UMA TRAGÉDIA NO CAMPO - Conto Clássico Chinês Sobrenatural - Conto Tradicional.
UMA TRAGÉDIA NO CAMPO
Conto tradicional chinês
No segundo mês de 1738, um raio matou um soldado. Este homem tinha uma boa reputação. Por isto, os seus companheiros ficaram deveras surpresos vendo-o morrer assim.
Todavia, um velho soldado, daquela mesma corporação, revelou o que se segue:
— Sem dúvida — disse ele —, durante muitos anos, este homem se comportou devidamente. Mas, há vinte anos, durante uma expedição, ele cometeu um ato criminoso que eu — porque era seu companheiro naquela época — sei perfeitamente.
“Como o nosso general caçava no sopé do Monte Kao-t’ing, o meu camarada montou a nossa tenda à beira de uma estrada. À noitinha, uma jovem monja budista passou por ali. Aproveitando-se de que o local era deserto, o meu companheiro agarrou-a, arrastou-a para dentro da tenda e tentou estuprá-la. A monja resistiu energicamente e conseguiu escapar, mas sem as calças, já o agressor as tinha rasgado. Malgrado ele a tenha perseguido, a mulher conseguiu refugiar-se numa quinta. O meu camarada regressou muito desapontado.
“Na quinta, onde a monja se tinha refugiado, estavam apenas uma jovem mulher e o seu pequeno filho, já que o marido saíra para laborar. A princípio, a jovem não quis acolher a monja. Mas, quando esta lhe contou a sua aventura, implorando que a abrigasse durante a noite, a mulher, movida pela compaixão, concordou e emprestou-lhe uma muda de calças, que a monja prometeu trazer de volta, o mais tardar, no dia seguinte.
“Antes do amanhecer, a monja partiu.
“Nesse dia, o camponês, tendo chegado enlameado em casa, pediu à mulher uma muda de calças. Ela abriu o baú e encontrou apenas as suas próprias calças; a do marido tinha desaparecido. Percebeu, então, que tinha dado à monja, inadvertidamente, a calça do marido em vez das suas.
“Antes que ela pudesse pensar em algo para dizer ao marido, à guisa de desculpas, a criança gritou:
“— Foi o monge, que aqui passou a noite, que levou as calças.
“O lavrador aguçou os ouvidos.
“— O que você está dizendo? —perguntou o camponês à criança.
“— Ontem, à noite — disse o pequenino —, chegou um monge. A seu pedido, mamãe o abrigou durante a noite e lhe deu uma calça. O monge partiu antes do amanhecer.
“— Não era um monge! — protestou a mulher. —Era uma monja!
“O marido não acreditou nela. Lançou-lhe os piores insultos, espancou-a cruelmente e, depois, foi contar a todos os vizinhos a sua desgraça. Como o fato acontecera durante a noite, nada puderam dizer em defesa da mulher.
“Indignada com a afronta que lhe fora feita, a mulher enforcou-se. O marido depositou-lhe o cadáver num caixão. No dia seguinte, quando abriu a porta, a monja apareceu para agradecer a ajuda que recebera, devolvendo a calça emprestada e ofertando um cesto de bolos.
“Assim que a viu, a criança gritou:
“— Pai, o monge que passou aqui a noite voltou!
“O camponês entendeu o erro que cometera. Enlouquecido pela dor, matou a criança diante do esquife da mãe e, depois, enforcou-se.
“Para evitar o incômodo e as despesas de reportar o fato ao mandarim, os moradores enterraram toda a família — pai, mãe e filho —, não tendo sido, sobre o fato, realizado qualquer inquérito.
“No entanto, um ano depois, quando o nosso general foi novamente à caça, na mesma região, falaram-lhe do infortúnio causado por um dos seus homens. Sendo eu o único que sabia quem era o culpado, não o denunciei, mas exortei-o vivamente a regra-se. Ele, então, mudou de vida. Por fim, pensei que a sua boa conduta teria encoberto a sua má ação. Somente agora, passados vinte anos, o Céu atingiu-o. Há como escapar a ele.”
Versão em português de Paulo Soriano a partir da tradução ao francês de Léon Wieger (1858 – 1922).

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