O VAMPIRO - Conto Clássico de Terror - Caius Martius

O VAMPIRO
Caius Martius1

(1888 – 1954)


É deveras com imensa saudades que me lembro da primeira noite de luar que passei na margem do misterioso Araguaia, o sítio de maior encanto do sertão goiano.

Aquela noite silenciosa, interrompida, tão somente, pelo murmúrio das águas que naquela parte do rio deslizam docemente, impunha um não sei o quê de mistério.

As areias brancas da praia interminável pareciam, pois, de prata, em que o luar claro como dia vinha refletir-se.

Tínhamos abandonado o bote, obrigados pelos mosquitos e muriçocas que, num concerto interminável, traziam a irritação aos nervos mais fortes.

Armadas as nossas redes na esplêndida margem do mais piscoso rio daquelas bandas, ficamos a dar a língua, contando anedotas, lembrando episódios da longa jornada que houvéramos empreendido, enquanto alguns outros da comitiva atiçavam a fogueira, à espera das matrinxãs que alguém fora pescar.

A conversa foi, pouco a pouco, entrando por vários assuntos, até que derivou, definitivamente, para o terreno do sobrenatural, que é o objeto preferido pelo sertanejo dissertador.

A palestra ia já a uma certa altura. Cada um contava um caso que se dera com o narrador ou com um parente seu, até que chegou a vez do Sr. Rodrigues, um guia muito prático em coisas do sertão, o qual eu conheci naquela ocasião, e que fora, mais tarde, o meu companheiro de viagem pelos interiores de Minas e Goiás.

Depois de haver o narrador sorvido num coité2 uma última golada de café adoçado com rapadura, acendeu com um tição o seu cigarro de palha, tirou duas fumaças e principiou:

—Esta história que eu vou contar não sucedeu comigo: ouvia-a do Marjó Tobias, que foi por muito tempo fornecedor do presídio de Jerupensém.

“Aí vai ela:

“No tempo do Dr. Couto Magalhães, quando foi governador da província3, o comércio começou a se fazer com mais força por estas bandas.

“Todos os anos, passavam por aqui alguns viajantes, compradores de peles e vendedores de sal.

“Numa dessas vezes, resolveram pernoitar, onde estamos justamente, a fim de receberem, no dia seguinte, dez sacos de castanhas do Pará que tinham encomendado para a volta.

“O calor a bordo era horroroso àquela noite, e isto sem falar nas muriçocas e mutucas que lhes não davam trégua.

“Resolveram, então, desembarcar, não só para gozarem do fresco da noite, como também fugir aos pernilongos que não se animam a aproximarem-se da fogueira.

“Cada qual, com a sua rede de corda às costas, foi à escolha do local que mais o agradasse.

“Uma vez armadas as redes, afastaram-se, uns à cata de gravetos para iniciarem a fogueira, outros à procura de algum jacu4 desgarrado ou de algum jaó5 perdido na mata, ou à busca de algumas traíras para a ceia.

“No entanto, o último desembarcado, não encontrando os outros companheiros, deitou-se na areia e ali se deixou ficar à espera que eles voltassem. Já ali se achava por algum tempo, quando, ao cair da tarde, no momento em que os vaga-lumes começam a piscar, viu ele sair, de um grosso tronco carcomido, um ser de pequena altura e cujas feições o escuro da tardinha impedia se distinguissem.

“Andava aos saltinhos, tal como tico-tico6.

“Na mão, que mais parecia uma bola, trazia uma varinha. Abeirou-se cautelosamente, deu na rede, cujo cumprimento mediu com a tal varinha.

“Repetida a mesma operação, nas demais, sempre aos pulinhos, desapareceu entre as árvores.

“Logo que os outros viajantes voltaram, contou-lhes, o que ficara deitado na praia, que vira uma espécie de saci mexendo nas suas redes.

“Riram-se do medroso, que não cansava de insistir para que tornassem todos para o bote.

“—Como quiserem — respondeu, aborrecido. —Vocês podem ficar, eu é que não estou para sofrer qualquer desgraça. Prefiro os mosquitos a dormir num lugar cheio de coisas esquisitas.

“E, debaixo das chalaças dos companheiros, foi para o barco.

“Não lhes conto nada — arrematou o seu Rodrigues. — No dia seguinte, como o sol fosse alteando e os negociantes, na beira do rio, não aparecessem para tocar pra frente, foram alguns barqueiros à procura deles.

“Encontraram todos mortos nas suas redes, com a pele pregada aos ossos.

“De carne, nem sombra!”

— Que lhes aconteceu? — perguntei.

— O doutor não adivinha? Foi o vampiro, seu doutor. Não viu como ele veio à boca da noite tirar medida das redes dos infelizes?

“Foi o vampiro, esse raio do inferno que veio, de noite, chupar os desgraçados.”

Calei-me… Calamo-nos todos.

O luar cada vez mais belo…

O silêncio misterioso envolvia todo aquele ambiente.

O rio era um espelho encravado numa placa de prata.

No mistério daquele silêncio, fiquei a sismar, sem noção do tempo…

A fogueira estava a se extinguir; e eu, cheio de saudades de uma vida que não vivera, continuava a cismar.


Fonte: “Vida Policial”/RJ, edição de 5 de setembro de 1925.


Notas:

1Pseudônimo de Cláudio Martins.

2Pequena cuia feita do fruto (cabaça) da árvore homônima.

3Entre 1861 e 1864.

4O jacu, também chamado "cujá"e "penelope", é um gênero de aves encontradas nas Américas Central e do Sul.

5Ave típica do cerrado brasileiro.

6Passarinho típico das Américas Central e do Sul.

 

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