BICHANINHA - Conto CLássico de Horror - Medeiros e Albuquerque
BICHANINHA
Medeiros e Albuquerque
(1867 – 1934)
Pálida, com os cabelos pretos destacando-se na alvura da fronha, os olhos meio cerrados em uma prostração profunda, Nenê descansava, tendo ao lado o filhinho, nascido de poucas horas, quando a Leonor invadiu-lhe o quarto, gritando:
— Nenê, Bichaninha também teve os filhos…
A moça, com o abrir súbito da porta e o grito estrídulo da menina, teve um susto violento: o corpo todo lhe tremeu, um nó cerrou-lhe a garganta e uma onda de sangue subiu-lhe ao rosto, corando-a vivamente.
Mas a Leonor, sem notar o que fizera, continuava a tagarelar:
— Você não imagina, Nenê… São quatro gatinhos pretos, muito bonitinhos… Nasceram de olhos fechados e estão só miando… Miam tão fininho que parecem pintinhos… Quer que eu traga para você ver, Nenê?
A moça, mais repousada do susto, disse apenas fracamente:
— Não, Leonor; deixa-os lá mesmo onde estão…
E, enquanto a menina saía como um foguete, correndo para junto da Bichaninha e dos gatos, Nenê desceu do travesseiro a cabeça para beijar o filho, que dormia então um desses sonos profundos em que os recém-nascidos passam longas horas. E ficou-se a mirá-lo demoradamente, com uma expressão de olhar saturada de infinita ternura…
Primeiro filho, filho nascido aos vinte anos de um casamento de amor: que carinho sem nome não tinha a jovem mãe por aquela criança! O rostinho muito rosado, de traços ainda incertos, com a moldura branca das rendas da touca enfiada por uma fitinha azul, parecia-lhe formosíssimo. E, demais, ela admirava extasiada a fragilidade e a pequenez daquele corpinho tão mimoso. Abriu-lhe a mãozinha e ficou-se sorrindo, a admirar-lhe a graça: parecia de boneca…
Nisto, a Leonor voltou. Vinha ainda falar dos gatos:
— Sabes, Nenê, que gata malvada! — E tinha, dizendo isto, uma expressão sincera de pena e indignação: — Bichaninha, em vez de carregar os filhos, pega neles mordendo no pescoço e anda de um lado para outro com os pobrezinhos… Que bicho ruim!
— Mas, tolinha — disse sorrindo Nenê —, como querias tu que ela fizesse? Por certo que não os podia trazer ao colo, como uma pessoa… É assim mesmo que todas as gatas fazem…
Decididamente, porém, aquelas explicações não satisfaziam a menina, que estava preocupada com o caso. Saiu de novo, com a pressa em que sempre andava, estouvada e nervosamente, e voltou a ocupar-se do problema que a interessava de um modo extraordinário.
Bichaninha era a gata querida de casa; uma gata branca, alta e gorda, que vivia à fidalga, de colo em colo, amimada amorosamente por todos. Nos últimos tempos da gravidez de Nenê, aparecera também grávida; e era um tema de caçoadas em casa, quando a gata ia seguindo a moça, ver as duas, andando ambas com o meneio indolente e desajeitado dos ventres proeminentes. Gracejando, dizia-se muitas vezes, que ambas dariam à luz no mesmo dia. Foi, de fato, o que veio a suceder. Os dois partos tiveram lugar quase simultaneamente: os primeiros vagidos da criança soaram pouco antes dos primeiros miados dos gatinhos. A coincidência, notaram-na em casa com grande alegria e muitas risadas. As duas mães estavam ambas em estado satisfatório; os recém-nascidos todos bons — e a algazarrenta Leonor não sabia como repartir os seus beijos e carinhos entre o pequerrucho sobrinho e os filhos da Bichaninha. Parecia dividir por todos a mesma afeição, distribuída com a mais inteira imparcialidade, em fatias iguais de bem-querer.
Nenê tinha, porém, uma leve contrariedade: o marido estava fora, servindo como engenheiro perto de Friburgo. Para lá lhe telegrafara: “Tens um filhinho nascido hoje, às 10 horas da manhã, que espera a tua benção. Saudades.” Mas receberia ele o telegrama? Essa dúvida a inquietava um pouco. Estava ansiosa por vê-lo. A alegria só seria completa quando estivessem ali os dois, pai e mãe, mais unidos ainda e mais amorosos junto daquela vidinha frágil, que de ambos participava.
Felizmente, o parto fora bom. O médico deixara-a, ao sair, com uma ligeira elevação de temperatura, mas sem receio de complicações. Recomendara apenas todo o sossego e proibira que conversasse. A única pessoa que contrariava essa ordem era Leonor, que, no constante rebuliço em que sempre andava, vinha de quando em quando ao quarto e obrigava a irmã a responder-lhe.
Nisso, entretanto, não estava o grande mal. O pior era que, com o seu modo estabanado de entrar, abrindo a porta de repente, assustava a moça, a cujo estado de fraqueza qualquer comoção se tornava muito sensível. Da última vez em que isso se deu foi à noitinha. Leonor deu um tal grito à entrada do quarto, que Nenê, então meio adormecida, sentou-se na cama assustada e teve um choque nervoso extraordinário. A causa do berreiro era ainda a Bichaninha. A gata vinha trazendo um dos filhos para o quarto da moça, quarto onde habitualmente costumava estar.
— Aí vem a Bichaninha! Aí vem a Bichaninha! — anunciava a Leonor, em altos brados…
A gata entrou, passeou os olhos pelo aposento e, avançando um pouco, trepou sobre a cama da moça. Foi outro choque. Nenê temeu que ela arranhasse o menino e deu um grito de susto tão forte que chegou a espantar o próprio animal. Bichaninha, sempre com o gato seguro nos dentes pelo pescoço, armou o salto, pulou da cama no chão e foi levá-lo para o canto, seguida pela gritaria da Leonor:
— Lá vai a Bichaninha! Lá vai a Bichaninha!
Sucessivamente, o animal foi buscar os outros três filhos, trazendo-os todos pelo pescoço, presos nos dentes. E acomodou-se com eles no recanto do aposento.
Com os abalos que tivera, a febre de Nenê cresceu durante a noite. Ninguém, entretanto, podia esperar que tal sucedesse: ainda ao escurecer a temperatura do seu corpo era pouco mais da regular. Assim, não se tomaram as cautelas que exigiria o seu estado, se fosse previsto. Ficou a rapariga que a servia dormindo na esteira junto à cama, para ser chamada quando fosse necessário. E tudo caiu em sossego.
A certa hora, o menino chorou. Nenê acordou e deu-lhe o peito a mamar. Já então ela estava ardendo em febre: devia ter mais de trinta e nove graus. O leite secara inteiramente. A criança ora soltava, ora chupava o seio, e, não sentindo nada, agitava-se irrequieta. A febre ia crescendo. Veio o delírio. Pelos olhos da moça começaram a desenrolar-se cenas estranhas e fantásticas: era um desfilar interminável das mais loucas alucinações. Ela principiou a falar, conversando com as visões que o delírio evocava. E certamente para aumentar-lhe a ilusão concorria a voz do filhinho que descolara a boca do seio e estava em um meio choro resmungado, agitando-se e proferindo sons inarticulados. Nenê, com os olhos muito abertos e muito brilhantes pela febre, não lhe prestava a menor atenção. Olhava para o espaço e, dirigindo-se às imagens que só a sua imaginação febril conseguia descobrir, interpelava-as com todo o desembaraço, conversando animadamente. Começava mesmo a ter uns movimentos convulsos: a febre devia atingir quarenta graus. O delírio não passava. Voltando-se em um dos bruscos movimentos que fazia de instante a instante, olhou para o canto do quarto onde estava Bichaninha: os olhos da gata faiscavam com um brilho fosforescente. A moça ergueu-se um pouco na cama, apoiando-se no cotovelo, e por um minuto ficou inteiramente imóvel, fitando os olhos do animal: parecia hipnotizada por aqueles dois globos de luz esverdeada, cintilando no escuro, lá no cantinho do aposento. Mas, como a febre crescesse mais ainda, as convulsões, embora de pequena violência, amiudavam-se cada vez mais. Em um dos movimentos, ela machucou a criança, que começou a chorar. A criadinha, que dormia junto à cama, fatigada da noite anterior, tinha um sono pesado e roncante: nem ao menos se moveu. Mas o choro fez com que a moça, deixando a fascinação dos olhos acesos do animal, fitasse o pequeno com estranheza. Pôs-se de gatinhas na cama e começou a miar…
Evidentemente, o delírio fazia-a supor que estava convertida em gata, talvez mesmo na própria Bichaninha.
Os lençóis caíram; ficou descomposta, miando, miando sempre… Do ponto onde estava, cuidando talvez que era um agrado, Bichaninha respondeu também, com um som queixoso e fino… Nenê moveu-se na cama, sempre de gatinhas e sempre miando, até chegar perto do menino… Os olhos dela, esgazeados pela febre, luziam tanto como os do animal… Os cabelos pretos espalhavam-se em desordem pelo colo… Uma das mangas da camisa tinha escorregado até o cotovelo e via-se um dos seios. Chegou junto à criança que chorava e, deixando de miar, começou a lambê-la: lamber-lhe o rosto, as mãos; lambê-la mesmo por cima do vestidinho e das faixas…
O delírio continuava.
A febre subia ainda mais. A língua, que ela passava agora sobre o rosto do pequenito, estava seca, ardente e vermelha... A pele do seu corpo quase todo despido tinha estremecimentos bruscos, como esses com que os cavalos espantam as moscas: eram contrações horríveis de ver-se! Como continuasse o menino a chorar, ela miou mais uma vez e, virando-o de costas com uma só das mãos, abaixou a cabeça, mordeu-o no pescoço, segurando-o fortemente — tal qual como vira fazer pela Bichaninha —, e preparou-se para saltar da cama... Não saltou: faltava-lhe a agilidade. Atirou-se no chão com a criança pendurada nos dentes…
Houve um choque medonho; e, depois, um rumor indescritível na casa inteira… Chegaram todos, mal acordados ainda…
Os dentes dela mordiam com tal força, que tinham cortado a pele do pequeno… Ele tinha rolado mais longe: o craniozinho abrira-se e o miolo; uma massa acinzentada saía, em hérnia, por uma fenda da cabecita, como uma postema espremida, manchada com laivos de sangue…
Ao frio do soalho, a moça teve uma última convulsão e morreu em espasmos tetânicos, hirta, inteiriçada… Conservara ainda entre os dentes, cerrados convulsivamente, o taco ensanguentado da pele do menino… E nas costinhas dele, bem no pescoço, era horrível aquela chaga redonda, em carne viva, como a esfoladura de um cáustico…
Do seu canto, a Bichaninha impassível olhava para toda a cena lambendo amorosamente os filhinhos...
Fonte: “Mãe Tapuia – Contos”, F. Briguet & Cia/ H. Garnier Livreiro Editor, RJ, 1900.
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