MATARAM O DIABO - Conto Clássico de Horror - Pedro Luiz
MATARAM O DIABO
Pedro Luiz
(Séc. XX)
Difícil parecerá haver conto mais inverossímil e fantástico do que este. No entanto, vem ele da realidade crua da vida… Desenrolou-se o nosso caso bem até no centro do rincão vizinho, dentro da noite fechada da semana finda.
Liga-se o ocorrido a um camponês que vivia dos lucros tirados da terra. Alma plasmada desde a meninice no ambivalente ambiente do campo, sabia ele manejar bem os instrumentos do trabalho, para ajuntar, no fim das safras, boas patacas. Comprou com esse dinheiro novas terras. Vivia contente, rodeado de diversos filhos robustos — promessas vivas de desafogo na existência e de empreendimentos futuros, capazes de amontoar fortuna.
Fazia bons negócios. Dentre os que melhor lhe correram, destaca-se o da venda de meia colônia por quatorze mil cruzeiros. Contente, arrecadou o dinheiro na gaveta da mesinha do quarto de dormir. Não conteve o colono essa satisfação. Saiu-lhe derramada pelos ouvidos dos amigos e vizinhos, que havia realizado bom negócio, quatorze mil cruzeiros, guardadinhos…
À noite do dia do negócio, após haver fechado em casa a soma de dinheiro, necessitou o camponês sair para uma festa, aniversário de compadre. Em casa, ficaram só as crianças, com a responsabilidade de um menino forte de 13 anos. Depois do cair da noite, surgiu um embaraço crítico… De repente, apareceu à soleira da porta um vulto estranho. Descobriram as crianças que era o demônio, pois trazia dois chifres, rabo e roupa preta com listras de fogo. Horrível! Vinha o monstro sobre os quatro pés. Falou:
—Sou o demônio. Vim buscá-los e levar para o Inferno. Não escapará ninguém!
As crianças assustaram-se terrivelmente.
—Entretanto — continuou o diabo —, há um remédio: se vocês me entregarem o dinheiro que papai ganhou ontem, não levo ninguém comigo.
Os pequenos entreolharam-se; por fim, um deles foi buscar o dinheiro e trouxe cinco mil cruzeiros. Agarrando as notas, explicou o demônio:
— Sou o diabo, sei todas as coisas muito bem. Não é só este dinheiro que seu pai recebeu ontem! Busque o resto! Vamos!
O menino ficou boquiaberto, com medo. Foi buscar o resto.
Quando o monstro se viu senhor dos catorze mil cruzeiros, despediu-se:
— Só assim é que poupo a vocês. Vou-me embora: boa noite!
Engatinhando com os quatro pés, o demônio meteu-se na noite banhada de lua nova; foi descendo devagar o gramado do potreiro.
Nisto, um dos pequenos teve uma ideia e disse ao rapazinho de 13 anos:
—Tu bem podias dar um tiro no diabo com a espingarda do papai.
O irmão achou boa a ideia e em dois tempos a executou: fez pontaria e disparou dois tiros. Às detonações, uns cães ladraram; aos poucos, porém, restabeleceu-se silêncio e as crianças foram dormir.
No dia seguinte, um dos pequenos logo contou:
—Papai, ontem o Euclides matou o diabo…
Contaram tudo como foi.
O chefe da família, para verificar, foi até o ponto do potreiro onde desapareceu o diabo e para onde o rapaz fez pontaria E, ó espanto! Lá estava o “demônio” estendido, morto, cadáver. Euclides conseguira matar o diabo!... O camponês tirou do cadáver a máscara etc e reconheceu (adivinhem quem?) o seu vizinho mais próximo.
Sobre o peito do cadáver, num bolso interior, estavam os quatorze mil cruzeiros!
Fonte: “O Apóstolo”/SC, edição de 15 de maio de 1946.
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