O RESSUSCITADOR - Narrativa Verídica Humorística Fúbebre - Anônimo do séc. XIX

O RESSUSCITADOR

Autor anônimo do séc. XIX

Tradução de autor desconhecido do mesmo século.



Um dia, chegaram dois charlatões a uma pequena vila. Mas, como Cagliostro, Mesmer e outras personagens importantes acabavam de se apresentar em Paris com o título de doutores, que, pelo gesto e o contato, curavam todas as doenças, eles julgaram que era necessário fazer alguma coisa mais extraordinária para conferir crédito à sua ciência.

Anunciaram-se, pois, como tendo o poder de ressuscitar os defuntos; e, para que não houvesse dúvida disto, prometeram restituir a vida, no fim de três semanas, em um cemitério que se lhes quisesse indicar, a qualquer defunto que fosse, ainda que tivesse dez anos de sepultura.

Entretanto, rogaram ao juiz da vila os mandasse guardar à vista, para ter a certeza de que não fugiriam; e que fosse concedida licença para venderem remédios e exercerem as suas habilidades.

Pareceu tão bela a proposta que ninguém duvidava em os consultar. Encheu-se a sua carroça de compradores e todos achavam dinheiro para pagar a estes médicos de nova espécie.

O mais moço dos charlatões, que tinha menos audácia, deu parte de seus temores ao seu companheiro:

Apesar de toda vossa habilidade, creio que nos expondes a sermos apedrejados; porque, finalmente, não tendes o poder de ressuscitar defuntos, e pretendeis fazer mais do que o Messias mesmo, que não ressuscitou Lázaro senão depois de quatro dias.

Não conheceis os homens — replicou o doutor. — Eu estou mais sossegado do que pensais.

Justificou-se a sua presunção: mal tinha ele falado, recebeu uma carta, de um fidalgo da vizinhança, que dizia:

Sr., contaram-me que estais para fazer uma grande operação, que me faz tremer de medo. Eu tinha uma má mulher. Deus foi servido livrar-se dela e hoje seria o mais desgraçado dos homens se vós a ressuscitásseis. Portanto, rogo-vos que não façais uso do vosso segredo na nossa vila, e aceiteis uma pequena indenização de 50 luíses1, que vos mando etc.”

Uma hora depois, chegaram aos charlatões dois moços banhados em lágrimas, oferecendo-lhes 60 luíses, com a condição de não usarem do sublime talento, porque eles receavam da ressurreição de um parente velho, cuja herança acabavam de receber.

A estes, sucederam outros que também trouxeram seu dinheiro e, por semelhante modo, fizeram a mesma súplica.

Finalmente, o mesmo juiz veio dizer aos dois charlatões que não duvidava, de modo algum, do seu poder maravilhoso, do que tinham dado bastantes provas por muitíssimas curas extraordinárias; mas que a famosa experiência, que eles estavam para fazer no dia seguinte, no cemitério, já tinha amotinado a vila, que receava muito ver ressuscitar defuntos, cuja volta podia causar grandes revoluções na fortuna; e, em consequência disso, rogou-lhes que partissem, oferecendo-lhes uma atestação feita com as formalidades, na qual constaria que eles verdadeiramente ressuscitavam os defuntos.

Com efeito, foi assinada, firmada, legalizada a dita certidão e os dois companheiros, carregados de dinheiro, foram mostrando por toda as províncias a prova legal do seu talento sobrenatural.


Fonte: “O Correiro Catharinense”/SC, edição de 21 de dezembro de 1853.

Fizeram-se adaptações textuais.


Nota:

1O luís era uma antiga moeda de ouro francesa.

 

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