OS COMPADRES DO DIABO - Conto Clássico Sobrenatural - Raimundo Lopes

OS COMPADRES DO DIABO

Raimundo Lopes

(1894 – 1941)



Naquele cair da noite negríssima, sem luar e sem estrelas, todos no corredor atijolado, uns assentados familiarmente pelos batentes das portas, outros em bancos de pau ou nas cadeiras de palhinha estragada e às vezes oscilantes sobre os pés malseguros, vieram a talhe de foice as histórias de aparições e de traças do Diabo.

Minha tia, senhora devotíssima, presidente de uma das irmandades da vila, e em cujo catolicismo ortodoxo o Diabo era uma figura tão essencial como o próprio Deus, escandalizava-se da minha falta de fé e, como eu contestasse autenticidade a todos os casos de bruxarias e de possessos que me contava aquela gente simplória, começou a contar a história estranha de um homem que ela conhecera e fora o compadre do Sujo.

Perguntou-me se eu não conhecia a Chiquinha Tavares, uma esmirrada, que promovia em casa dela, com grande escândalo da piedade local, rezas espíritas.





Conhecia, como não!

Pois foi o marido dela o João Boticário.

Eram muito felizes. Seu João tinha botica na rua Grande, lá em cima, adiante da ladeira da casa da Câmara.

Prosperava nos negócios. Os filhos vinham e cresciam fortes e bem-criados. Um seio de Abraão.

A Chiquinha estava prenha do quarto filho.

O parto foi difícil. Mandaram vir a Carlota, velha crioula gorducha, a parteira mais sabida daquelas bandas; e a D. Aurora, mãe da Chiquinha, que acreditava em feitiçarias, mandou buscar por um próprio no Arari a Maria Benta, que não havia outra para tirar um mau-olhado ou fazer sair do estômago de um cristão mais calangros que das locas de uma estrada e uma saparia, que nem o lago…

Nada disso, porém, fez com que a infeliz tivesse um bom sucesso.

Seu Raposo, boticário nesse tempo, era muito moço, mas já fazia boas curas, melhor que muito médico; veio também de Viana, a chamado urgente, e não dava volta na criança.

Era uma noite assim como esta… não, pior, porque trovejava feio e de vez em quando abria um relâmpago. A Chiquinha sentira as dores e começara a chorar desde meio-dia. Às seis horinhas soltava gritos de cortar o coração. Como eram bastante estimados, lá estávamos nós, as senhoras das melhores famílias da vila, a ajudá-los.

Aquele martírio se prolongou até alta noite. Bateram onze horas, e não tinha a moça alívio nem ninguém podia dormir.

No rosto do pobre do marido, que ia e vinha, inquieto, da casa para a botica e interrogava ansioso a cada momento o colega, se lia o terror.

Seu Raposo, esse estava desanimado e não era sem razão: a bruxa fizera uma aplicação de remédios do mato cujo efeito cáustico complicara o caso, de modo que o parto, se fosse possível, mataria talvez a mãe e a criança.

Toda a esperança estava nas promessas feitas de se erguer uma capelinha de palha de N. S. do Bom Parto e nela fazer novenas de arraial em honra da santa e de São Raimundo Nonato.

E rezávamos todas o terço, umas dez senhoras e moças, diante do oratório, de velas acesas…

Nisto, ouvimos, de novo, gritos ainda mais violentos que dantes. A Chiquinha se retorcia, berrava de dor e de medo, o corpo todo desmanchado, desfeita em suores.

Pareceu-me que ela perdera a coragem que em tais ocasiões é o que a mulher mais precisa de ter.

Saí precipitada e voltava ao oratório quando, ao passar pela varanda, seu João surgiu na minha frente. Vinha desfigurado. Perguntou pela minha opinião.

E eu, sem calcular o efeito das minhas palavras, disse-lhe que nada mais podíamos esperar de meios humanos e sim pedíssemos a Deus…

Com isto, o homem, como se lesse enfim nas minhas palavras um desengano que seu Raposo não tinha ânimo de lhe dar e uma tentativa de consolação que lhe parecia inútil, fitou-me de maneira esquisita, recuou uns dois passos e, do meio da varanda, hirto, os olhos faiscando, disse esta coisa incrível:

“— De Deus é que nada mais espero. Se escaparem, a criança terá o Diabo por padrinho!

E entrou apressado para a botica, cuja porta dava mesmo para a varanda.

Daí a segundos voltava a correr, desorientado, deixando cair, espatifar-se no chão o vidro de remédio que tinha ido buscar. E dizia-se, depois, que, na loja, ao pôr a mão no vidro, vira sobre a prateleira um bicho preto, enorme, de olhos de fogo…

Mãe e filho salvaram-se, mas soubemos, passados tempos, que todos os anos, àquela mesma data e hora, um monstro preto, enorme, de olhos de fogo, aparecia nos caibros, por cima da rede onde dormia o menino. Era, dizia o povo, o Demônio, bom padrinho, que vinha (Deus me perdoe…) de visita ao afilhado.

Desde aquele tempo, seu João deu para beber, quebrou e caiu na miséria; afinal, morreu numa noite de chuva em que caíram sete raios na vila; e na hora da morte dizia ver o lugar que lhe estava reservado lá ‘nas caldeiras de Pedro Botelho’, bem junto do trono do seu maldito compadre...

Chiquinha também nunca mais endireitou de vida. Agora que se fez espírita, todos veem neste erro mais um efeito do compadrio do Cão…”

E como eu continuasse incrédulo, objetando que o monstro era apenas um vulgar gato preto ou quando muito alguma jiboia doméstica caçadeira de ratos vinda da casa vizinha, e como atribuísse o caso e todas as consequências dele à alucinação e à ignorância, a velha devota concluiu, convicta:

É isto, brinquem com estas coisas, mas não se arrependam depois…



Fonte: “O Cruzeiro”/RJ, edição de 2 de março de 1929.

Ilustrações de Orestes Acquarone (1875 – 1952).

 

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