A CASA DOS QUATRO ENFORCADOS - Conto Clássico de Mistério - Jacques Cézembre
A CASA DOS QUATRO ENFORCADOS
Jacques Cézembre
(1855 – 1949)
Tradução de autor anônimo do séc. XX
Nunca acreditei no sobrenatural e isto me desespera. Desejaria ser suficientemente dominado pelo atavismo de minha raça para ter fé, como todos os bretões em geral, nos contos de fadas, naqueles contos que se dizem em torno da lareira, no inverno, quando o vento ronda lá fora. Porém, se me privo de muitas emoções procurando explicar logicamente os fatos os mais estranhos na aparência, pelo menos tenho uma paixão por tudo que, à primeira vista, reveste um caráter maravilhoso.
Insisto neste ponto com o fim de fazer compreender melhor as razões que me fizeram partir para Oram há alguns anos. A Argélia não me atraía particularmente. Eu não conhecia Oran, não tinha ali amigos. A única causa da minha partida foi a fascinação que exercia sobre mim a “Casa dos Quatro Enforcados”.
Três anos antes, fora surpreendido que um bravo homem de minha família, meu tio à moda da Bretanha, vinha de morrer lá embaixo, legando-me sua habitação mais uma renda insignificante. Na verdade, era a um suicídio que eu devia entrar tão cedo na posse da herança. Meu tio enforcara-se no seu quarto e o seu único criado, um jovem judeu que passara a noite fora, com alguns amigos, descobriu de manhã o cadáver já frio.
Este fim trágico parece bizarro para um velho tranquilo que se declarava feliz. Além disto, certos detalhes singulares chamavam a atenção. Assim, numa gaveta aberta, faltava dinheiro. Foi o doméstico que assinalou o fato, e, aliás, não se podia suspeitá-lo por causa do álibi exato que ele invocava.
Meu tio, não tendo tido jamais embaraços, perdiam-se as conjecturas sobre os motivos do seu desespero. Os médicos verificaram também no seu corpo equimoses que os deixaram perplexos. Investigou-se, procurou-se; porém, o inquérito, não dando nenhum resultado, fez-se silêncio sobre o caso.
Neste momento, eu viajava pela América do Norte. Incumbi o notário de meu tio de alugar a casa e não me ocupei mais disto. Não teria mesmo dedicado a esta história um interesse senão relativo, sem os acontecimentos imprevistos que sobrevieram um ano mais tarde.
Apesar de um certo descrédito que pesava sobre ela, a casa fora alugada por um jovem casal espanhol, pouco supersticioso sem dúvida, e mais preocupado em abrigar sua lua de mel que dar crédito a crendices. E, quinze dias após, revolucionando a aldeia, semeando o terror e a loucura, propaga-se uma notícia horrível: a juvenil esposa, seu marido e sua criada foram encontrados enforcados na casa. Enforcados todos três, com cordas semelhantes à de que meu tio se servira…
Esta historia era tão surpreendente que a aldeia inteira fremiu. Compreende-se ainda um suicídio, porém três, na mesma casa, nas mesmas condições, eis aí o que ultrapassava o bom senso. Que razões aquelas pessoas recém-casadas, felizes, alegres, teriam para se matar? E aquela criadinha que sobe ao seu quarto para imitar os patrões.... Desta vez, não me contive. O mistério me apaixonava demasiado; queria ir estudá-lo “in-situ’ e, para isto, o melhor meio era morar na mesma casa. De resto, não devia esperar alugá-la ou vendê-la de agora em diante. Desta forma, um mês depois, desembarcava na curiosa cidade argelina. Nos cais de Senegal, o senhor Morny, o notário e antigo amigo de meu tio, me aguardava. Ele quis imediatamente me dissuadir de meu projeto.
— Residir nesta casa, mas meu caro senhor, seria de uma temeridade louca… Diz-se que estas quatro mortes violentas provêm de uma mesma causa… É uma triste herança que lhe coube esta… A casa deve encerrar um segredo terrível, pois que, descobrindo-o, estes quatro infelizes foram arrastados ao suicídio.
—É precisamente para conhecê-lo que estou aqui. Sou um amador de sensações fortes, porém não tenho absolutamente desejo de passar uma gravata de corda no pescoço. Vou, aliás, procurar um pedaço de corda que tenha servido aos meus predecessores... O senhor sabe que isto dá sorte.
O notário viu que eu pilheriava e levantou os braços, com um ar constrangido:
—Ah! O senhor não é supersticioso para um bretão!
Compreendeu que seus conselhos não abalavam minha decisão e, tendo-me instalado no hotel, pôs-se à minha disposição para me guiar.
A “Casa dos Quatro enforcados” na aparência não justificava seu sobrenome. De estilo semifrancês, semimourisco, ela dominava todo o porto neste quarteirão agradável, que se chama Jardim Weldeford. Dum lado, havia um edifício. Suas três outras faces davam para uma horta plantada de laranjeiras e de amendoeiras, muito pequena, porém de onde se descortinava uma vista esplêndida. O que me seduziu mais foi o pátio interior, um pátio árabe calçado de mármore com um tanque circular e um jato d’água. Que sestas deliciosas eu passaria ali e como seria tranquilo para trabalhar! Fiquei encantado de minha resolução.
Atravessando o quarteirão judeu, as ruas de Austerlitz e da Revolução — tão características, com as suas pequenas lojas de sapateiros, de bricabraque1, que se diriam tiradas dum conto das “Mil e Uma Noites”, suas quitandas de frutas, de legumes, que obstruíam a passagem —, eu fiquei fascinado. Este quadro me parecia bom para situar nele a ação dum romance. A história da “Casa dos Quatro Enforcados” talvez… Por que não? Até ali, ele se me afigurava bastante atraente e eu me prometia encontrar-lhe, cedo ou tarde, um enredo.
Tratei ativamente de minha instalação. Na cidade, notei bem depressa a viva curiosidade de que era objeto. Sabia-se que eu ia morar na “Casa Maldita” e muitas pessoas, suponho, me taxavam de maluco. Uma noite, passeava serenamente ao fresco, no terraço dum café do bulevar Seguin, importunado pelos mercadores de cartões-postais, de baunilha, de chinelos, de tapetes importados diretamente dá França… Um engraxate árabe prendeu minha atenção pela sua verbiagem divertida. Uma hora mais tarde, éramos os melhores amigos do mundo, e, no dia seguinte, após entendimento com seus pais, tomei-o ao meu serviço. Abdullah fez-se meu cicerone. Com ele, percorri a cidade negra, banhada de sol, cheia de árabes desdenhosos, de mercadores de amêndoas confeitadas, de mendigos cegos clamando sua infelicidade. Outras ocasiões, íamos às vielas tortuosas do país israelita. À passagem, ofereciam-se, aos nossos olhos, patamares estreitos de muros amarelos, azuis ou cor de carne. Distraía-me em contemplar os colóquios dos espanhóis trigueiros, dos marroquinos ornados de cobras, contando pelas calçadas as pilhas de moedas de cinco francos. As noites eram deliciosas, e árias de danças, crepitações de castanholas, acordes de guitarra subiam no ar puro, cobertos muita vez por uma canção de café-concerto, reminiscencia de uma turnê transitória, e de que a cidade se apoderava para repeti-la até a obsessão…
Terei necessidade de dizer que, uma vez instalado na casa dos enforcados, dormia muito bem? Abdoullah, a princípio, manifestou algum pavor, porém, por causa de minhas pilhérias, depressa acalmou-se e nossa existência estabeleceu-se regular, cheia de encanto e de tranquilidade.
Não sem pena, pude encontrar no quarteirão um bravo espanhol que aceitou, por um preço exorbitante, preparar minhas refeições e fazer a arrumação da casa, sob a condição expressa de partir ao cair da noite e de não ficar só nunca. Um árabe lento, vago parente de Abdoullah, foi encarregado do jardim. Ele se chamava Ahmed.
—Ahmed — disse-lhe eu uma manhã, mostrando-lhe a bacia do pátio vazia —, este esguicho não funciona?
Abdulah interveio:
—Meu pai (no primeiro dia ele me chamara “meu camarada”, mas, depois, me votou uma veneração de que eu me ria muita vez), meu pai, eu conheço o truque. Há um reservatório lá em cima.
Com efeito, observara, no alto do terraço, num canto, uma grande caixa blindada destinada à alimentação do jato d’água. Rapidamente, descobrimos no porão um poço estreito, que uma simples tampa de madeira fechava. Uma bomba aspiratória, fixada no muro, permitia encher o reservatório. Receando esgotar muito celeremente a fonte nesta estação seca, quis assegurar-me de sua capacidade. Medi, então, a profundidade d’água dentro do poço com uma sonda, antes e depois que Ahmed encheu o reservatório. A água baixou sensivelmente, porém, a uma experiência renovada, duas ou três vezes me fez constatar que o liquido subia sempre ao nível normal em vinte e quatro horas. O esguicho, não tendo um consumo enorme, prometi-me fazê-lo funcionar sempre.
Desde então, os meus dias decorreram serenos neste pequeno pátio mourisco, fresco e perfumado. Nas horas cálidas em que não podia errar pelas vielas em escada dos meus bairros favoritos, gozava um “doulce farniente”2 fumando meu narguilé, o espírito perdido muito longe, na filigrana de um desses romances idealizados, que se desdenha de anotar e que se crê excelente depois por o ter esquecido. No jato d’água irisado dançavam pérolas, e o seu murmúrio destalava uma mansa paz, sob as folhas imutáveis das palmeiras verdes.
Uma noite, depois do jantar, repousava ali, contemplando ascenderem-se no céu, uma a uma, as estrelas inumeráveis e cintilantes, quando um grande ruído, dentro de casa, tirou-me bruscamente do meu enlevo. Abdullah descera a escada correndo, e apareceu muito pálido, os olhos apavorados. Mal podia falar.
— Há pessoas que se matam lá em cima… Na chaminé… Venha… venha…
Não compreendi nada, senão que um drama se desenrolava na residência. Imediatamente, segui o menino. Tranquilizado em parte pela minha presença, Abdullah subiu de quatro em quatro degraus. Chegou ao terraço que estava deserto e me arrastou perto da embocadura da chaminé. Esta se elevava apenas alguns centímetros acima do muro. O pequeno árabe mostrou-me o buraco negro de fumaça, disse-me:
— Escute!
Apurei o ouvido durante um longo momento. Nenhuma voz, nenhum barulho.
— Vejamos — disse eu. — É uma brincadeira. Não ouço nada absolutamente. Que é que pôde aterrar-te tão fortemente?
— Não é uma brincadeira — respondeu ele obstinadamente. — Não é uma brincadeira. Ah! Havia homens na chaminé. Eles gritavam como um boi. Havia uma briga aí dentro. Não é uma brincadeira.
Acabei por compreender que ele acreditava ter escutado uma luta, gritos dilacerantes, chamados. Era de tal forma inverossímil que imputei seu terror a uma alucinação. Para convencê-lo do seu equívoco, fiz uma inspeção minuciosa em toda casa. Como esperava, aliás, não descobri nada. Mas o pequeno árabe não largava a sua ideia:
— Não é brincadeira.
Esta história buliu com a minha cabeça. Em qualquer outro lugar, não lhe teria ligado importância; porém, poderia na verdade negligenciá-la nesta casa estranha que diziam assombrada, e onde dramas bem misteriosos tinham-se desenrolado?
Na manhã do dia seguinte, subi ao terraço e inspecionei de novo a chaminé. Era esta um bueiro retangular, aberto na muralha e demasiado estreito para dar passagem ao corpo de um homem. Súbito, veio-me um trago de luz. Esta chaminé não pertencia à minha morada. Como todas as outras, ela se elevava no muro comum que separava minha casa da do vizinho e era desta precisamente que ela provinha.
Em suma, a aventura não me trazia nenhuma novidade sobre o mistério de minha habitação. Admitindo que Abdoullah tivesse ouvido mesmo alguma coisa, os gritos partiam, sem dúvida, da residência contígua de José Barriga. Aliás, vislumbrei o espanhol sentado pacificamente no seu jardim, como alguém a quem nenhuma emoção há muito tempo perturba. Então, Abdulah sonhara! Muita vez, é mau acreditar em aparições; entretanto, sem o conhecer, instintivamente, não gostava desse Barriga. Ele vivia solitário, recebia raras visitas, ocupando-se de negócios mal definidos. Sua face comprida, barbeada, queimada pelo sol, enquadrava-se de suíças negras e curtas. Seus olhos fugiam quando fitados de frente, e eu o julgava contrabandista, ou salteador dos grandes caminhos da Serra Morena. Versões circulavam a seu respeito. Dizia-se, entre dois sorrisos convencionais, que ele tinha boas razões para não regressar ao seu país, sendo as calçadas de Cartagena muito quentes para as suas pegadas, e que o rei de Espanha mantinha demasiados gendarmes, raça que José Barriga não amava absolutamente... De fato, eu não tinha nenhum motivo para me imiscuir na vida daquele espanhol. Que seu passado fosse negro, que ele disputasse e brigasse com com as poucas pessoas que às vezes lhe batiam à porta, isto não me interessava.
No dia seguinte, passando pela rua de Malta, encontrei o senhor Morny. Ele tinha uma fisionomia espantada.
— Então, então, meu amigo, que é que acontece? Vi Abdulah ainda agora; ele me contou o misterioso acontecimento de ontem de noite. Espero que tenha prevenido a polícia.
Dei uma gargalhada, sem constrangimento. Ele pareceu incomodar-se.
—Abdulah é um tolo — disse eu — por ter atemorizado o senhor com esta história.
—No entanto, esses gritos, esses chamados desesperados?
— “Isto não é uma brincadeira” — assegurei, divertindo-me em imitar o pequeno árabe. —Porém, foi na casa do meu vizinho que gritaram. É preciso não exagerar, A a não ser assim, antes de dois meses, por causa do latido de um cão, ou dos berros dum ébrio noturno, verei toda a população agrupar-se diante de minha casa, de minha pobre casa maldita.
Expliquei com detalhes ao senhor Morny o resultado das minhas observações da véspera. No entanto, ele abalava a cabeça.
—Ah, não estou tranquilo, meu bom amigo! O senhor é de uma temeridade que choca. O seu pobre tio, que a idade tornara prudente até o ridículo, morreu em trágicas circunstâncias.
—Meu tio não tinha, decerto, revólver à sua cabeceira à noite.
Mas o notário se obstinava:
—Isto acabará mal, creia-me, meu amigo.
E foi-se sacudindo a cabeça, com aspecto apreensivo. Não são muito guerreiros esses tabeliães! É verdade que a vida de escritório não incita à caça de aventuras... Eu, pelo contrario, só desejava uma coisa: que o espirito maligno ligado à minha casa se manifestasse uma vez mais. Homem ou fantasma, desejaria ver este conselheiro de enforcamentos. Sem vaidade, gosta-se de acolher uma visita semelhante quando se tem um revólver na mão, quando não se acredita no sobrenatural e quando se tomou gosto pelos estremecimentos do perigo nas grandes estepes do Canadá. E, depois, nesta expectativa inútil, longa já de várias semanas, a ação do meu romance não marchava. Tinha um cenário muito interessante: esta Argélia tostada pelo sol, com seu solo vermelho às margens do mar azul, seus edifícios brancos, baixos, esmagados sob o céu puro, imutável, sua população heteróclita, plena de contrastes, alegre ou grave, alva, bronzeada, negra, onde as épocas mesmo se acotovelam, se chocam debaixo do albornoz, tudo isto que podia dar um relevo maravilhoso ao trama bem desenrolado de um drama. Tinha também o assunto do romance. Esta enigmática habitação, cujas paredes sugeriam a morte, era um bom tema, muito bom mesmo; mas a chave do mistério? Esperaria eu a visita problemática do espírito assassino para combinar o desenvolvimento? Arriscava-me a esperar muito tempo... Por outro lado, minha imaginação achava-se presa por esse concorrente desconhecido, que podia mais do que ela, e, para dizer tudo, não criaria nada melhor. O enervamento me impedia de trabalhar. Sentia confusamente que, se nada de novo sobreviesse, se a minha existência continuasse a correr placidamente, uma curiosidade febril, doentia, me empolgaria, obrigando-me selvagemente à descoberta do mistério da casa maldita. Não seria, porém, demasiado tarde? Poderia experimentar, a meu turno, o horror que os outros deveriam ter experimentado? E, remoendo estas ideias na cabeça, chegava sempre a este ponto preciso, onde estacava meu raciocínio:
— Por que, por que a minha casa e não outra das que a rodeiam? Vislumbrava bem que a causa não deva ser procurada na personalidade dos moradores, mas numa particularidade da casa mesma. Ah, parava a minha lógica, numa grande interrogação! Oh, este X desconhecido a resolver quanto o procurei, lá fora passeando! À mesa, conversando comigo próprio, até parecer duma distração que frisava pela loucura. À noite, no curso de minhas insônias, no pátio límpido, cheguei a desejar, com todas as forças, aparecessem silhuetas brancas de fantasmas... Desde o incidente da chaminé, Rosita, minha cozinheira, Ahmed e Abdulah se abanavam reciprocamente a cabeça. Foi-me necessário aumentar-lhes os ordenados, sob pena de vê-los partir. O crepúsculo redobrava o seu terror. Por nada no mundo teriam ficado na casa na minha ausência. O pequeno árabe era o único, alias, que morava comigo. Ele dormia sobre uma esteira através da minha porta e tomava muito cuidado, cada noite, de colocar meu revolver ao alcance de minha mão.
Consultando as notas que escrevia dia a dia, nesse tempo, para o meu romance sobre a “Casa dos Quatro Enforcados”, verifico que várias semanas se escoaram sem que sucedesse o menor fato novo. Desesperava-me por não conhecer a chave do enigma. Minhas notas referem unicamente às impressões que recolhi na cidade negra, em companhia de Abdulah. Frequentei assiduamente um café mantido por uma velha mourisca, muito rica, chamada Alouma, cuja conversação me interessava enormemente. Enquanto bebíamos chá, os dançarinos mouros, muito jovens, de faces pintadas de tatuagens azuis, de gorros cônicos sobrecarregados de sequins dourados, executavam danças lentas, ao ritmo dum pífano agudo. De longe em longe, alguns europeus de passagem iam lá por curiosidade.
Minha velha amiga Alouma, tendo-me presenteado com um pequeno pedaço de couro de serpente, que tinha virtudes protetoras, Abdoullah tornara-se valente… Aliás, não havia muito nisto, pois que há vários meses que ele habitava comigo na casa maldita, e nenhum acontecimento grave trouxera perturbações à nossa existência.
Foi por esta época que tive ocasião de fazer uma viagem a Marrocos. Decidira levar Abdoullah e os nossos preparativos realizaram-se depressa. Na véspera da partida, eu lia no pátio, quando observei que o jato d’água enfraquecia visivelmente. Ordenei ao jardineiro enchesse o reservatório. O calor nesse dia, lembro-me, era asfixiante. Estava fatigado e, no dia seguinte, muito cedo, embarcaríamos para Tânger.
Deitei-me às primeiras horas da noite. Dormia profundamente, num sono sem sonhos, quando um grande choque me despertou bruscamente. Levantei-me espantado, sem memória. Abdoullah pegava-me no braço e com a outra mão estendia-me o revolver. Ele murmurou, em voz rouca:
— Venha, venha… Há barulho lá embaixo…
Não demorei em readquirir a lucidez. Em menos de três minutos, lâmpada acesa, descia a escada. O garoto, seguindo-me, tremia como uma folha, porém afirmava energicamente haver ouvido “fechar brutalmente uma porta”. Isto parecia bem estranho por parte de um ser imaterial introduzindo-se à meia-noite numa casa habitada. Não importa! É preciso ver… A sala de jantar, o salão, a cozinha… Nada… Íamos rapidamente, inspecionando tudo, olhando para baixo dos móveis, levantando as cortinas… Nada… Depois, o porão. Alcançava-se este por uma escada interior. Desci por um desencargo de consciência. Naturalmente, a casa estava vazia.
— Meu pobre Abdoullah, tu não tens sorte decididamente, e desta vez podes ver que é uma ilusão.
O menino protestava, desconcertado, perguntando-se, sem dúvida, se não fora vítima de um pesadelo.
Passando diante da adega, e onde eu estivera naquela tarde mesmo, dei duas voltas à chave, que sempre deixava na fechadura. Tínhamos o costume de fechar os ferrolhos e pôr as trancas de segurança em todas as portas. Abdoullah tremia ainda. Eu sentia que, depois desse falso alarme, não poderia dormir mais. Instalei-me no pátio, esperando o dia, enquanto Abdullah preparava uma xícara de café árabe. Ali permanecemos até a aurora, contando-nos histórias. Algumas horas mais tarde, a bordo do pequeno vapor que nos conduzia a Tânger, passávamos pela baía de Meros-el-Keblr, e, sobre Ojebel-Mourdjadjo, dominando Oran, o minúsculo perfil de Nossa Senhora de Santa Cruz atenuava-se, em seguida desaparecia no céu branco e ensolarado.
Permaneci pouco mais de seis semanas em Marrocos com Abdullah. Nada de extraordinário marcou nossa estadia ali, à parte minha aventura com as hienas, que narrarei talvez algum dia. Embarcamos novamente e, por uma fresca manhã de novembro, subimos o Jardim Weldsford. Uma vizinha de idade, que saudei de passagem, abordou-me com um ar misterioso. Era uma mulher espanhola, morena e enrugada, com um lenço de seda preta amarrado na testa.
— Que é que há, senhora? Parece-me muito comovida.
— Ah, por Nossa Senhora! O senhor não sabe a novidade… José Barriga, seu vizinho, desapareceu. Pensou-se achá-lo morto em casa e varejaram esta por todos os lados e nada, absolutamente nada.
Fiquei surpreendido. Como Barriga, aquele robusto sujeito, também ele…
—Vejamos, desde quando desapareceu?
—Ah! Desde dois meses, desde a sua partida, senhor.
Alcancei minha residência, pensativo, e a primeira coisa que fez Abdoullah, entrando, foi abrir as portas e as janelas para arejar. Enquanto abria minhas malas no quarto, senti um insuportável cheiro. Desci, intrigado. No vestíbulo, Abdoullah, o aspecto inquieto, rondava em torno de mim.
— Que horror! Que é isto?
O cheiro vinha do porão, não havia dúvida. Uma corrente de ar espalhava-o agora por todo o edifício. Era o bafio inominável, penetrante, dos cadáveres em decomposição, era o cheiro da morte.
Tomei uma luz e me aventurei pelo porão, com lenço no nariz. Não vi nada e, no entanto, quase desmaiei naquele ambiente envenenado, tão forte era a horrível emanação. Pensei, então, na pequena adega. A chave estava ainda na fechadura. Abri a porta e a minha luz iluminou o chão. Recuei, horrorizado. Um corpo jazia em repugnante estado de putrefação no solo úmido. Não tive necessidade dum longo exame para reconhecer Barriga, meu vizinho. Subi às pressas, apavorado e, enquanto Abdoullah corria a prevenir à polícia, tentei em vão em restabelecer uma correlação entre todas estas mortes. O mistério se embrulhava cada vez mais. Não somente era perigoso morar na casa dos enforcados, como já se introduziam nela estranhos para morrer… Como e por que Barriga entrara ali? Diante da brutalidade do fato inexplicável, vi fugirem de mim todo sangue-frio e toda a lógica.
A notícia divulgou-se celeremente. Quando o comissário chegou, teve de romper uma multidão compacta, aglomerada na rua. O desparecimento do espanhol, por causa, sobretudo, da proximidade da casa maldita, intrigara profundamente a população. Porém, quando se soube que eu o encontrara morto na adega, foi como uma revolução na via pública. Os jornais publicaram uma edição especial, com títulos altos de dez centímetros: “Um novo enforcado na Casa Maldita”. Apresentavam hipótese as mais absurdas, como sucede em tais casos. E, para começar, Barriga não se enforcara. À primeira investigação, o médico legista afirmou, muito impressionado:
— Senhores, este homem morreu de inanição. Seu fim foi atroz. Vejam, ele mordeu os próprios punhos.
Eu não podia acreditar no que ouvia… Um enforcamento, a fome… Onde terminaria isto? De súbito, uma reminiscência me assaltou o espírito. Contei como, na noite que precedeu minha partida, Abdoullah, supondo escutar fechar uma porta lá embaixo, me despertara. Talvez naquele momento o espanhol tivesse penetrado na casa… Lembrava-me também de ter dado volta à chave, um instante depois.
— É isto — diz o juiz de instrução, apressado em concluir, porque o cheiro o incomodava —, o senhor encarcerou-o sem saber. Ele deve ter gritado espantosamente, depois de sua partida, mas ninguém podia ouvi-lo.
— E como explica que, não podendo sair para salvar a vida, ele tivesse entrado em minha casa através das paredes, sem deixar vestígios.
Isto o juiz não explicava de maneira alguma. Não explicaria jamais, porque um mês após, o inquérito não dando resultado, o caso foi julgado como os dois anteriores.
As ofertas mais sedutoras não conseguiram reter Abdoullah, Ahmed e Rosita. Ninguém quis substituí-los, salvo para vir em pleno dia, a preços absurdos, pôr um pouco de ordem na residência. Minha existência tornava-se insuportável. De toda a parte, incitavam-me a deixar a habitação fatal. Porém, eu queria decifrar o enigma, eu o decifraria ou perderia meu nome. O notário Morny, de tempos em tempos, pretendia chamar-me à razão.
— Meu amigo, isto é ir ao encontro da morte. O senhor não é mais hábil do que a polícia. Sherlock Holmes, ele mesmo, fracassaria…
Como rir duma ameaça de cuja natureza não se suspeita? Isto não ultrapassa a imaginação… É verdade… Num dos bolsos de Barriga havia uma corda nova, uma corda semelhante à dos quatro primeiros enforcados. Eu me dizia:
—Preciso dum desenlace para meu romance, e, fosse esta casa habitada pelo Diabo, não a abandonaria, senão pela porta secreta, porque existe uma porta secreta, aquela por onde Barriga penetrou…
Havia também um detalhe que se negligenciou. Porque o espanhol, ouvindo-me fechar a porta da adega, não disse nada? Certo, os seus motivos eram bem graves, pois que ele arriscava-se à sorte que teve, afinal…
Um dia, no porão, suspendi, não sei por que razão, a tampa do poço. Debrucei-me sobre o orifício e o meu relógio, que nenhuma corrente pendia, caiu dentro d’água. Era uma recordação de minha mãe e uma joia de valor, que eu estimava enormemente. Não havia senão um recurso para reavê-lo: esvaziar o poço. Chamei para esse trabalho um pobre judeu que dormia no passeio. Pela tarde, o poço estava quase seco. O homem, depois de longa procura, achou, enfim, fim o relógio. Quando ele subia, escalando uma corda, soltou uma exclamação de surpresa:
— Há um grande buraco no muro!
Muito intrigado, desci também. Com uma profunda estupefacção, verifiquei a existência, na parede do poço, duma abertura, por onde entrei imediatamente. Com uma luz, esclareci um corredor estreito, por onde penetrei rastejando. Bem depressa, apareciam uns degraus de pedra. Compreendi. Esta passagem secreta, feita sob a parede comum, conduzia à casa de Barriga. Que o espanhol a tivesse ele mesmo praticado, sobre isto não tenho dúvida, agora que, o véu se rasgando, vislumbro tudo claramente. A água do poço, no seu nível normal, dissimulava o subterrâneo, porém, quando se enchia o reservatório — Barriga o saía pelo fundo da bomba —, a passagem tornava-se praticável por uma vintena de horas. Então, estivessem fechadas as portas e janelas, o bandido podia penetrar na residência de meu tio e aí consumar seus delitos. Este homem possuía o gênio do crime. Após ter estrangulado suas vítimas, ele as enforcava, e a imaginação popular fazia o resto. Assim se formou a lenda da “Casa dos Quatro enforcados”.
Desde a descoberta do espanhol em meu porão, eu suspeitara do seu papel. Evidentemente, suas intenções não eram benévolas. E, no presente, tudo tudo concordava, como depois, ao arranjo de um jogo de paciência. Na espera de minha partida para Tânger, Ahmed havia enchido o reservatório. De noite, Abdoullah dera o alarma. Sem dúvida, o ruído duma porta fechada ouvido pelo menino fora o da tampa do poço caindo das mãos do miserável. Percebendo minha descida, ele se ocultou na adega, onde o encerrei por acaso. Certamente, pensava ele arrombar a porta, após minha partida, porém a porta era espessa, sólida, e não cedeu. Quanto à corda encontrada no seu bolso, evidentemente me era destinada. Para acentuar o carácter sobrenatural dos seus delitos, o espanhol empregava metodicamente o mesmo processo.
As constatações policiais confirmaram minha descoberta. A entrada do subterrâneo, cuidadosamente disfarçada, escapara às investigações, mas, depois, no jardim da morada de Barriga, enterrados sob as flores, encontraram-se dois esqueletos e um corpo recentemente sepultado. Lembrei-me dos gritos que Abdulah escutara na chaminé. Com certeza, naquela noite, o bandido matou alguém. Ele assassinava para roubar os imprudentes que caíam nas suas emboscadas. Tudo isto se afigurava tão simples, uma vez a explicação achada, que experimentei uma grande desilusão. Eh! Então nada era complicado, nada era maravilhoso… Cheguei a lamentar minhas emoções, meus vagos receios. Depois de tantas hipóteses, tantas indagações, tantas suposições loucas, o desfecho era chão, banal. E eis porque, deixando meu romance inacabado no fundo da gaveta, bem depressa aborreci aquela vida e parti de Oran, logo em seguida.
O interesse palpitante, impressionante, do mistério tinha-me proporcionado horas inolvidáveis e, por haver descoberto a verdade, que sempre sai dum poço, a vida parecia-me insípida e monótona. Porém, não fui o único a sofrer a hipinose do estranho e do sobrenatural, pois que, apesar do tempo decorrido e de desfeita a lenda, em Oran, só se chama à minha casa, sempre para vender, a “Casa dos Quatro Enforcados…”
Fonte: “A.B.C.”/RJ, edição de 27 de setembro de 1924.
Fizeram-se breves adaptações textuais.
Ilustração: PS/Copilot.
Notas:
1 Pequenos objetos decorativos, de arte ou artesanato, de épocas e origens diversas, geralmente de valor modesto, como antiguidades, bijuterias, miniaturas, e porcelanas.
2 Em italiano, no original. O termo significa “a doçura de nada fazer”, representando o desfrute da ociosidade.

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