do encanto, não só porque tinha os cabelos mais louros e sedosos que vira em minha vida e os lábios mais rubros que se pudessem imaginar, como porque também um feitiço singular acompanhava todos os seus movimentos, e emanava dela toda uma força poderosa e suave. Ela, demasiadamente cortejada, demasiadamente desejada, não se decidia a escolher entre os seus admiradores.
Uma vez, assistia ela a uma recepção que meus pais davam em nosso castelo de “As Gaivotas”. Uma noite magnífica estendia-se sobre as árvores. Dançava-se rio relvado e, durante os intervalos, passeavam os pares pelos jardins e alamedas do parque. Aconteceu, então, que Hélène, desejando estar sozinha um momento, se perdeu, passeando, por um daqueles intrincados caminhos, afastando-se cada vez mais do castelo. As luzes dos terraços e salões eram interceptadas pelos maciços de verdura. Impaciente, a jovem caminhava apressadamente, conseguindo apenas afastar-se e perder-se cada vez mais. Por fim, divisou uma luz… A pequena luz dos contos de fadas, longe, no fim de uma estreita alameda! Instintivamente, encaminhou-se para ela e acabou por se encontrar no extremo de uma vala do castelo, e pôde ver, através de uma janela, velada por uma ligeira cortina, uma mesa grande, esculpida como os moveis góticos, uma cadeira que tinha o tamanho de um leito, uma lâmpada e um livro aberto. Era uma cena muda. Os móveis e a lâmpada pareciam ser os únicos personagens. Hélène sentiu uma grande curiosidade. Empurrou a porta e, afastando a pesada cortina, entrou no salão. Inclinou-se sobre o livro, que era um formulário místico, e leu: “Tu, que vieste através da noite, até a casa solitária, entrarás e farás parte da família do primeiro homem que vier encontrar-te”.
Enquanto Hélène lia, ouviu-se um ligeiro rumor, e ela sentiu um grande estremecimento, porque o silêncio, a solidão e a sua caminhada prolongada a haviam posto muito nervosa.
Abriu-se outra das portas, e viu aparecer meu pai que, deixando a minha mãe ao cuidado dos convidados, ia descansar um instante no seu gabinete de trabalho. Sorriu para a formosa jovem e interrogou-a alegremente sobre os motivos que a haviam levado até aquele sitio afastado.
A conversa de meu pai era encantadora e Hélène, ao reaparecer no terraço, guardava da sua pequenina aventura uma recordação terna. Não pôde deixar de pensar naquela frase do formulário... Compreendia, ao mesmo tempo, que não lhe seria nada desagradável entrar e fazer parte da nossa família... E dia a dia me preferia mais que aos meus rivais, até que, finalmente, me concedeu a pequenina mão perante o cura de Santo Inácio e o alcaide de Tanneguy.
E eu procuro, em vão, libertar-me da crença encantadora, mas absurda — confesso —, de que a nossa lâmpada tivesse atraído naquela noite a minha amada para junto do velho livro místico.
Fonte: “Almanaque Eu Sei Tudo”/RJ, nº 14, 1944.
Fizeram-se breves adaptações textuais.
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