O ÓDIO ENDURECIDO - Conto Clássico Cruel - Gonçalo Fernandes Trancoso


 

O ÓDIO ENDURECIDO

Gonçalo Fernandes Trancoso

(c. 1520 – 1596)


De um dos pioneiros do conto em Portugal, Gonçalo Fernandes Trancoso (c. 1520 — 1596), autor dos “Contos de Proveito e Exemplo”, sabe-se muito pouco: nascido em Trancoso, viveu em Lisboa, onde perdeu quase toda família — mulher, dois filhos e um neto — na peste de 1569. É em razão dele que vem a expressão “histórias de Trancoso”, que passou a designar o conjunto de narrativas populares de tradição oral. “O Ódio Endurecido”, conto cruel, radicado numa lenda da antiguidade, examina até onde vai a inveja humana.



Que há um gênero de ódio tão endurecido que parece enxerido1 pelo Demônio. Trata de dous vizinhos invejosos um do outro.


Viviam em um lugar pequeno dois homens, que se queriam mal, e os vizinhos e o seu prelado haviam feito o que neles era polos fazer amigos; os quais, ainda que algum tempo se falavam, como o ódio era de coração, não durava neles a amizade, feita por cumprir que lho rogava, ou lho mandava, que logo tornavam como de primeiro.

Durou neles este ódio tanto, que, vindo por ali el-rei, lhe deram conta disto alguns homens da terra, e el-rei mandou chamar a ambos, e ante si, per eles e per outros inquiriu o melhor que pode qual seria a causa; porque sabida, atalhando-lhe os princípios, se faria a paz. E achou que era pura inveja que cada um tinha dos bens e fazenda2 do outro, porque nisto eram quase iguais e abastadamente ricos. Porém, cada um desejava ver-se aventajado3 do outro, inda4 que fosse à custa de por isso ver destruído e perdido de todo; e o mal que um queria ao outro, esse mesmo lhe queria avaro a ele. El-rei, desejoso de os contentar a ambos, fartando-os de fazenda, por que5 perdessem a inveja, disse-lhe:

Sede amigos; e eu quero que seja à minha custa, e me apraz de vos dar tudo o que souberdes pedir de meu reino, que eu tenha, com esta condição, que um de vós há de pedir à sua vontade tudo que ele quiser com que fique contente, para não haver inveja do outro, e que desde agora lho dou; e ao outro que não pedir hei de dar em dobro sem míngua alguma.

Eles, à primeira face parecendo-lhes bem, o aceitaram e agradeceram, crendo cada um que ficaria aventajado do outro; porém, quando caíram na conta que, ainda que um pedisse muito, haviam de dar dobrado ao outro, nenhum queria pedir por não ficar menos que seu vizinho. El-rei, entendendo-os, mandou lançar sortes, e ao que coubesse pedir, pedisse por força, dizendo-lhe:

Tu que queres mais do que souberes pedir? Pede à tua vontade, farta-te, e depois deixa-me dar a estoutro dous tantos, que tu não perdes nada nisso.

Nenhum deles tinha paciência, e per derradeiro lançaram sortes, e aquele a que lhe coube pedir, ficou per isso mui triste, e depois de bem imaginar no que pediria, veio ledo a el-rei e disse-lhe:

Senhor, já sei o que hei de pedir; e se mo deres cumprindo tua palavra, ficarei contente e amigo de meu vizinho, dando-lhe a ele o dobro.

E el-rei lho prometeu sem falta; ele se pôs em joelhos, e lhe beijou a mão pela mercê e logo lhe pediu:

Dê-me vossa alteza um destes meus olhos aqui, posto na minha mão.

El-rei, maravilhado do que pedia, lhe disse:

Jesu! E por quê?

E o homem tornou a dizer:

Porque, conforme a promessa de vossa alteza, se me tirarem um olho a mim, hão de lhe de tirar dois olhos a ele; e, assim, vendo-lhe eu este dano, me contento.

Foi muito de espantar a crueldade deste e ver o endurecido ódio que ambos se tinham.

Queira Deus, por sua piedade e misericórdia que não aja entre nós tal, senão que todos em caridade nos amemos uns aos outros, por amor de nosso Senhor Jesu Cristo, que com o Padre e Espírito Santo vive e reina por sempre sem fim. Amém.


Fonte: “Contos e Histórias de Proveito e Exemplo”. Lisboa, Ed. Antônio Gonçalves, 1575. Páginas 12-V a 13-V.


Ilustração: Piet Bruegel, o velho (c. 1530 – 1569)


Notas:


1Inserido.

2Recursos financeiros.

3Avantajado.

4Ainda.

5Para que.

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