THILDA - Conto Clássico Trágico - Charles Rémond

THILDA

(Lenda charolesa)

Charles Rémond

(Séc. XIX)

Tradução de Paulo Soriano



Percorrendo-se a pitoresca estrada que liga Clermain a Matour, em Saône-et-Loire, mais ou menos a meio caminho, nas colinas à direita, há um pequeno bosque de abetos. Ali, em meados do século XIX, entre trechos de muros e escadarias em ruínas, erguia-se uma alta cruz de pedra semidestruída, da qual apenas a base pode ser vistas nos dias de hoje.

Essas ruínas e essa cruz têm uma história terrível…

Há muito, muito tempo, no lugar dos abetos com seus troncos retos e regulares como colunas, erguia-se um vasto castelo com torres maciças e pontiagudas, cuja imponência dominava o vale.

Naquela época, o velho barão de Maslefort, senhor daquele solar, recebia diariamente à sua mesa, vindos de todas as terras do mundo, inúmeros senhores e impávidos cavaleiros

Sem dúvida, a hospitalidade do barão era magnífica, e as caçadas que ele organizava eram emocionantes e magníficas. Todavia, tudo isto não era bastante para explicar tão grande afluência de visitantes; explica-o, sim, o fato de que o castelo de Maslefort abrigava a bela Thilda, filha do barão, a maravilha do ducado da Borgonha.

Thilda era tão escura quanto a noite. Seus grandes olhos eram profundos e inquietos. Seus lábios eram primorosamente desenhados e puros. Seus cabelos — cujos cachos sedosos caíam livremente sobre os ombros —contrastavam com a palidez marfim de suas faces. Tudo isto fazia dela uma criatura estranhamente bela e desejável. Contudo, nenhum dos convidados de seu pai podia se gabar de ter dela obtido a menor palavra de esperança. Ela recebia os madrigais mais galantemente executados e as declarações mais ardentes com um sorriso igualmente zombeteiro.

Mas, à noite, quando todos dormiam no castelo, uma voz doce e orgulhosa se elevava do vale, cantando um romance daquela época:


Dama cujo sorriso

Cativa o pobre coração,

Que sofre e não ousa falar

Do excesso de sua dor;

Ah! Deixe-te comover,

Ou terei que morrer!


Então, a morena Thilda deixava o castelo por uma saída secreta e logo se encontrava nos braços do cantor, que não era outro senão Francel, o menestrel loiro, cujos tensons1, lais2 e romances eram cantados por toda a Borgonha. Loucamente, eles se amavam e Thilda jurara a Francel que jamais pertenceria a outro homem.

Ora, um dia, circunstâncias imprevistas obrigaram Francel a deixar sua amada e partir para a guerra numa terra distante. Dois anos se passaram sem que Thilda — cuja palidez se acentuara e cujos olhos agora estavam obscurecidos por olheiras — recebesse a mínima notícia de seu amado. Enquanto isso, seu pai, sentindo-se à beira da morte, pressionava-a cada vez mais a que se casasse. E, diante da obstinada recusa da pálida jovem, o velho senhor foi tomado por uma tristeza mortal.

Sem quaisquer notícias, passaram-se três anos. O barão acabara de declarar à filha que, se ela não aceitasse o primo Hugues como marido, seria a desgraça de seus últimos dias e morreria amaldiçoando-a. A pobre Thilda, desesperada por nunca mais ver o seu amado, finalmente consentiu... E Sir Hugues de Combernon, um grande caçador e formidável beberrão, cuja barba ruiva assustava as crianças, tornou-se o feliz marido da maravilha do ducado da Borgonha.

Passaram-se mais três anos. Certa noite, Sir Hugh, tendo voltado da caçada, dormia profundamente ao lado de sua jovem esposa, que, com o olhar perdido na noite, estava absorta em pensamentos. Subitamente, uma voz vibrante ecoou pelo vale.


Dama cujo sorriso

Cativa o pobre coração

Que sofre e não ousa falar

Do excesso de sua dor…


Era Francel. Francel que, como cavaleiro e capitão, retornava para pedir a mão daquela que jamais esquecera. Ao som de sua voz, a pobre Thilda pôs-se a tremer tão violentamente que acordou o marido.


Francel continuou sua canção:


Ah! Cede-te a mim,

Ou morrerei!


Quem é esse estranho louco que veio perturbar nosso descanso? — exclamou Sir Hugh, despertando completamente.


O menestrel louro repetiu:


Ah! Cede-te a mim,

Ou morrerei!


Oh! Oh! O que é isso? — rosnou Hugh. — Por Deus, senhora, quero ver de perto quem é esse sujeito audacioso que vem, a esta hora da noite, bradar a ti cantigas de amor!

E, vestindo-se às pressas, cingiu a espada e saiu por um baixo portão… Poucos minutos depois, Thilda, tremendo cada vez mais, ouviu blasfêmias terríveis, seguidas de dois altos gritos que despertaram a montanha inteira.

Aterrorizada, a pobre moça correu, seminua, pelo caminho que o marido acabara de traçar, gritando com voz desesperada:

Francel, Francel!

Todavia, somente as águias-pesqueiras responderam àqueles chamados com seus pios plangentes. Naquele instante, a lua surgiu, vermelho-sangue, acima das nuvens, e Thilda viu a seus pés os cadáveres do marido e do seu amado, unidos num último e mortal abraço.

A cabeça loira de Francel estava inteiramente iluminada pela lua. Seus lábios cerrados, que deitavam uma espuma de sangue, entreabriram-se como se lhe proferissem uma maldição; e seu olhar fixo parecia repreender a noiva perjura por sua traição.

Perdoa-me! Perdoa-me! — implorava Thilda.

E, ajoelhando-se, tomou a cabeça pálida do morto nos braços, cobrindo-a de beijos apaixonados. Mas os lábios de Francel guardavam uma maldição silenciosa; os seus olhos, um terrível repúdio.

Então, Thilda, pálida como um fantasma, levantou-se. E, desembainhando o punhal do seu amado, cravou-o duas vezes no próprio peito.

No dia seguinte, os três corpos foram encontrados. Francel jamais pôde ser separado dos braços de Thilda, que o acolheu num último abraço.

Uma alta cruz de pedra foi erguida naquele lugar. É a mesma cujas ruínas ainda podem ser hoje vistas. E se conta, em todas as casas de campo nas montanhas, que, nas noites de outono, ouve-se, vinda dos bosques de pinheiro, uma voz plangente, que geme:

Francel! Francel! 

É Thilda, que vem pedir perdão ao noivo! — murmuram, persignando-se, os velhos pastores.


Fonte: “La Tradition”/França, edição de 15 de junho de 1888.

Ilustração: Dall-E 3/Monde Legendaire.


Notas:

1Gênero poético medieval caracterizado, como o nosso repente, pela troca de argumentos entre dois trovadores sobre um determinado tema.

2Pequeno poema medieval narrativo, inspirado em temas sérios ou apaixonados, geralmente retirados de lendas antigas. Era recitado acompanhado por harpa ou alaúde.

 

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