UM VAMPIRO DOS BÁLCÃS - Conto Clássico de Terror - Autor anônimo do séc. XIX
UM VAMPIRO DOS BÁLCÃS
Autor anônimo do séc. XIX
Tradução de Paulo Soriano
— Eis — disse um viajante digno de fé — um fato do qual fui testemunha:
Fazendo uma viagem a pé por Vorgoraz, passei a noite na pequena vila de Varboska. Meu tio, um rico cristão herzegovino, de nome Vuck Roglonowich, era um homem alegre, que gostava de vinho e boa comida. Sua mulher era ainda bonita, e sua filha, uma moça de dezesseis anos, tinha um talhe notável e uma grande amabilidade. Expressei o desejo de passar alguns dias naquela casa, pois tinha interesse de desenhar as antiguidades da vizinhança. Essas boas pessoas me cederam um quarto, onde me instalei.
Certa noite — quando as duas mulheres da casa se haviam recolhido uma hora antes, e eu, para evitar a bebida, entretinha o anfitrião com algumas canções —, fomos subitamente interrompidos por um grito terrível, que ressoava dum quarto.
Levantamo-nos imediatamente. Quando entramos, um espetáculo assustador assomou aos nossos olhos. Pálida e com os cabelos desgrenhados, a mãe segurava, nos braços, a filha desmaiada, e repetia, num tom de cortar o coração:
— Um vampiro! Um vampiro! Minha pobre filha está morta!
Conseguimos, no entanto, reanimar prontamente a infeliz Rhawa — esse era o nome da garota.
Ela contou que vira um homem pálido, envolto numa mortalha, entrar pela janela. O homem atirou-se a ela, afundou-lhe as presas e quase a sufocou. Disse que reconhecera nele um morador local, chamado Wircznany, que havia morrido há duas semanas.
A jovem tinha uma pequena mancha rubra no pescoço, embora eu não soubesse se era natural ou resultado da picada de um inseto. Quando me aventurei a fazer essa conjectura, o pai a rejeitou raivosamente, e a mãe me chamou de incrédulo, assegurando-me que ela tinha visto, com os próprios olhos, o vampiro, e que reconhecera Wircznany perfeitamente.
Senti-me constrangido a permanecer em silêncio.
No entanto, a bela Rhawa exibiu todos os sinais de violento desespero. Torcia os braços, gritando sem parar:
— Vou morrer tão jovem, sem ter-me casado ainda!
Prontamente, reuniram todos os amuletos que puderam ser encontrados na vila e os penduraram no pescoço de Rhawa. O pai jurou que, na manhã seguinte, na presença de toda a parentela, exumaria e incineraria o cadáver de Wircznany. A noite se passou em grande agitação e nada conseguia restaurar a calma nas mentes dos infelizes pais.
Ao amanhecer, toda a aldeia estava em movimento. Os homens estavam armados com rifles, as mulheres carregavam utensílios de cozinha em brasa, as crianças viam-se munidas de paus e pedras.
Correram todos, tumultuosamente, ao cemitério, proferindo maldições contra o defunto, e foi com grande dificuldade que consegui transpor a multidão para acercar-me ao túmulo.
A exumação demorou muito tempo, porque todos queriam dela participar. Provavelmente, essa desordem teria causado algum acidente, se dois anciãos da vila não tivessem interposto sua autoridade para que apenas dois homens fossem encarregados de desenterrar o corpo.
Quando a mortalha, que envolvia o cadáver, foi removido, uma mulher, que estava ao meu lado, soltou um grito tão terrível que meus cabelos ficaram em pé.
— É um vampiro — gritou ela — e os vermes não o tocaram!
E tais palavras foram imediatamente repetidas por cem vozes em uníssono.
Ao mesmo tempo, vinte tiros foram disparados, despedaçando a cabeça do cadáver. Depois, o pai de Rhawa e seus parentes, com suas longas facas, retalharam inteiramente o cadáver. Vários jovens amarraram o defunto a um tronco de abeto e o levaram a uma pira erguida em frente à casa de Roglonowich.
A pira foi acesa e o corpo foi queimado em meio a danças e aos gritos de alegria da multidão.
Voltei à casa do meu anfitrião. Encontrei-a repleta de gente: os homens com cachimbos na boca, as mulheres falando ao mesmo tempo e sobrecarregando a doente com perguntas. Pálida e abatida ainda, a moça mal conseguia responder. O seu pescoço estava envolto em panos encharcados de sangue, cuja cor vermelha formava um contraste assustador com os ombros brancos e seminus da pobre Rhawa. Logo, porém, a multidão se dispersou e eu fiquei sozinho, como um estranho, entre os moradores da casa.
A doença foi longa. Rhawa temia profundamente a aproximação da noite e sempre pedia que alguém ficasse de olho nela. Como os seus pais não podiam suportar essas vigílias repetidas, ofereci meus serviços como acompanhante,
Nunca me esquecerei das noites que passei com aquela pobre moça. Ao menor ruído, ao menor rangido do soalho, ao menor sopro de vento, ela estremecia de medo. Quando adormecia, era atormentada por sonhos terríveis e muitas vezes acordava com gritos terríveis. Quando se aproximava o sono, ela me dizia muitas vezes:
—Eu lhe imploro, não durma; pegue seu rosário numa mão, sua faca grande na outra e cuide de mim.
Outras vezes, ela não conseguia dormir sem segurar meu braço entre as mãos.
Depois de alguns dias, ela havia perdido uma quantidade enorme de peso; seus lábios estavam sem cor e seus grandes olhos negros brilhavam com uma singular luminosidade. Eu não conseguia olhar para ela sem um estremecimento involuntário. Desde aquele instante, o seu estado só piorou.
Na véspera de sua morte, disse-me ela:
—Estou morrendo por minha causa. Fulano (ela citou o nome de um jovem) queria me seduzir, levando-me consigo. Posterguei a aceitação ao convite, eis que dele exigi, primeiramente, uma corrente de prata. Ele foi a Marceska comprá-la. Neste meio tempo, o vampiro chegou. Mas —acresceu —, se eu não estivesse em casa, ele poderia ter matado minha mãe. Assim, dos males o menor…
No dia seguinte, conversou com pai e, para que não se convolasse em vampira, o fez prometer que ele mesmo cuidaria de cortar-lhe a cabeça assim que morresse. Depois a abraçou a mãe e pediu-lhe que consagrasse uma coroa de rosas no túmulo de um santo, perto da aldeia, e que lha trouxesse de volta. Com grande calma, recebeu os sacramentos. Depois de duas ou três horas, sua respiração ficou mais difícil e seus olhos permaneceram imóveis.
De repente, ela agarrou o braço do pai e fez um movimento, pressionando-o. Ela havia sobrevivido! A doença durou um total de onze dias. Que deplorável efeito da superstição!
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