O RENASCIDO - Conto Clássico Fantástico - Manuel Lassa y Nuño
O RENASCIDO
Manuel Lassa y Nuño
(1863 – 1938)
Tradução de Paulo Soriano
Os habituais frequentadores da taverna ficaram maravilhados ao ver abrir-se a porta, sem que ninguém tocasse a maçaneta, e, mais assombrados ainda se viram quando contemplaram um par de pés soltos, decepados, que avançavam com o movimento cadenciado de um homem andando.
Eram pés que andavam, que andavam sozinhos! Seguiam-nos uma multidão atônita e curiosa. Estampava-se em todos os rostos uma intensa emoção. Indagavam-se se seria aquilo um maquinismo, um artefato construído por algum mecânico embruxado. Mas não, aqueles pés pareciam humanos. Os homens mais audazes viram claramente que, dentro dos sapatos de couro resistente, assomavam cotos sanguinolentos. Aquilo não poderia ser um brinquedo mecânico; mais semelhava um despojo revelador de um crime terrível, como se a vítima desmembrada quisesse denunciar, com os seus pés, que se moviam por permissão divina, algum horrendo homicídio, cujo autor devia ser, a todo custo, encontrado.
— Milagre, milagre! — gritaram diversas mulheres aferradas a tal ideia. Mas logo a exclamação congelou-lhes nos lábios, porquanto todos puderam ver que aqueles pés se dirigiram aos que estavam na mesa e ficaram juntos diante de uma cadeira, como se correspondessem a uma pessoa que nela se sentasse. Ao mesmo tempo — e isto ampliou o assombro geral —, as pessoas viram um copo d’água, que estava sobre a mesa, subir sozinho e se inclinar lentamente, vertendo o líquido que saía do seu interior, e, sem cair ao chão, desaparecia no ar, ou sabe Deus onde, voltando depois à mesa, como se todo aquele movimento resultasse de um passe de mágica. Depois, aqueles pés, que todos fitavam com olhos espantados, puseram-se a andar novamente, de novo procurando a saída, que lhe franquearam mais que depressa, e saíram à rua, seguidos sempre por uma multidão admirada.
Chamaram-se as autoridades, que correram para o local. Todavia, como ninguém se atrevia a tocar em pés tão estranhos, nem mesmo os aguazis e meirinhos, que são gente de poucos melindre, recorreram ao verdugo para capturá-los. Tudo foi em vão. Quando o homem se inclinou para agarrá-los, os pés deram tal salto que as pessoas, atemorizadas, correram em mil direções, e aquele executor da justiça não era um dos que menos corriam.
Também os pés corriam rua abaixo, perseguidos à distância pelos mais audazes. Era um verdadeiro acossamento. Houve quem disparasse os arcabuzes contra eles, mas os tiros não lhes causavam danos.
—Que venha o padre com água benta! Isto é coisa do outro mundo!
— Esconjurem-nos! Esconjurem-nos! — gritavam as pessoas amedrontadas, revoluteando-se em torno dos pés, que pareciam desafiar o mundo inteiro.
Chegou um sacerdote, fez as suas aspersões, mas sem êxito. Os pés, sem responder ao esconjuro, seguiam ameaçadores. Alguém lançou a ideia de conduzi-los à prisão, encurralando-os; foi acolhida com entusiasmo; formou-se um verdadeiro cordão de batedores e a armadilha estava feita. Os pés foram recolhidos ao calabouço, cuja porta foi trancada e fortemente aferrolhada, além de espargida com água benta. À cela puseram-se sentinelas, não somente para evitar a evasão de tão originais presos, senão para conter o tumulto das pessoas que ansiavam assomar-se às grades da janela de fora e disputavam a soco a preferência.
Formou-se uma fila, e por rigorosa ordem de chegada foram acercando-se os curiosos, que se retiravam mais tranquilos ao verem que os malfadados pés estavam quietos e encurralados na sombra do calabouço.
Após uma semana, ninguém mais se lembrava dos pés misteriosos, a não ser os seus guardiões. Além disto, eram presos que bem pouco incomodavam, pois nem comida era preciso ministrar-lhes e nem era preciso entrar na masmorra para fazer a revista, que era realizada pela grade externa.
Mas, um dia, o encarregado de tal mister levou um susto maior que o ordinário. A princípio, supôs que aquilo seria uma ilusão; mas, depois de olhar e novamente olhar a sombra onde estavam cravados os pés, convenceu-se de que já não eram pés. Ou melhor, pés ainda eram, mas a eles prendiam-se as respectivas pernas, que se lhes juntavam acima. O assombro do carcereiro era indescritível. Se tinha alguma dúvida de que aos singulares pés haviam brotado aquelas pernas, esta se dissipou ao vê-las sair do canto e medir com grandes passadas o pavimento do calabouço. E isto se pode chamar de medir, pois as pernas pareciam um compasso; um compasso extraordinário, como nenhum engenheiro jamais havia usado. Plantava um pé ao chão, levantava o outro, girava rapidamente envolta do que estava fixo e, então, punha-o de volta ao chão. Aquilo era tão surpreendente que o guardião fugiu apavorado, dando gritos e alarmando a cidade inteira, que em massa correu para presenciar tão sobrenatural fenômeno.
Duplicaram-se os guardiões e não se interrompeu a vigilância durante o dia ou a noite; assim, foi possível ver-se como continuava a se formar aquele corpo, que ganhou ventre, quadris e cintura, fluindo sua tão singular carne como a dos seres de geração espontânea, ou, por segmentação, como os zoófitos.
A comoção causada pela notícia deste surpreendente renascimento foi colossal. Temia-se pelo momento em que esta estranha personagem lograsse a completa formação. Havia tanto temor quanto desejo, pois evidenciava-se a intensíssima curiosidade de saber que espécie de cabeça emergiria sobre aqueles ombros já formados, muitos esperando que ela teria chifres descomunais e retorcidos, e não poucos acreditando que do tronco brotariam várias cabeças.
A decepção foi grande; surgiu apenas uma, que acabou por ser como a de qualquer outro mortal mais ou menos feio; claro que o nariz era grande, aquilino, judaico, digno companheiro do ponderado pelo nosso satírico e mordaz poeta clássico. Outra grande curiosidade as pessoas queriam ver satisfeita: consistia em saber se o renascido — como já era ele chamado — chegaria a falar e se a sua língua seria compreensível. Como não foi? Uma voz fraca e dolorida saiu da masmorra:
— Abram, abram a masmorra por misericórdia! — dizia numa língua perfeitamente inteligível.
Todos estremeceram e uma corrente nervosa correu pela massa humana. As autoridades deliberaram por que resolução tomar, decidindo-se por abrir o calabouço, pois aquele estranho personagem mais bem semelhava um pobre homem carente de auxílio. Tomando mil precauções, deram-lhe roupas com que cobrisse suas recém-nascidas carnes e, mais confiante, o corregedor teve com ele uma palestra pela grade externa.
— Senhores! — gritou a primeira autoridade, dirigindo-se à multidão. — Disse ele que, se o pusermos livre, há de elucidar quem é ele e a causa de seu maravilhoso renascimento. Os senhores concedem-lhe a liberdade?
— Que o libertem, que o libertem! — rugiu a multidão.
Por fim, abriram-se as portas da masmorra e o prisioneiro saiu à luz do dia. Era de estatura mediana, robusto, barba hirsuta e de olhar malévolo; seu rosto tinha uma tonalidade citrina e lhe dava um aspecto ainda mais sombrio o desmesurado nariz, que caía sobre a sua boca rasgada num esgar não sei se desdenhoso ou lastimoso. Os que ali estavam reunidos não conseguiam vê-lo à vontade. O lugar era pequeno demais para tanta gente, e da multidão ecoou o grito:
—Levem-no para a Praça do Calvário! Coloquem-no no pilar da cruz!
Mas tal fora a careta de desagrado que se estampou no rosto do misterioso homem, e tais foram as palavras de protesto que ele proferiu, que, a tal desiderato, tiveram de escolher outro lugar. Levaram-no para os arredores e, alçado ao bastião da muralha, o homem proferiu, em meio a um profundo silêncio, tais espantosas palavras:
— Tenho dezoito séculos de existência sobre estes mesmos pés que tanto vos maravilharam. Meu corpo feneceu muitas e muitas vezes, mas nunca completamente. Meus pés, assim como meu espírito, condenados a uma existência eterna na face da Terra, resistiram a cem mortes distintas. Deles, sempre brotou a nova carne em meus renascimentos corporais. Eles têm sido — também sempre! — impelidos, por uma força divina, a caminhar até a consumação dos séculos. A última morte do meu corpo ocorreu naquelas montanhas que vedes ali, cobertas de neve. Em minha peregrinação sem fim pela Terra, fui surpreendido por uma matilha de lobos famintos, que destroçaram meu invólucro temporal, servindo-lhes de alimento. Meus pés subsistiram, com subsistirão pelos séculos dos séculos; e o renascer do meu corpo, como, com horror, haveis presenciado, assim acontece porque jamais hão de cessar os meus passos na Terra; e uma voz, que somente eu posso ouvir, eternamente me impele, repetindo incessantemente: “Anda, anda!”
E o Judeu Errante, o infeliz Ahasverus, se afastou andando, andando...




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