ANGELINO - Conto Clássico de Horror - Maciel da Costa

ANGELINO

1549 - 1550

Maciel da Costa



Le destin est inexorable quandit poursuit sa victime; quelquefois il la couvre d'infamie sur la pierre du tombeau1.

Frédéric Soulié





O homem é um mistério. As contradições reveladas pela sua natureza são os escolhos onde se anulam todos os esforços de reflexão. As leis que o regem oferecem a impossibilidade de serem fixadas. De quantos ataques e injúrias o fatalismo não tem sido alvo? Todavia, sem expendermos a seu respeito o nosso pesar, publicaremos o seguinte romance, cujo fundo é histórico e, portanto, verdadeiro, que na verdade é um enérgico documento que comprova a existência do fatalismo



I



Un mot! c'est la foudre.2

Victor Hugo.



Vivia em Veneza, no tempo do doge Francisco Donato3, um nobre coberto de serviços, distinto pelo seu saber raro e profundo, porém muito célebre pelas suas extravagâncias amorosas. Era o Conde de Spallazi. Concentrava todo o seu prazer em suas romarias amatórias, no estudo e na companhia de Júlia e Angelino. Para esse fim tinha admiravelmente dividido o seu tempo.

Júlia era a sua filha. Porém, levado por certos preconceitos sociais, ocultava a qualidade de pai. Angelino era um pobre órfão que lhe foi confiado por um amigo na hora da morte. Este era de um gênio sombrio e melancólico e sua irmã adotiva era jovial e sensível…

Quando o homem, depois de sentir a existência, desconhece os autores de seus dias, quando um véu tenebroso envolve o seu berço, que martírios não sofre! Então ele deseja o túmulo, a vida é uma ilusão, os prazeres são tormentos, a incerteza é um espectro que o persegue, e ele fica envolvido, em certos momentos, nas fúnebres apatias da indiferença. Tal era o estado desesperado em que vivia Angelino, que já tinha dobrado os seus dezoito anos.

Acresce a esta circunstância que o pobre órfão consagrava a Júlia um amor violento e taciturno. Ele amaldiçoava a própria existência. Quantas vezes, banhado em pranto, dizia:

Sem pai, sem mãe, o que faço sobre a terra? Tênue arbusto batido pelo vento da tempestade, como poderei resistir à sua violência? Vítima de um amor desgraçado, só desejo a morte, a qual para mim é um momento. Oh, maldição! Maldição ao ventre que me gerou e ao cruel que, como fraco baixel, me desamparou neste mundo, oceano sem margens, de inconsequência e horrores! Júlia! Júlia! — A este nome o infeliz estremecia.

Quereis conhecer o amor de Angelino? A natureza tem uma única imagem que se possa representar: são os desertos africanos onde um céu de ferro em brasa pesa sobre áreas estéreis como a desesperação e mudos como o sepulcro4. E quem não amaria a sua mimosa companheira? Figurai-vos um pintor embalado pelos sonhos da sua esquentada fantasia, querendo pintar uma formosa virgem: remonta-se pelo pensamento até o Céu, aí rouba os encantos divinos e com estes forma o retrato.

Esse é o retrato de Júlia.

Um dia, Angelino, para espairecer sua melancolia, foi dar um passeio. Objeto algum o podia distrair da sua ideia dominante, até que, passando cerca um grupo de mancebos, distintamente ouviu a seguinte conversa:

Ora, o Conde Spallazi é muito feliz!

Por quê?

Tem em casa uma jovem muito bela por amante!

Sabes isso com certeza?

Ele mesmo mo contou!

Sobre Angelino o raio não faria tão terríveis efeitos como os que foram deixados por estas palavras.

Lavrou o ciúme e o furor no peito do desgraçado.

Logo que chegou à sua residência, encontrando-se com um dos criados do conde, perguntou-lhe:

Onde está o conde?

Foi para a villa5.

Sela-me um cavalo.

Poucos momentos depois o cavalo estava pronto. O protegido do senhor de Spallazi, sem ver aquela que tanto adorava, partiu a toda brida.

Aonde vai o mancebo inconsequente? Vai fixar a data da qual precipitarão os seus infortúnios: obedece ao seu destino. Eram onze horas da noite quando Angelino apareceu na presença do conde que, assustado de ver em tais desoras aquele que sempre tratou como filho, lhe dirigiu as seguintes palavras:

Tu, por aqui, a estas horas? Aconteceu alguma coisa à minha Júlia?

Nada — lhe respondeu o mancebo mui tranquilo.

Então, o que viste cá fazer? —lhe replica o conde, levantando-se do sofá onde estava encostado.

Conde, já é tempo de não dissimular o amor que consagro a Júlia. Eu exijo a sua mão — responde o jovem com os olhos banhados de pranto.

A tua razão está alucinada e estou muito assustado com tal exigência a estas horas. É impossível.

Impossível! — lhe retorna Angelino, em cujos olhos já não se viam lágrimas, mas sim os sinais de furor. Depois de uma pausa, continuou:

É minha irmã?

Não.

É tua filha?

Não —lhe responde o conde embaraçado.

Então, o que ela é?

Que te importa?

Pois bem, conde, romperam-se os laços que me ligavam à tua pessoa. És um vil sedutor.

Miserável — diz o Sr. de Sapallazi todo iras.

Os homens de honra têm um meio de vingar as injúrias. Aí tens dois floretes no canto da sala.

Foi Angelino buscar os floretes e, atirando um aos pés do seu benfeitor, disse:

Em guarda!

Espera, ingrato, a quem amei sempre como um filho. Antes de bater-me, quero revelar o fatal segredo do teu berço.

Angelino estremeceu.

Teu pai… Não, Angelino, eu nada te digo — torna o conde.

Os ferros cruzaram-se.

Continua — lhe replica o delirante jovem. —Queres inventar alguma calúnia? Estás com medo?

Teu pai... Teu pai... Era o carrasco de Florença e o seu cargo é hereditário! — diz o conde, trêmulo, atirando com o florete.

Angelino deu um grito e caiu desmaiado.

O filho do carrasco cobrou vida ao cabo de alguns minutos e pediu mil perdões ao seu benfeitor, exigindo da sua honra que não contasse coisa alguma a Júlia. Contra a vontade do conde, ele montou a cavalo e partiu acompanhado de um criado, levando também uma carta que o conde lhe dera.

Oito dias depois deste sinistro evento, Júlia e seu papai viviam em profunda tristeza. Qual a razão? Angelino tinha desaparecido.



II



On vous poursuit, malheureux! sauvez-vous.6

  1. De Vigny.



Spallazi tinha-se mil vezes arrependido de ter caído na imprudência de comunicar um segredo que, debaixo de sua palavra de honra, prometera ocultar sempre. Conhecia perfeitamente a índole de Angelino e, por isso, o passo que dera aparecia-lhe como um vivo remorso. A bela Júlia estava inconsolável: ela amava o seu companheiro de infância com todas as forças de sua alma. A bela rosa do vale principiava a sentir os sopros ardentes do tufão abrasador da desgraça.

Ia apartar-se daquele que considerava como seu benfeitor e que era o seu pai.

Um dia de tarde, um dos amigos de Spallazi entra assustado pelo palácio e avisa ao conde que brevemente seria preso por conspirar contra o Estado. Spallazi, sem perder tempo, chama sua Júlia:

Tem coragem! Vou deixar-te porque daqui a poucos momentos serei preso.

Meu Deus! —lhe responde a bela virgem, arremessando-se aos seus braços, banhada em pranto. Era a imagem da aflição com todos os seus tormentos.

Tranquiliza-te: Deus é grande. Irás para a casa da Marquesa Concini. Ela será a tua segunda mãe. Os meus bens serão confiscados, mas tomas essas chaves das minhas caixas de ferro e nelas acharás bastante ouro. Tranquiliza-te que sempre terás notícias minhas.

Júlia recebeu as chaves. Ajoelhou-se de mãos postas com os olhos erguidos para os Céus. Conservou-se nessa posição durante meia hora, enquanto o conde fazia seus arranjos. Parece que ela esperava algum socorro divino. Mas o Céu foi surdo às suas preces.

*

Duas horas depois, a Justiça entrou no Palácio. Tudo estava deserto.

O conde tinha já fugido e Júlia estava em casa da Marquesa Concini.



III



Oh! Belle fleur d'automne! L'orage du malheur a flétri ta couleur.7

Félix Davin



Angelino, nessa mesma noite em que tinha abandonado a Vila, jurou não ver mais Spallazi e a sua amada. A vergonha e o rancor o impediam, principalmente depois de ler a carta que seu benfeitor lhe entregara, a qual era a ele próprio dirigida e concebida nos seguintes termos:



Meu caro Angelino,

Peço-te mil perdões por revelar-te um segredo que o túmulo devia encerrar. Para que foste imprudente? Enfim, resigna-te: podes ser feliz. Teu pai ainda existe e, depois que ele morrer, minha Júlia, que é na realidade minha filha (do que peço segredo) será tua. Um nobre francês, meu amigo, M. de la Sablière, devendo muitas obrigações a teu pai, quis livrar-te da infâmia e levou-te para sua casa, tendo tu apenas dois anos de idade. Caindo doente e quase a expirar, pediu-me que te educasse e não te revelasse o teu nascimento. Eu te farei feliz: tranquiliza-te que esta revelação fica entre nós ambos.

Teu amigo.

O conde de Spallazi.



Quantos suspiros não dava o pobre órfão com a leitura desta carta! Quantas vezes não dizia: “Oh, por que se revelaram tantos horrores compreendidos em duas palavras — O FILHO DO CARRASCO?! — Por que não se guardou o fatal segredo até o túmulo que é o selo do mistério?!

Achando-se Angelino só (pois tinha despedido o criado debaixo de falsos pretextos), tratou de vender o seu cavalo para ter algum dinheiro e alugou uma casinha em uma rua estreita e solitária. No mesmo dia em que para ela entrou, ainda quis ter a coragem de ler a maldita carta. Porém, que infelicidade! Ele a tinha perdido. Sai como um doido e na porta esbarra com um homem bem trajado.

Mancebo — lhe diz este, com um ar inquieto —, esta carta será tua?

Onde a achaste, senhor? — lhe pergunta o jovem, assustado.

Na porta de minha casa que é contígua à tua.

Leste o seu conteúdo?

Li.

Foste bem imprudente. E quem és tu?

Ângelo, o CARRASCO! —reponde o homem.

Meu pai! — diz Angelino, levando ambas as mãos ao rosto todo trêmulo.

Angelino! — lhe torna o homem, atirando-se de joelhos aos pés de seu filho. Aquele que tem visto tantas vítimas aos seus pés, tendo erguido tantas vezes o alfanje sobre as suas cervizes, o carrasco agora está de joelhos. Quanto pode a natureza!

O carrasco e seu filho foram viver juntos.

*

Havia em Veneza um tribunal chamado Dez. Ele tinha ouvidos em todas as partes da cidade, olhos em todas as casas. E quando o acusado de algum crime contava evadir-se, um braço de ferro o agarrava e o sepultava em profundas masmorras. Foi nesse mesmo tribunal que veio ao conhecimento de que Angelino era filho do carrasco. E como este já se achava em decrepitude, ordenou que fosse substituído pelo seu próprio filho, já que o cargo, nessa época, era hereditário. Angelino já tinha perdido o seu benfeitor e a sua amada, a quem ainda adorava, desterrando todas as ilusões da vida, porque não pode retrair-se, por nenhum modo, à infâmia que o cobria, aceitou o novo cargo.

Enquanto tinham lugar estes acontecimentos, a bela Júlia tinha feito todas as diligências necessárias para descobrir aquele a quem desde a infância havia entregado o seu coração. Tudo foi em vão. Uma vez que estava na janela, julgou ver um indivíduo semelhante ao seu amante: manda aos criados que o procurem.

O indivíduo havia desaparecido.

Ficou ela sepultada em profunda tristeza. Ah, a desgraçada ignorava ainda os tremendos golpes que lhe havia preparado o destino! Nesse mesmo instante, vem a marquesa ter com a sua jovem amiga.

Não sabes, Júlia? Um senhor de distinção vai amanhã ser decapitado. E não sei quem é. Como guarda segredo o nosso respeitável tribunal!

Júlia sentiu o sangue estagnar-se em suas veias.

Era noite. As amigas foram-se deitar. Porém, Júlia não pôde dormir.



IV



Là-bas, l’échafaud! Ici, la folie et partout la fatalité.8

D’Arlincourt.



Para onde corre tanto povo? Para que tanta pressa?

Há uma execução. Que miséria humana! Quem será o executado?

É o conde de Spallazi! Tendo já oito dias entrado em Veneza de noite, o tribunal, que já andava à pista dele por conspirar contra o Estado, o agarrou e o condenou à morte.

Assim conversavam os mesmos jovens que, como já vimos, proferiam palavras funestas que causaram a desgraça de Angelino. Este, acompanhado por seu pai, esperava a vítima: era o seu primeiro ensaio. Oh, não queremos narrar as suas ânsias mortais, o seu encontro com o seu benfeitor! Ocupemo-nos com Júlia.

Neste entretempo foi que Júlia soube de tudo. Corre ao palácio do doge, chega à sua presença.

Perdão! Perdão. Ele é inocente! — lhe diz a bela veneziana, quase delirante.

Não lhe posso valer, senhora — lhe torna o doge, enternecido.

Por quê?

Porque as provas do seu crime estão patentes. Aqui tens esta carta que a ti é dirigida.

Júlia recebe a carta e mal apenas pôde ler o segredo do seu nascimento e os adeuses de seu pai.

Ele é meu pai! Perdão!

De repente, abre-se uma porta e entra um homem, que parecia um Anjo da Morte, trazendo na mão esquerda, pelos cabelos, uma cabeça ensanguentada, e na direita um alfanje desembainhado. Pálido como um espectro, com os olhos vesgos, atira com a cabeça aos pés do doge, e diz em alta, mas rouca voz:

Eis a cabeça do conde de Spallazi.

Júlia, que estava sentada num canto da sala, a chorar, ao ouvir o nome de seu pai, levanta-se, reconhece Angelino e exclama:

Que horror! Tu, algoz do meu pai!

E caiu morta.

Reinou por alguns instantes o silêncio do túmulo e do espanto.

Dois meses depois de tão lúgubre história, lia-se na porta do Conselho dos Dez um decreto nomeando outro algoz. Quando os habitantes de Veneza lembravam-se de Angelino, diziam:

Coitado, enforcou-se! Foi o carrasco de si mesmo!



Fonte: “Correio das Modas”/RJ, 29 de janeiro de 1839.


Notas:

1O destino é inexorável quando persegue a sua vítima; por vezes, cobre de infâmia a sua lápide.

2 Uma palavra! É relâmpago.

3 Francesco Donato e Donato (1468 – 1553) foi doge da República de Veneza entre 1545 e 1553 (N. do E.)

4 Antônio Feliciano de Castilho (N. do A.).

5 Casa de campo (N. do A.).

6 Estão a perseguir-te, verme! Salva-te!

7 Oh, linda flor de outono! A tempestade da desgraça murchou-lhe a cor.

8 Ali, o cadafalso! Aqui, a loucura e, por todos os lados, o destino.

 

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