O MASSACRE DE JUDEUS EM LISBOA - Narrativa Clássica Verídica de Horror - Damião de Góis

O MASSACRE DE JUDEUS EM LISBOA

Damião de Góis

(1502 – 1574)


Nestes dous capítulos, que são os derradeiros dessa primeira parte, tratarei de um tumulto e alevantamento que se, aos dez e nove dias deste ano de mil e quinhentos e seis em Domingo de Pascoela1, fez em Lisboa contra os cristãos-novos que foi pela maneira seguinte.

No mosteiro de São Domingos da dita cidade está a que chamam JESU, e nela um crucifixo, em que foi então visto um sinal, a que davam cor de milagre, conquanto os que se na igreja acharam julgavam ser o contrário, dos quais um Cristão-novo dixe que lhe parecia uma candeia acesa que estava posta ao lado da imagem de JESU, o que ouvindo, alguns homens de baixos o tiraram pelos cabelos arrasto fora da igreja e o mataram e queimaram logo o corpo no Ressio2.

Ao qual alvoroço acudiu muito povo, a quem um frade fez uma pregação, convocando-o contra os cristãos-novos; após o que, saíram dois frades do mosteiro, com um crucifixo nas mãos, bradando: “Heresia! Heresia!”, o que imprimiu tanto em muita gente estrangeira, popular, marinheiros de naus que então vieram da Holanda, Zelândia, Hoestelanda e outras partes, assim homens da terra da mesma condição e pouca qualidade, que, juntos mais de quinhentos, começaram a matar tôdolos cristãos-novos que achavam pelas ruas, e os corpos, mortos ou meio vivos, lançavam e queimavam em fogueiras que tinham feitas na ribeira e no Ressio, ao qual negócio lhes serviam escravos e moços, que, com muita diligência, acarretavam lenha e outros materiais pera acender o fogo, no qual Domingo da Pascoela mataram mais de quinhentas pessoas.

A esta turma de maus homens e de frades que, sem temor de Deus, andavam pelas ruas concitando o povo a esta tamanha crueldade, se juntaram mais de mil homens da terra, da calidade dos outros, que, todos juntos, a segunda-feira continuaram nesta maldade com mor crueza; e, por já nas ruas não acharem nenhuns cristãos-novos, foram cometer3 com vaivéns e escadas as casas em que viviam, ou onde sabiam que estavam, e tirando-os dela arrasto pelas ruas, com seus filhos, mulheres e filhas, os lançavam de mistura vivos e mortos nas fogueiras, sem nenhuma piedade; e era tamanha a crueza que até nos meninos e nas crianças que estavam no berço a executavam, tomando-os pelas pernas e fendendo-os em pedaços, esborrachando-os d’arremesso nas paredes. Nas quais cruezas se não esqueciam de lhes meter a saco4 as casas e roubar todo o ouro, prata e enxovais que nelas achavam, vindo o negócio a tanta dissolução que das igrejas tiravam homens, mulheres, moços e moças destes inocentes, desapegando-os dos sacrários e das imagens de Nosso Senhor, de Nossa Senhora e outros santos, com que o medo da morte os tinha abraçado, e dali os tiravam, matando e queimando misticamente, sem nenhum temor de Deus, assim a elas como a eles.

Neste dia pereceram mais de mil almas, sem haver na cidade quem ousasse resistir pola pouca gente, de sorte que nela havia por estarem os mais dos honrados fora, por caso da peste.

E, se os alcaides e outras justiças queriam acudir a tamanho mal, achavam tanta resistência que eram forçados a se recolher à parte que onde estivessem seguros de lhes não acontecer o mesmo que aos cristãos-novos.

Havia, entre os portugueses encarniçados neste tão feio e inumano trato, tais que, por se vingarem do ódio e malquerença que tinham com alguns cristãos lindos, davam a entender aos estrangeiros que eram cristãos-novos, e nas ruas ou em suas casas, onde os iam saltear, os matavam, sem em tamanha desaventura se poder poer5 ordem.

Passado este dia, que era o segundo desta perseguição, tornaram à terça-feira estes danados6 homens a prosseguir em sua crueza, mas não tanto como nos outros dias, porque já não achavam quem matar, pois tôdolos os cristãos-novos, que escaparam desta tamanha fúria, foram postos a salvo por pessoas honradas e piadosas, que nisso trabalharam tudo o que neles foi o tempo e desordem, dele lhes pôde conceder, sem poderem evitar, que não perecessem neste tumulto mais de mil, e sem poderem evitar que perecessem mais de mil e novecentas almas, que tanto se achou per conta que mataram estes maus e perversos homens, no que passaram a mor parte daquele dia, no qual à tarde acudiram à cidade o regedor Aires da Silva, regedor, e Dom Álvaro de Castro, governador, com a gente que puderam ajuntar de suas valias, sendo já quase acabado e pacífico o furor desta gente, cansada de matar e desesperada de poder fazer mais roubos dos que já tinham feito.

Esta nova7 deram a el-Rei na vila de Avis, indo d’Abrantes visitar a infante Dona Beatriz, sua mãe, que estava em Beja, de que foi muito triste e anojado pelo que, pera se prover em tamanha desordem, logo ali mandou o prior do Crato e Dom Diogo Lobo, barão d’Alvito, com poderes pera castigarem os que achassem culpados, dos quais muitos foram presos e enforcados per justiça, principalmente dos naturais, porque os estrangeiros, com os roubos e despojos que fizeram, se acolheram a suas naus, e se foram cada um pera donde era.

Aos dous frades, que andaram com o crucifixo pela cidade, tiraram as ordens e, per sentença, foram queimados.

E el-rei mandou proceder por seu procurador contra os da cidade e termo, e oficiais dela de que muitos perderam os ofícios e as fazendas, e contra a cidade e termo foi dada sentença, a qual me pareceu de substência pera se poer de verbo a verbo no capítulo seguinte.


Fonte: “Crônica do Felicíssimo Senhor Rei D. Emanuel”, ed. Francisco Correia, Lisboa, 1566, pág. 105-V a 106-V.


Ilustração: Eugène Beyer (1817-1893).


Notas:

1Domingo seguinte ao da Páscoa.

2Rossio.

3Assaltar.

4Saquear.

5Pôr.

6Malditos.

7Notícia.

 

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