LICANTROPIA - Narrativa Clássica Sobrenatural - Santo Agostinho

LICANTROPIA

Aurélio Agostinho Hiponense

(Santo Agostinho)

(354 – 430)


Varrão1 relata outras histórias não menos incríveis sobre a famosíssima feiticeira Circe, que transformou os companheiros de Ulisses em feras, e sobre os arcádios, que escolhiam por sorteio os que atravessariam a nado um certo lago e, na outra margem, eram transformados em lobos, passando a viver nos ermos daquela região, acompanhados de feras como eles. Contudo, se não se alimentassem de carne humana por nove anos, restauravam a forma humana ao nadar novamente pelo mesmo lago. Finalmente, cita ele, expressamente, o nome de Demaenetus, que, ao degustar um menino oferecido em sacrifício pelos árcades ao seu deus Liceu, de acordo com os seus costumes, foi transformado em lobo; ao ser restaurado à sua forma correta no décimo ano, treinou como pugilista e foi vitorioso nos Jogos Olímpicos.

O mesmo historiador crê que o epíteto Liceu foi aplicado na Arcádia a Pan e Júpiter pela exclusiva razão dessa metamorfose de homens em lobos, porque se pensava que a transformação somente poderia ser realizada por um poder divino. Pois um lobo é chamado em grego de λυκὸς (lykos), do qual o nome Lycaeus (Liceu) parece ter sido formado. Ele também diz que os Luperci romanos foram, por assim dizer, gerados a partir da semente desses mistérios.


Versão em português de Paulo Soriano a partir da tradução ao inglês de Marcus Dods (1834 – 1909).

Ilustração: Albrecht Dürer (1471 – 1528).


Nota:

1Marco Terêncio Varrão (116 a.C. – 27 a.C.), filósofo romano.

 

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