NASUNO, O SAMURAI - Conto Clássico Fantástico - Hato Hirogawa
NASUNO, O SAMURAI
Hato Hirogawa
(Séc. XX?)
No tempo em que a rivalidade entre as famílias dos Taira e dos Minamoto ensanguentava as Ilhas Brancas, o mais valente dos Minamoto era Nasuno, o belo e esbelto samurai, cuja flecha — assim era a fama — jamais errara um alvo.
Um dia em que Nasuno cavalgava pela planície, os acordes de um koto, unidos à voz melodiosa de uma mulher, chegaram aos seus ouvidos. Entre um pequeno bosque de rosas e crisântemos, uma mussumé1, mais bela que a Lua, cantava. Fascinado, Nasuno permaneceu imóvel, sem poder tirar os olhos da preciosa jovem.
De repente, ela voltou-se e descobriu o indiscreto guerreiro. Um lampejo de cólera brilhou em seus olhos sombrios, mais negros que a noite.
Levantou-se e, envolvendo-se em seu imaculado e largo quimono, fez menção de retirar-se.
— Oh, beleza celestial! — exclamou Nasuno. —Por que foges de mim?
— Quem és tu? —perguntou a jovem com altivo desprezo. — Quem és tu para atrever-te a falar com a princesa Sotorishima?
— Chamo-me Nasuno! — respondeu firmemente o samurai.
A princesa lançou um grito de indignação.
— Nasuno! O inimigo de minha estirpe! E tu te atreves, Minamoto maldito, a envenenar, com o teu hálito impuro, o ar que uma Taira respira?
— Uma Taira!… — repetiu o guerreiro, empalidecendo. — Tu, uma Taira?
Mas, imediatamente, acresceu:
—E que me importa o ódio de nossos pais se, ao ver-te, floresceu o amor em meu coração? Sotorishima, eu te amo!
— E eu te odeio! — respondeu ela.
— Eu te amo! — respondeu o samurai numa apaixonada entonação. — Ainda que eu tenha de exterminar o monstro Yatama, serás minha!
Um estranho sorriso entreabriu os lábios de coral da princesa.
— A tua insolência merece castigo — disse. — Se és tão valente, procura Tairanomasa, que faz as vezes de meu falecido pai. Procura-o e ele te dirá o preço do meu amor.
— Fá-lo-ei — respondeu simplesmente Nasuno. E se afastou em meio à densa vegetação.
*
No dia seguinte, Nasuno procurou o dáimio2 Taironomasa, com quem falou. O dáimio, reprimindo a cólera, disse-lhe:
— Estou ciente de tudo. Eis a condição que Sotorishima te impõe, por meus lábios, para unir-se a ti. A tua fama de habilidoso arqueiro chegou até ela. Se, com uma flecha, conseguires alvejar o pino de esmeralda que sustenta as folhas de seu leque, será ela a tua mulher; mas, se erras a pontaria, terás de atravessar o teu coração com a mesma flecha, na presença da princesa. Aceitas, samurai?
— Aceito — respondeu Nasuno.
O dáimio, sorrindo cruelmente, chamou a princesa e dirigiram-se todos à praia. Tairanomasa entrou numa barca, a princesa noutra, e o sobre o longo mastro de uma terceira, abandonada ao suave balanço das ondas, amarrou-se aberto o leque da princesa.
A orgulhosa jovem lançou um olhar altaneiro ao jovem apaixonado e, estendendo-lhe uma flecha envenenada, disse-lhe friamente:
— Ali ou aí? — e, com um dedinho róseo, apontou alternativamente o leque e o coração do samurai.
Nasuno, montado de um salto em seu cavalo, lançou-se ao mar como um monstro aquático e —aproveitando o instante em que a barca, que hasteava o leque, se erguia sobre as ondas — esticou o arco, disparando a flecha.
Dois gritos de raiva e um de triunfo ecoaram simultaneamente, enquanto a princesa caía desfalecida no fundo da barca. A flecha de Nasuno, depois de reduzir a mil pedaços o botão de esmeralda, cravara o leque sobre o mastro da barca.
Todavia, disse o dáimio:
— O arco com que tu disparaste esta flecha está enfeitiçado. És desleal. Se quiseres conquistar a princesa, terás de descobrir o mistério do arrozal. Tu te atreves a fazê-lo?
— Fá-lo-ei, dáimio. Contudo, ai de ti se de novo mentes!
E partiu com a alma estraçalhada em mais pedaços que a esmeralda do leque de Sotorishima.
*
As últimas estrelas brilhavam no céu quando Nasuno se dirigiu ao arrozal. O samurai já chegava ao fim de sua viagem quando um bando de cegonhas levantou o voo, lançando gritos roucos, perdendo-se, depois, nas profundezas do espaço.
Rápido como o raio, o samurai esticou seu arco e disparou, uma atrás da outra, várias flechas sobre as ervas altas no ponto de onde as cegonhas haviam saído.
Furiosos uivos de dor responderam aos disparos. O arrozal agitou-se violentamente, como as ondas do mar sacudidas pelo vento, e uma multidão de assassinos fugiu em debandada.
Impassível, Nasuno continuou a disparar; com cada flecha, cravava ao solo um homem e, depois, quando já não mais vislumbrou inimigos, galopou à residência do dáimio. Lá chegou e, sem apear-se, traçou sobre uma flecha as seguintes palavras: “Tu me enviaste a descobrir o mistério do arrozal. Ei-lo aqui, com minha vingança”. E, apoiando a flecha na corda esticada, disparou, atravessando o peito do traidor Tairanomasa.
*
No dia seguinte, o samurai jazia, com o ventre aberto por seu próprio sabre, entre as rosas e os crisântemos, onde vira, pela primeira vez, a pérfida Sotorishima. Os corvos traçavam largos círculos no ar.
*
Assim morreu Nasumo e assim continuam os Taira e os Minamoto ensanguentando, com o seu ódio, as Ilhas Brancas.
Versão em português de Paulo Soriano a partir de tradução espanhola anônima.
Fontes: “Blanco y Negro”/Espanha, 16 de março de 1907; “Variedades”/Peru, edição de 4 de outubro de 1919; “El Hispano-Amazonense”/AM, edição de 1º de janeiro de 1924.
Ilustração: Joaquín Xaudaró (1872 – 1933).
Notas:
1Jovem mulher japonesa.
2Senhor feudal japonês.


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