A ECHARPE VERMELHA - Conto Clássico de Mistério - Maurice Leblanc

A ECHARPE VERMELHA

Maurice Leblanc

Tradução de autor anônimo do séc. XX


Naquela manhã, saindo de casa à hora de costume, a caminho do Palácio de Justiça, o inspetor principal Ganimard percebeu o manejo assaz curioso de um indivíduo que caminhava à sua frente: de cinquenta em cinquenta passos, esse homem, pobremente vestido, abaixava-se ou para amarrar os cordões dos sapatos, ou para apanhar a bengala que deixara cair, ou por qualquer outra razão. E, de cada vez, tirava do bolso e colocava furtivamente à beira da calçada um pedacinho de casca de laranja. Ganimard, cujo espírito de observação nada deixava passar, pôs-se a seguir o indivíduo.

Ora, na ocasião em que esse dobrou uma esquina, o inspetor surpreendeu-o trocando sinais com um menino de uns doze anos, que caminhava do lado esquerdo da rua, ao longo das casas. Daí por diante, toda vez que o homem se abaixava sob qualquer pretexto, o garoto assinalava com uma cruz de giz a casa defronte da qual se encontrava naquele momento.

Ganimard seguia-os avidamente, achando que aqueles dois “clientes” prometiam qualquer coisa de interessante. Seguiu-se uma longa caminhada sem fatos dignos de nota, a não ser esse manejo sempre repetido, que provocava as cruzes de giz em algumas casas, sem dúvida previamente escolhidas.

Na praça Beauvau o homem hesitou; depois, parecendo tomar uma decisão, abaixou-se e dobrou duas vezes a perna da calça, desdobrando-a logo em seguida. Então o garoto sentou-se na calçada, em frente à sentinela do Ministério do Interior, e marcou com duas pequenas cruzes rodeadas de dois círculos a pedra do chão. Diante do palácio da Presidência, a mesma cerimônia, com a diferença, apenas, de que foram postos três sinais, em vez de dois.

Que quererá dizer isso? — murmurou Ganimard, pálido de emoção e pensando, sem querer, em seu eterno inimigo Lupin, como o fazia sempre que circunstâncias misteriosas se apresentavam em seu caminho.

Pouco depois, o homem das cascas de laranja acendeu um cigarro e o menino aproximou-se para pedir fogo; trocaram algumas palavras, em voz baixa, e o garoto, rapidamente, estendeu ao homem um objeto com a forma de um revólver. Ambos curvaram-se sobre esse objeto e seis vezes o homem, virado para a parede, levou a mão ao bolso e fez o gesto de carregar uma arma. Logo depois disso, voltaram, tomaram a mesma rua por onde haviam caminhado, e o inspetor, que os seguia a pequena distância, os viu entrar no portão de uma velha casa, cujas janelas estavam fechadas, exceto as do terceiro e último andar.

Precipitou-se ao encalço deles e viu, ao fundo de um grande pátio, a placa de um pintor de prédios e, à esquerda, a salinha da escada. Subiu sem hesitar, aumentando a rapidez no primeiro andar, porque ouvia, bem para cima, um barulho como se estivessem desferindo golpes.

Chegando ao último pavimento, a porta estava aberta; entrou, apurou o ouvido, pressentiu o barulho de uma luta, correu nessa direção e parou bruscamente na soleira da porta, estupefato, arquejante, porque viu o menino e o homem das cascas de laranja dando pancadas com cadeiras no soalho.

Nesse momento, surgiu um terceiro personagem — um homem jovem, de vinte e oito a trinta anos, de costeletas curtas, óculos e um casaco curto forrado de astracã, com o aspecto de um estrangeiro.

Esse homem disse:

Bom dia, Ganimard. E vocês, meus amigos, recebam meus cumprimentos pelo bom desempenho da incumbência que lhes dei e queiram aceitar esta lembrancinha.

Estendeu-lhes duas notas, despediu-os e, voltando-se para Ganimard, disse:

Desculpa, meu velho, mas tinha absoluta necessidade de falar-te. Necessidade urgentíssima.

Como o inspetor permanecia imóvel, com o rosto desfigurado pela cólera, sem ter sequer consentido em apertar-lhe a mão, continuou o estranho personagem:

Pareces não compreender. Precisava muito ver-te e, então, não é…. Se eu te tivesse escrito ou telefonado, não terias vindo, ou antes, virias mas acompanhado de um regimento. Ora, queria ver-te a sós; então pensei que bastava enviar esses dois bons amigos ao teu encontro, com ordem de semearem cascas de laranja, desenhar cruzes, círculos, enfim, mostrar-te o caminho daqui. Então, que tens? Pareces mumificado. Não me reconheceu? Sou eu, Lupin, Arsène Lupin. Procura bem na tua memória. . . Esse nome não te recorda alguma coisa?

Animal! — mastigou Ganimard, entre dentes.

Lupin simulou desolação e disse, em tom afetuoso:

Estás zangado? Estás, estás, vejo-o nos teus olhos. Por causa do caso Dugrival, não é? Eu devia ter esperado que viesses prender-me; mas não me ocorreu esta ideia. Deixa estar que de outra vez…

Canalha! — murmurou Ganimard, surdamente.

E eu que pensava agradar-te! Pensei cá comigo: “Estou com saudades desse bom Ganimard; há já muito tempo que não nos vemos. Ele vai saltar-me ao pescoço”.

Ganimard, que não se movera ainda, pareceu sair de seu letargo. Olhou em volta, olhou Lupin, com o desejo evidente de “saltar-lhe ao pescoço”; depois, dominando-se, puxou uma cadeira, sentou-se, decidido a ouvir o adversário.

Fala. Nada de conversa fiada. Estou com muita pressa.

É isso mesmo. Conversemos neste lugar tranquilo. É uma velha residência do interior, pertencente ao duque de Rochelaure, que me alugou este andar e consentiu que um pintor se instalasse no térreo. Tenho alguns refúgios idênticos, muito práticos. Aqui, apesar de minha a aparência de grão-senhor russo, sou Jean Daubreuil, antigo ministro.

Que me importa tudo isto?

É verdade, estou divagando e tens pressa. Desculpa-me; serei breve: basta que saibas que hoje, cerca de uma hora da manhã, um barqueiro, que passava sob o último arco da Ponte Nova, à margem esquerda, ouviu cair, na frente da barca, uma coisa que haviam jogado de cima da ponte e que se destinava, visivelmente, às profundezas do Sena. Seu cão precipitou-se latindo e, quando o barqueiro chegou à extremidade da embarcação, viu que o animal sacudia na boca um pedaço de jornal, que servira para embrulhar diversos objetos. Recolheu aqueles que não haviam caído n'água, entrou na cabine, examinou-os. Como esse exame lhe pareceu interessante, e como esse homem entretém relações com um dos meus amigos, mandou-me avisar. Eis os objetos.

Mostrou-os, arrumados na mesa. Havia um fragmento de jornal, um pesado tinteiro de cristal, a cuja tampa estava atado um comprido pedaço de corda, um pequeno caco de vidro, uma espécie de papelão flexível reduzido a pedaços; por fim, um pedaço de seda vermelho vivo, terminado por uma borla da mesma fazenda e da mesma cor.

Ganimard não pestanejou. Consentia em tolerar a tagarelice de Lupin, mas sua dignidade interdizia-lhe responder palavra sequer, nem mesmo por um movimento de cabeça, que pudesse parecer aprovação ou crítica.

Apesar das provas serem bem poucas, resumirei, num momento, a história tal como é contada por elas. Ontem à noite, entre nove e da noite, uma moça de maneiras excêntricas foi ferida a punhaladas e depois estrangulada por um senhor bem-vestido, usando monóculo, apreciador de corridas de cavalos, em companhia do qual a referida moça acabara de três comer três merengues1 e um ecler2.

Lupin acendeu um cigarro e, segurando a manga de Canimard, disse:

Confessa que estás abismado, inspetor. Pensavas que, no domínio deduções policiais, tais façanhas eram proibidas aos profanos. Erraste. O senhor Lupin é o malabarista das suposições, como um detective de romance. Minhas provas? Claras e infantis: ontem à noite, depois de nove horas (este fragmento de jornal traz a data de ontem e a menção “jornal da tarde”; além disso, podes ver, colada ao papel, uma parcela dessas cintas amarelas que servem para envolver os números dos assinantes, números esses que só chegam a domicílio na expedição de 9 horas); portanto, depois de 9, um senhor bem-vestido (podes ver que esse caquinho de vidro tem, numa das bordas, o orifício redondo de um monóculo e que o monóculo é utensílio essencialmente aristocrático), um senhor bem-vestido entrou numa confeitaria” (esse papelão muito fino, em forma de caixa, onde se vê ainda um pouco de creme dos merengues e do ecler que aí foram arrumados, como é costume). Com um embrulho, esse senhor da alta sociedade encontrou-se com uma moça, cujos hábitos excêntricos são denunciados por essa echarpe de seda vermelha. Por motivos ainda desconhecidos, feriu-a primeiro a punhaladas, depois estrangulou-a com o auxílio dessa echarpe (pega tua lente, inspetor principal, e verás, na seda, marcas de um vermelho mais escuro, que são aqui as marcas de uma faca que enxugaram e aqui as de uma mão ensanguentada que se agarra à fazenda). Depois do crime cometido e para não deixar nenhum vestígio, tira do bolso: — 1.°) o jornal do qual é assinante e que é um jornal de turfe, cujo título te será fácil identificar; — 2º) uma corda de chicote (esses dois detalhes provam que nosso homem se interessa por corridas e, ele próprio, lida com cavalos). Depois, recolhe os destroços de seu monóculo, cujo cordão se partiu durante a luta. Corta com tesoura (examina os golpes da tesoura) a parte manchada da echarpe, deixando a outra, sem dúvida, nas mãos crispadas da vítima. Faz uma bola com o papelão da confeitaria, junta também certos objetos comprometedores, destinado a afundar no Sena, e amarra, para fazer peso, o tinteiro de cristal. Depois, dá o fora. Pouco mais tarde, o embrulho cai na embarcação do pecador e aí está a história. Uf! Estou até com calor! Que dizes da aventura?

Ganimard continuou mudo. Lupin pôs-se a rir:

No íntimo, desconfias. “Por que esse diabo de Lupin me entrega o caso, em vez de guardá-lo para si, correr atrás do assassino, e despojá-lo por sua vez, se houve roubo?”. A pergunta é lógica. Mas… Há um “mas”: é que não tenho tempo, estou sobrecarregado de trabalho — um roubo em Londres, outro em Lausanne, uma substituição de criança em Marselha, salvamento de uma moça ameaçada de morte, tudo me pesa ao mesmo sobre os ombros. Então pensei: “E se entregar o caso a Ganimard? Agora, que está tudo semirresolvido, ele será bem capaz de vencer. E que serviço lhe presto! Como ele vai poder distinguir-se!”. Assim dito, assim feito. Às oito horas da manhã, despachava-te o sujeito das laranjas, mordias na isca, chegavas, todo saltitante.

Lupin fez um pausa, e continuou:

A história está acabada. Dentro em pouco conhecerás a vítima — alguma dançarina de balé, talvez alguma cantora de café-concerto. Há também probabilidades de que o culpado more nas cercanias da Ponte Nova, provavelmente à margem esquerda. Enfim, aqui estão todas as peças, que eu as dou de presente. Trabalha. Quanto a mim, conservo apenas este pedaço de echarpe. Se tiveres necessidade de reconstituí-la, traze-me aqui o pedaço, aquele que a justiça encontrará no pescoço da morta. Traze-o dentro de um mês exato, isto é, a 28 de dezembro próximo, às dez horas. Podes ter certeza de me encontrar e não tenhas receio, tudo isto é sério, bom amigo, eu te juro. Podes tocar para a frente. Ah! Ia-me esquecendo de um detalhe importante: quando prenderes o sujeito do monóculo, cuidado: ele é canhoto. Adeus, meu velho, e boa sorte!

Lupin desapareceu antes que Ganimard pensasse em tomar uma decisão. Quando ele desceu os três andares, não havia nem sinal de Lupin.

Esse homem inspirava-lhe um sentimento complexo, composto de medo, raiva, não voluntaria admiração e a intuição confusa de que jamais venceria tal adversário. Perseguia-o por dever e amor-próprio, mas com o contínuo receio de ser enganado por esse temível mistificador, e ridicularizado diante de um público sempre pronto a rir de suas desventuras.

Essa história da echarpe parecia-lhe bem equívoca. Era interessante, mas muito inverossímil. E a explicação de Lupin — tão lógica na aparência — não resistia a um exame severo.


*


Quando chegou ao Palácio da Justiça, estava absolutamente resolvido a considerar o incidente como nulo e sem efeito. Subiu ao departamento de Segurança e um dos seus colegas disse-lhe:

Estiveste com o chefe?

Não.

Ainda agora estava perguntando por ti.

É?

É. Vai encontrá-lo na rua de Berne. Trata-se de um assassinato.

E a vítima?

Não estou muito certo… Uma cantora de café-concerto, parece.



*


A vítima, conhecida no meio teatral por Jenny Safira, habitava um modesto apartamento, onde, à chegada de Ganimard, já se encontravam os magistrados encarregados do inquérito, assim como o chefe de segurança, Sr. Dudouis, e o médico legista.

Ao primeiro olhar, Ganimard estremeceu: vira, deitado num divã, o cadáver de uma mulher jovem, cujas mãos se crispavam num pedaço de seda vermelha! O busto, visível pelo decote do corpete, tinha dois ferimentos, em cujas bordas o sangue coagulara. O rosto, convulso, quase negro, conservava uma expressão de pavor louco. Feito o exame, ficou provado que levara duas punhaladas, mas que a morte fora proveniente de asfixia.

E o motivo do crime? Das declarações da empregada, formara-se a seguinte hipótese: a vítima, cujo mérito como cantora era medíocre, mas que era conhecida pela sua beleza, fizera uma viagem à Rússia, donde voltara com uma safira magnífica, que lhe fora dada, parece, por um personagem da corte. Jenny Safira, como era chamada desde então, orgulhava-se desse presente, embora, por prudência, não o usasse. Não seria de supor que o roubo da safira fosse a causa do crime? Ninguém conhecia o lugar onde era guardada a pedra e a desordem do quarto parecia provar que o assassino o ignorava também.

O Sr. Dudouis chamou de lado o inspetor principal e perguntou-lhe:

Você tem uma expressão esquisita, Ganimard. Será que desconfia de alguém?

Não, chefe.

É pena! Muitos crimes desse gênero têm sido perpetrados ultimamente sem que se venha a conhecer o autor. Desta vez, precisamos descobrir o culpado, e rapidamente.

É difícil, chefe.

Mas é preciso. Ouça, Ganimard. Segundo a empregada, Jenny Safira, que tinha uma vida muito regular, recebia com frequência, há um mês, quando voltava do teatro — quer dizer, cerca de dez e meia — um indivíduo que ficava mais ou menos até meia-noite. Jenny dizia que era um homem da alta sociedade e queria desposá-la. Esse homem de sociedade, aliás, tomava todas as precauções para não ser visto, levantando a gola do casaco e descendo as abas do chapéu quando passava diante da portaria. E Jenny Safira, antes que ele chegasse, dava sempre folga à empregada. É esse homem que precisamos encontrar.

Saindo dali, Ganimard jurou que não empregaria um só dos elementos que Lupin lhe fornecera para a elucidação do crime. Porém, à noitinha, quando errava ao acaso pelas ruas, sem poder desprender o pensamento da clarividência quase sobrenatural de Lupin, surpreendeu-se diante da casa aonde fora atraído de manhã.

Sem resistir mais, subiu, foi ao terceiro andar, e lá encontrou peças de prova. Embolsou-as e voltou. Desde então, raciocinou e agiu mecanicamente, sob a inspiração do mestre, ao qual não podia deixar de obedecer.

Perto da estação Saint Lazare, um confeiteiro mostrou-lhe caixinhas de papelão idênticas, como matéria e forma, à que Ganimard possuía. Além disso, uma das vendedoras lembrava-se de haver servido, na véspera, à noite, um senhor mergulhado numa gola de pele, mas do qual vira o monóculo. Os fragmentos do jornal, apresentados a um jornaleiro, foram facilmente reconhecidos como pertence ao “Turfe Ilustrado”.

Ganimard foi logo ao escritório do “Turfe”, pediu uma lista dos assinantes e, por essa lista, assinalou todos os nomes e endereços daqueles que habitavam as paragens de Ponte Nova e, principalmente, “já que Lupin o dissera”, a margem esquerda do rio. Requisitou seis homens e despachou-os com as necessárias instruções. Às sete horas da noite, o último desses homens voltou, anunciando-lhe a boa nova: um senhor Prévailles, assinante do “Turfe”, habitava daquele lado. Na véspera, à noite, saíra vestido com um capote de pele, recebera das mãos da porteira sua correspondência e o jornal “Turfe Ilustrado”, e só voltara por volta da meia-noite. Prévailles usava um monóculo, era frequentador de corridas e possuía cavalos que ele montava ou alugava.

Com grande estupefação do Sr. Dudouis, Ganimat contou-lhe as conclusões a que chegara e pediu-lhe um mandado de prisão. Tinha pressa de acabar. À noite, esperou seus homens à volta da casa de Prévailles e, um pouco antes de nove horas, um senhor de cartola, envolto num capote de pele, apareceu pela calçada ao longo do Sena. Atravessou a rua e dirigiu-se para a casa. Ganimard aproximou-se:

Senhor Préveilles?

Sim; mas o senhor…

Estou encarregado de uma missão.

Não pôde acabar a frase. Vendo os homens que surgiam da sombra, Préveilles recuara rapidamente até a parede, e, fazendo frente aos adversários, encostara-se à porta de uma loja, cujas cortinas estavam descidas.

Para trás! Não os conheço.

Com a mão direita manejava uma pesada bengala, enquanto que a mão esquerda, atrás das costas, parecia querer abrir a porta.

Ganimard teve a impressão de que, por lá, ele poderia fugir.

Então disse:

Vamos, o senhor foi descoberto. Renda-se.

Mas, quando segurava a bengala de Prévailles, Ganimard lembrou-se do aviso dado por Lupin: o homem era canhoto e estava procurando o revólver. O inspetor abaixou-se rapidamente, porque vira o gesto súbito do indivíduo. Duas detonações ressoaram, mas ninguém foi atingido. Pouco depois, Prévailles recebia uma coronhada no queixo e às nove horas era jogado no xadrez.


*


Ganimard, nessa época, já gozava de uma grande reputação. Essa captura, efetuada tão bruscamente por meios muito simples, e que a polícia se apressou em divulgar, valeu-lhe uma celebridade repentina.

Prévailles foi, também, acusado de todos os crimes até então impunes, e os jornais exaltaram as proezas de Ganimard. No início, tudo correu celeremente. Constatou-se, primeiro, que Prévailles, cujo nome verdadeiro era Thomas Derocq, já andara às voltas com a justiça. Além disso, revelou a existência de um rolo de corda igual à que amarrara o embrulho, e punhais que teriam produzido ferimentos análogos aos da vítima. Mas, no oitavo dia, tudo mudou: Prévailles, que até então se recusara a responder, apoiado pelo advogado, apresentou um álibi categórico: na noite do crime, estava nas Folies-Bergères. De fato, acabaram por encontrar, no bolso de seu “smocking”, uma poltrona e um programa do espetáculo, ambos com aquela data. Então, foram feitas acareações: a moça da confeitaria “julgou reconhecer” o senhor de monóculo. A porteira do apartamento de Jenny Safira “julgou reconhecer” o senhor que visitava a artista; mas ninguém ousava afirmar nada. Não havia nada de sólido que servisse de base para uma acusação séria.

O Sr. Dudouis chamou Ganimard, confiando-lhe essa dificuldade: faltava uma prova concludente e, sem ela, o caso devia ser arquivado. Ganimard argumentou que Prévailles não se teria deixado prender sem resistência se não fosse culpado; mas Dudouis lhe disse que o homem alegava ter julgado estar sendo vítima de um assalto e, por isso, se defendera. Além disso, admitindo-se que a safira tivesse sido roubada, não fora encontrada, nem com ele nem em qualquer outro lugar. Arrematou dizendo que a única prova atrasadora seria o outro pedaço da echarpe, pois, se o criminoso a escondera ou destruíra, era evidente que fora guiado pelo medo de serem encontradas na fazenda marcas sangrentas de seus dedos.

Ganimard sabia que a conversa tendia para esse fim, e estremeceu. Sua situação exigia-lhe provar a culpabilidade de Prévailles, por cuja prisão era o responsável. Se ele fosse solto, Ganimard cairia no ridículo. Por infelicidade, a única e indispensável prova estava em poder de Lupin. Que fazer? Passou noites em claro procurando uma solução.

Mobilizou todos os seus auxiliares e os pôs à procura da safira invisível. Nada. No dia vinte e sete de dezembro, Dudouis estava disposto a abandonar o caso. Então, Ganimard pediu-lhe que esperasse mais um dia e lhe confiasse o pedaço da echarpe encontrado com Jenny, mediante o que ele se comprometia a devolver-lhe a echarpe completa.

Decidido a comparecer ao encontro marcado um mês antes por Lupin, sentia-se perplexo. Por que o seu eterno inimigo fazia questão desse encontro? Que objetivo visava ele? Inquieto, desvairado de raiva, resolveu preparar uma armadilha destinada a prender aquele homem, já que o momento era oportuno, e, no dia seguinte, 28, fixado para a entrevista, depois de prevenir seus auxiliares de que se dirigia a uma expedição perigosa, foi em companhia deles que chegou ao campo de batalha.

Deixou-os num café, com ordem para invadirem a casa e prender quem quer que encontrassem, caso ele, Ganimard, chegasse a uma das janelas ou não voltasse dentro de uma hora.

Subiu e tudo estava em seus lugares, como dantes. De Lupin, nem sinal. Desapontado, dispunha-se a sair, quando apareceu na soleira da porta um velho operário, com uma blusa comprida de pintor.

Não percas tempo pensando — disse o homem. — Sou eu, Lupin. Desde hoje de manhã, sou empregado do pintor do térreo; e, como estamos na hora do almoço, subi.

Com expressão zombeteira, perguntou se Ganimard estava contente com o caso que lhe fora entregue; se não se sentia maravilhado com os dons divinatórios do que ele dera provas; e terminou perguntando:

E a echarpe? Está contigo?

Sim, a metade. Tens a outra metade?

Aqui está. Confrontemos.

Não havia nenhuma dúvida; os pedaços se completavam. Lupin continuou:

Mas suponho que não vieste somente para atender ao meu chamado. O que te interessa é ver as marcas de sangue, não é?

Passaram à sala vizinha, mais clara, e Lupin colocou a fazenda no vidro. O inspetor estremeceu de alegria, pois se via, distintamente, a marca de cinco dedos e da palma da mão. A prova era irrecusável. Com a não ensanguentada, que apunhalara Jenny, o assassino agarrara a echarpe e passara-a ao redor do pescoço da vítima.

Lupin explicava:

E é a marca da mão esquerda; daí o meu aviso de que nada tinha de miraculoso, como vês. Porque, embora eu admita que me consideres um espírito superior, meu bom amigo, não quero, entretanto, que me trates de feiticeiro.

Ganimard guardara rapidamente no bolso a metade ensanguentada da echarpe, enquanto Lupin, distraidamente, brincava com a borla que terminava a outra metade, que lhe ficara nas mãos, e dizia, com ares aprovadores:

Muito bem, meu amigo! É mesmo tua. E bem vês que não havia nenhum artifício em tudo isto; apenas um serviço de camarada para camarada… E, também confesso-te, um pouco de curiosidade; sim, eu queria examinar a outra metade da seda, essa que estava com a polícia. Não tenhas medo; eu vou devolvê-la: só quero vê-la por um segundo. Como são engenhosos esses trabalhos femininos! Reparaste este detalhe do inquérito? Jenny Safira era muito habilidosa; ela mesma fazia seus vestidos e chapéus. Desde o primeiro momento, achei que esta echarpe também devia ter sido feita por ela, e, curioso como sou, estudei a fundo o pedaço de seda que acabas de embolsar e, no interior da borla, descobri uma medalhinha, que a pobre criatura pusera ali como um talismã. Particularidade emocionante, não achas? Era Nossa Senhora do Bom Socorro. Então, pensei que seria muito interessante examinar a outra borla, esta que, enfim, está comigo, pendurada à outra metade da echarpe. Como está benfeita! E tão pouco complicada! Basta passar um novelo de lã à volta de uma bola oca de madeira, com um pequeno esconderijo, onde se pode pôr uma safira…

No mesmo momento, afastava os fios da lã e apanhava de dentro do nó da borla uma admirável pedra de uma pureza e lapidação perfeitas. O inspetor, lívido, com os olhos esbugalhados, parecia fascinado pela pedra, que cintilava à sua frente. Compreendia, enfim, toda a maquinação e, ocorrendo-lhe o insulto que lançara na primeira entrevista, murmurou outra vez, entre dente: “Animal!”.

Os dois homens defrontavam-se.

Dá-me isso — disse Ganimard.

Lupin estendeu-lhe o pedaço de fazenda vermelha.

E a safira?

Estás maluco!

Dá-me, senão…

Senão o quê, espécie de idiota? Então achas que passei a aventura pelos teus belos olhos? Ora, Ganimard, lembra-te de que, há quatro semanas, não fazes outra coisa senão obedecer às minhas ordens. E que é preciso que vós, da polícia, sejais mesmo inocentes para que nem tu, nem teus colegas, tenhais tido a ideia de apalpar este pedaço de fazenda; que nenhum de se tenha dado ao trabalho de pensar por que a pobre moça se agarrava ferozmente à echarpe. Nenhum de vós! Agis ao acaso, sem refletir, sem calcular.

Contendo a cólera, que o sufocava, Ganimard só pensava numa coisa: chegar à janela e chamar seus homens, e como o cômodo em que se encontravam dava para o pátio, pouco a pouco, por um movimento envolvente, ele procurava voltar à porta de comunicação, porque, então, de um pulo, alcançaria a janela.

Enquanto Lupin falava, Ganimard atingiu seu objetivo e, segurando o trinco da porta, tentou abri-la; mas uma blasfêmia escapou-lhe dos lábios: o trinco não funcionou.

Lupin deu uma gargalhada e continuou:

Nem isso! Nem mesmo isso conseguiste prever. Armas-me uma tocaia e não admites que a possa farejar com antecedência. E deixaste conduzir a esta sala sem pensar se eu te trago de propósito e se as fechaduras tão providas de molas de segurança. Então, que dizes de tudo isto?

Que digo? — vociferou Ganimard, desorientado.

Rapidamente, tirara o revólver e visava o inimigo pleno rosto:

Mãos ao alto!

Lupin plantou-se diante dele, dando de ombros.

Mais uma gafe.

Mãos ao alto, repito!

Perdura a gafe! Teu revólver não disparará. Tua governanta, a velha Catherine, está a meu serviço. Por isso, molhou os cartuchos, esta manhã, enquanto tomavas café.

Ganimard teve um movimento de raiva, guardou arma e atirou-se sobre Lupin. Este o deteve com um pontapé na canela. Seus olhos se provocavam, suas respirações se confundiam, como se fossem entrar em luta corporal. Mas isto não aconteceu, porque Ganimar se lembrava de suas derrotas precedentes, seus ataques vãos, a reação de Lupin. Não havia nada a fazer. Lupin dispunha de forças contra as quais todas as forças individuais se quebravam. Completando-lhe o pensamento, falou, mais uma vez:

Não é mesmo? Vamos ficar como estamos. Aliás, meu amigo, pensa bem em tudo quanto a aventura valeu: a glória, a certeza de uma promoção e, a isso, a perspectiva de uma velhice feliz. Entretanto, seria demais acrescentar a tudo isto a descoberta da safira e a prisão de Lupin. É assim que me agradeces por haver-te salvo a vida? Não fui eu que te preveni que Prévailles era canhoto? Vamos, Gaminard, não estás elegante!

Conversando, Lupin realizara a mesma manobra de Ganimard, aproximando-se da porta; e o outro, vendo-o escapar, perdeu toda a prudência e quis barrar-lhe passagem; recebeu um formidável soco na boca do estômago. Em três gestos, Lupin fez funcionar o fecho de segurança e escapou, rindo…


*


Vinte minutos depois, quando Ganimard conseguiu reunir-se a seus homens, um deles disse-lhe:

Um pintor que saiu da casa, quando seus colegas voltavam do almoço, deu-me uma carta, pedindo-me que a entregasse ao “patrão”. E quando lhe perguntei quem era o patrão, ele já estava longe. Suponho que seja para o senhor.

Ganimard abriu-a; estava rabiscada às pressas e dizia:


Isto, meu bom amigo, te porá em guarda contra a crudelidade excessiva. Quando te disserem que os cartuchos de teu revólver estão molhados, ainda que quem o afirme te mereça toda a confiança, como Arsène Lupin, não te deixes enganar. Primeiro, atira e, se o camarada der um pulo para a eternidade, terás a prova: 1º) de que os cartuchos não estão molhados e 2º) que a velha Catherine é a mais honestas das governantas. Enquanto não tenho a honra de conhecê-la, sou o teu sincero

ARSÈNE LUPIN”.


Fonte: “Fon Fon”/RJ, edição de 13 de agosto de 1949.

Fizeram-se adaptações textuais.

Ilustração: PS/Perchance.


Notas:

1Doces leves, feitos de claras de ovos batidas em neve com açúcar.

2Bolo pequeno e comprido, recheado com creme e coberto de glace.

 

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