O BRACELETE DE OURO - Conto Clássico de Horror - Gustavo Adolfo Bécquer

O BRACELETE DE OURO

(Lenda)

Gustavo Adolfo Bécquer

(1836 – 1870)

Tradução de Guiomar Torrezão

(1844 – 1898)



I


Ela em formosa, dessa formosura que faz vertigens, formosura que não tem nada que ver com a dos anjos, e que é ao mesmo tempo sobre-humana, espécie de condão fatal que o demônio empresta às criaturas para fazer delas instrumentos seus.

Ele amava-a, amava-a com a paixão desordenada que não recua, nem conhece limites, que aspira ao gozo e encontra muitas vezes o sofrimento; amor que tem ares de felicidade, mas que parece antes que desce do céu para expiação de alguma culpa.

Ela era caprichosa como a maior parte das mulheres.

Ele, supersticioso e valente como todos os homens daquele tempo.

Ela chamava-se María Antúnez; ele, Pedro Alfonso de Orellana. Eram ambos naturais de toledo e viviam na cidade que os viu nascer.

A tradição, que nos legou esta singular historia acontecida há um par de anos, não diz mais nada acerca dos personagens que foram seus heróis.

Eu, na qualidade de cronista fiel, não acrescentarei uma única palavra para melhor caracterizá-los. 


II


Ele encontrou-a um dia lavada em lágrimas, e perguntou-lhe:

Por que choras?

Ela enxugou os olhos, cravou-os nele, largou um suspiro e prorrompeu em prantos dobrados.

Pedro abeirou-se então de María, pegou-lhe na mão, encostou-se ao peitoril árabe, de onde a sua amada via passar a corrente do rio, e renovou a pergunta:

Por que choras?

O Tejo recurvava-se, gemendo aos pés do mirante, ao sopé das rochas que são o pedestal da cidade imperial. O sol resvalava para além dos montes, e a neblina da tarde flutuava no ar como um véu de gaze azul; ouvia-se apenas o monótono quebrar da água.

María exclamou:

Não me perguntes a razão por que choro, não queiras sabê-la; nem eu poderia dizer-ta, nem tu compreendê-la. Há desejos que se aninham na alma da mulher e não se revelam senão com um suspiro; ideias loucas que atravessam o pensamento e que não chegam aos lábios; mistérios contraditórios que são tão nossos que o homem não pode sequer imaginá-los. Peço-to, não me perguntes qual é a origem da minha dor; se eu ta confessasse, responder-me-ias com uma gargalhada.

Ditas estas palavras, ficou-se ela a cismar. Pedro redobrou de instâncias. Depois de um longo silêncio, María disse com voz profunda e melancólica:

És tu que o queres, é uma loucura que te fará rir; não imporia; vou satisfazer-te os desejos.

Ontem estive na igreja; celebrava-se a festa da Virgem; a sua imagem levantada no altar-mor, sobre um trono de ouro, resplandecia como um astro; os sons do órgão encheram a nave, e as vozes dos padres entoavam o ‘Salve Regina’.

Eu rezava, absorta nos meus pensamentos religiosos; maquinalmente, levantei a cabeça, e os olhos procuraram o altar. Não sei bem por quê, mas o meu olhar ficou preso à imagem; digo mal: não à imagem. Fixaram-se a um objeto que até ali não tinha visto, objeto que, nem eu mesma poder dar a razão de tal me atraía toda.

Não rias Pedro.... Esse objeto era a pulseira de ouro que cinge o braço da mãe de Deus.

Desviei a vista e continuei comas minhas rezas... Mas qual! Os meus olhos fugiam involuntariamente para o mesmo ponto. As luzes do altar, refletidas nas facetas dos diamantes, reproduziam-se de uma maneira deslumbrante. Milhares de reflexos luminosos, roxos, azuis, verdes e amarelos volteavam em torno das pedras como um turbilhão de átomos de fogo, como um vertiginoso círculo desses espíritos das chamas que fascinam e entontecem!... Saí da igreja, vim para casa, mas vim com aquela ideia fixa. Deitei-me e não pude dormir.

Pareceu-me a noite eterna como o meu pensamento. Ao amanhecer, cerraram-se-me os olhos, e acreditá-lo-ás, Pedro? Vi em sonhos aparecer, retirar-se e voltar depois, uma mulher, uma mulher morena e bonita, que levava a joia de ouro e diamantes; não era a virgem que eu adoro e perante quem me humilho; era uma mulher como eu, que olhava para mim e me traspassava com e seu riso de escárnio.

“—Vês? — parecia dizer-me mostrando-me o bracelete. — Que brilho! Parece uma coroa de estrelas despregadas do céu de uma noite de verão. Vês? Não é tua, não o será nunca, nunca, nunca!... Poderás ter outras joias melhores, mais ricas, se é possível, mas esta que brilha tão extraordinariamente, nunca, nunca.

Acordei, e levantou-se comigo a ideia fixa, então como agora queimando-me a fronte; ideia diabólica, singular, inspirada decerto pelo próprio Satanás… Emudeces! Ficas triste! Não te faz rir a minha loucura?”

Pedro apertou com mão convulsa o punho da espada, levantou a cabeça e disse com voz entrecortada:

Qual é a imagem da Virgem que tem esse bracelete?

A da Virgem do sacrário — respondeu María.

A Virgem do sacrário! — repetiu o moço, alterado. —A da catedral!

No rosto dele espalhou-se-lhe instantaneamente a alma assombrada perante uma ideia sinistra.

Oh! Por que não pertencerá essa joia a outra imagem?— acrescentou com inflexão enérgica e apaixonada. — Por que não estará ela na mitra do arcebispo, na coroa do rei ou nas garras do demônio? Iria arrancá-la para ta dar, embora me custasse a vida ou a alma. Mas a Virgem do sacrário, a nossa santa padroeira, eu… filho de Toledo… É impossível!

Nunca! — murmurou María, entre soluços. — Nunca!…

E foi-se lavada em lágrimas.

Pedro embebeu um olhar vago, quase idiota, nas águas do rio. A corrente passava e gemia, despenhando-se aos pés do mirante, e entrando pela garganta das rochas, sobre as quais se levanta a cidade imperial.


III


A catedral de toledo!

Imagine-se um bosque de enormes palmeiras de granito que, no entrelaçar dos ramos, formam uma cúpula colossal e opulenta, sob a qual palpita e vive; da vida que lhe prestou o gênio, toda uma criação de seres imaginários e reais.

Imagine-se o caos misterioso de sombra e de luz, onde se encontram e se confundem, a meio da penumbra das naves, os reflexos iriados dos vidros das cores das janelas, à luz das lâmpadas que despedem clarões mortiços. Um mundo de pedra, imenso como o espírito da nossa religião, sombrio como as suas tradições, enigmático como as suas parábolas; por muito que se pense, ainda assim se fará uma ideia aproximada daquele eterno monumento do entusiasmo e da fé dos nossos maiores, opulentada com os tesouros de crenças, de inspiração e de poesia que os séculos lhe tem sucessivamente legado.

No seio da catedral vive o silêncio, a majestade, a poesia do misticismo, e um terror que, levantado de pé, naquele limiar, proíbe os pensamentos mundanos e expulsa paixões terrenas.

O mal do corpo cura-se com o ar puro das montanhas; o ateísmo, a doença da alma evapora-se naquela atmosfera de fé.

É sempre grande, imponente, a qualquer hora, aquele recinto solene e sagrado, mas não produz nunca uma impressão tão profunda como nos dias de festas, em todo esplendor suas pompas, quando os altares se cobrem de ouro e de pedrarias as paredes de veludo e os degraus de alcatifas.

Então, quando ardem e despendem de si torrentes de luz mil candelabros do prata, quado flutua no ar uma nuvem de incenso, e as vozes do coro, a harmonia dos órgãos, e os sinos das torres estremecem e povoam o templo desde os alicerces até as agulhas de pedra que o rematam, compreende-se, mais que nunca, por que se sente a majestade do Deus que vive ali, animando-o com sopro, e enchendo-o com a grandeza de sua onipotência.

No mesmo dia do diálogo de Pedro e María Antúnez, celebrava-se na catedral de Toledo a última festividade do oitavário da Virgem.

A festa atraíra um sem-número de fiéis, mas já todos tinham saído e se haviam apagado as luzes das capelas do altar-mor, depois das colossais portas terem rangido nos gonzos, quando, do meio das sombras, pálido, tão pálido como a estátua do túmulo onde se encostara, saiu um homem que caminhou com precauções até o cruzeiro. Aí, a claridade de uma lâmpada deu-lhe em cheio no rosto. Era Pedro.

O que se teria passado entre os dois amantes para que Pedro se resolvesse a pôr prática um projeto cuja simples manifestação o aterrara a ponto de lhe eriçar os cabelos? Nunca soube. O que é certo é que ele estava ali disposto a levar a cabo o soe criminoso propósito.

No olhar inquieto, no tremor convulso dos joelhos, no suor que lhe corria em fartas gotas pela fronte, poderia ler-se-lhe, em caracteres pronunciados, o pensamento.

A catedral estava deserta e silenciosa.

No entanto, ouviam-se às vezes rumores vagos; o estalar da madeira talvez, ou murmúrio do vento, ou, quem sabe, se alguma ilusão da fantasia, ouve, vê e palpa, na sua exaltação, o que não existiu nunca; a verdade, porém, é que ora longe, ora perto, aos seus ouvidos soavam uns soluços comprimidos, um arrastar de vestidos, um como bater do pês que vão e vêm sem parar…

Pedro fez um esforço supremo, prosseguiu no seu caminho até a grade, subiu os primeiros degraus da capela-mor. Em torno desta capela estão os túmulos dos reis, cujas figuras de pedra, com as mãos nos punhos das espadas, parecem velar noite e dia pelo repouso do santuário onde dormem o sono da eternidade.

Adiante! — balbuciou Pedro; mas quis andar e não pôde: pareceu-lhe que os pés se lhe tinham cravado no chão. Desceu o olhar para o pavimento, e levantaram-se-lhe os cabelos do terror: viu-o todo dividido em lousas sepulcrais.

Acreditou, por um momento, que uma mão fria e descarnada o prendia ali. Às luzes mortiças das lâmpadas que brilhavam no escuro das naves, como estrelas perdidas, oscilaram as estátuas dos túmulos, as imagens do altar; oscilou o templo todo, com as suas abóbadas de granito e as suas colunas de mármore.

Adiante! — exclamou Pedro, desorientado. E aproximou-se do altar, subindo até o trono da Virgem.

Tudo em volta dele tomava formas singulares e horríveis; as trevas envolviam-no e abismavam-no.

Só a Rainha dos céus, docemente iluminada por uma lâmpada de ouro, parecia sorrir tranquila e bondosa no meio daquela escuridão.

O sorriso, porém, que à primeira vista sossegara, acabou por infundir-lhe terror tão excepcional e tão íntimo, como ele nunca se sentira.

Dominou-se ainda, fechou os olhos, estendeu a mão com um gesto febril e arrancou do braço da imagem o bracelete, o bracelete de ouro que fora oferta de um arcebispo, e cujo valor equivalia a uma fortuna.

A joia estava em seu poder, os dedos crispados apertavam-na com uma espécie de furor; restava fugir, fugir e levá-la, mas para isso era preciso abrir os olhos, e Pedro tinha medo da imagem, dos reis dos túmulos, dos demônios das cornija, dos louvores dos capiteis, das sombras e da luz, cujos reflexos pareciam fantasma movendo-se lentamente no extremo das naves povoadas de rumores sinistros. Afinal, abriu os olhos, olhou e soltou um grito.

A catedral estava cheia de estátuas; estátuas vestidas com amplas roupas, cruzando-se pela igreja, olhando-se com as órbitas sem pupilas.

Santos, freiras, anjos, demônios, guerreiros, mulheres, pajens, frades rodeavam-se e confundiam-se pelas naves e no altar; em frente dele, à vista dos reis, oficiavam os arcebispos de mármore que ele tinha visto, tantas vezes imóveis, sobre os seus leitos de morte, enquanto que, arrastando-se nas colunas, suspendendo-se das sanefas, trepando pelas abóbadas, pulavam como vermes de um enorme cadáver todo um mundo de répteis e animais de granito, quiméricos, disformes e horríveis!

Pedro recuou assombrado; as frontes latejavam-lhe, o peito levantava-se-lhe em um pulsar desordenado; passou-lhe uma nuvem de sangue pelos olhos; despediu um grito, um segundo grito dilacerante e sobre-humano, e caiu desvanecido no chão.

No dia seguinte acharam-no o deitado aos pés do altar da Virgem, com o bracelote apertado na mão; ao ver gente, exclamou através de uma gargalhada estridente:

É dela! É dela!

O desgraçado enlouquecera.



Fonte: “O Espírito-Santense”/ES, edições de 16 e 19 de setembro de 1872.

Fizeram-se breves adaptações textuais.

 

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