UMA FERA HUMANA - Narrativa Verídica de Horror - Autor anônimo do séc. XIX
UMA FERA HUMANA
Autor anônimo do séc. XIX
Um indivíduo chamado Caledonio Mesa, sujeito de instintos ferozes e que mais de uma vez teve que arranjar contas com a Justiça, habitava recentemente na campanha de Tapalqui.
Na tarde do último dia de janeiro, Mesa saiu de um racho, onde vivia em companha de sua mulher e um filhinho de seis meses, para assistir a umas carreiras que tinham lugar neste dia, a pouca distância de casa.
Afastou-se ele de sua casa, como sempre acompanhado de seu facão e montado em seu cavalo oveiro.
Assistiu às carreiras, onde por dúvidas em uma aposta trocou palavras com outro paisano, palavras que bem depressa trocaram-se em luta sanguinolenta.
Pouco momentos depois, o antagonista de Mesa caiu com o peito crivado de punhaladas.
Mesa montou em seu oveiro e se afastou rapidamente do lugar, chegando à sua casa com a agitação do crime e a razão alterada pelo álcool que tinha tomado nas carreiras, entrou terrível no seu rancho, onde principiou a acomodar algumas prendas que desejava levar, pois essa noite abandonaria o partido de Tapalqui.
A mulher, horrorizada pelo aspecto feroz do marido, aproximou-se-lhe e perguntou carinhosamente o que tinha.
—Acabo de matar um homem — disse-lhe mesa — e me ausento antes que me prendam.
— E não me levas?
— Não te levo. Fujo, fujo e talvez não te veja mais.
— E nosso filho? — perguntou, chorando, a companheira de mesa. — Que será de nosso filho? Morreremos de fome e de miséria!
— Não me importa nada. Eu fujo — replicou Mesa, acomodando apressadamente as suas prendas.
—Pois não te imporia nada de nosso filho? — acrescentou desesperadamente a mãe, puxando-o pelo ponche, em momentos que Mesa passava o umbral do rancho. — Pois não sairás daqui!
Mesa deteve-se e olhou sua mulher com uma expressão sombria: em seu rosto decomposto estavam pintados todos os instintos selvagens.
—Espera — disse-lhe esta e, indo a um canto do rancho, onde estava o filho, trouxe-o e perguntou resolutamente:
—Com que nada lhe importa nosso filho?
Mesa olhou a mulher, olhou a seu próprio filho e cresceu em ferocidade, a qual estava pintada em seu semblante. Tomou em seus braços a criança e contemplou-a um momento.
Em seguida, saiu e, agarrando-a pelos pés e agitando-a com força, atirou-a para o ar.
Sua mulher lançou um grito de terror e precipitou-se a receber em seus braços o corpo daquela criatura, que descia dando voltas. Porém, inutilmente. Mesa, que era muito mais alto, recebeu-a na ponta de seu facão, por cuja folha correu até o seu próprio punho, e atirando-a ao rosto da mãe, depois de tirar o facão o secá-lo do sangue de seu filho.
Afastou-se dizendo-lhe:
— Aí tens o que me importa essa porcaria.
Em seguida, montou a cavalo e afastou-se em uma carreira vertiginosa.
A mulher de Celedonio Mesa esteve louca um mês, durante cujo tempo não se ouvia falar daquele feroz assassino.
Por fim, Musa armou uma rixa em uma taverna do Bragada, onde foi preso e remetido como autor do um homicídio que cometeu ali, há tempos.
Remetido às autoridades, enquanto se julga a sua causa, Mesa habita uma célula na penitenciária.
É o criminoso mais repugnante que está preso naquele estabelecimento. Este horroroso fato é desse modo referido por um nosso colega do Buenos Aires.
Fontes: Jornal da Tarde/SP, edição de 22 de abril de 1879 e Monitor Campista/RJ, edição de 23 de abril de 1879.
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