O SILÊNCIO DAS SEREIAS - Conto Clássico Insólito - Franz Kafka

O SILÊNCIO DAS SEREIAS

Franz Kafka

(1883 – 1923)





Eis a prova de que há meios inadequados, quase infantis, que podem servir para a salvação.

Para se proteger do canto das sereias, Ulisses tapou os ouvidos com cera e se amarrou ao mastro da embarcação. Embora todos soubessem que este recurso era ineficaz, muitos navegantes poderiam ter feito o mesmo, afora os que já haviam sido, desde longe, fisgados pelas sereias. O canto das sereias transpassava tudo e a paixão dos seduzidos desvencilhava prisões mais robustas que mastros e correntes. Ulisses, todavia, não pensou nisto, embora algo a respeito talvez já lhe tivesse chegado aos ouvidos. Confiou completamente naquele punhado de cera e no feixe das correntes. Satisfeito com seus pequenos estratagemas, navegou por entre as sereias com inocente alegria.

Todavia, as sereias possuíam uma arma muito mais terrível que o canto: o seu silêncio. Malgrado isto não tenha acontecido, é possível que alguém tenha se salvado de seus cantos. Não assim de seu silêncio. Nenhum sentimento terreno pode equiparar-se à jactância, que consigo a tudo arrasta, de tê-las vencido por suas próprias forças.

Mas, realmente, as terríveis sedutoras não cantaram quando Ulisses passou. Talvez porque acreditassem que somente poderiam dobrar aquele inimigo com o silêncio, talvez porque a maravilha de felicidade no rosto de Ulisses — que só pensava em correntes e em ceras — fizessem-nas esquecer de todo e qualquer canto.

Ulisses — se assim é possível exprimir — não ouviu o silêncio. Estava convencido de que elas cantavam, e que só ele estava a salvo do fatídico canto. Fugazmente, viu as ondulações de seus pescoços, a respiração profunda, os olhos cheios de lágrimas, os lábios entreabertos. Acreditava que tudo era parte de uma melodia que fluía inaudível a seu redor. O espetáculo começou a desvanecer-se repentinamente. As sereias se esfumaram diante de sua determinação e, precisamente quando se achava mais próximo delas, Ulisses já não mais as levava em conta.

E elas, mais belas do que nunca, espichavam o corpo e se contorciam. Soltavam as suas terríveis cabeleiras ao vento, abriam suas garras sobre os rochedos. Já não pretendiam seduzir: queriam apenas capturar por mais um instante o fulgor dos grandes olhos de Ulisses.

Se as sereias tivessem consciência, teriam sido, então, inteiramente destruídas. Mas elas continuaram como estavam, e Ulisses escapou.

Aliás, chegou aos nossos dias um apêndice à história. Diz-se que Ulisses era tão astuto, tão ladino, que até mesmo a deusa do destino era incapaz de penetrar em seu imo. Por mais que isto seja inconcebível à mente humana, talvez Ulisses tenha percebido que as sereias haviam silenciado, e resistiu a elas e aos deuses representando, à guisa de escudo, a farsa acima narrada.



Versão em português: Paulo Soriano.

 

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