A LIBERDADE ROUBADA - Narrativa Clássica Verídica Cruel - Olaudah Equiano

A LIBERDADE ROUBADA

Olaudah Equiano

(1745 – 1797)

Tradução de Paulo Soriano



Enquanto estávamos ancorados, algo crudelíssimo aconteceu a bordo de nossa chalupa e que me encheu de horror, malgrado eu tenha depois descoberto que tais práticas eram frequentes. Havia um jovem mestiço livre, muito inteligente e decente, que há muito navegava conosco. Era ele casado com uma mulher livre, com quem tinha um filho; ela vivia em terra firme e tudo era muito feliz.

Nosso capitão e imediato, e outras pessoas a bordo, e várias outras em outros lugares, até mesmo os naturais das Bermudas, sabiam, desde criança, que aquele jovem era livre e que ninguém jamais o reivindicara como propriedade.

Contudo, como a força muitas vezes prevalece sobre o direito por estas bandas, aconteceu que um capitão das Bermudas, cujo navio estava atracado ali por alguns dias, subiu a bordo do nosso e, ao ver o mestiço, cujo nome era Joseph Clipson, disse-lhe que ele não era livre e que tinha ordens de seu mestre para levá-lo às Bermudas.

O pobre homem não conseguia acreditar que o capitão estivesse falando sério; mas logo se deu conta da realidade, pois agarraram-no violentamente. E, embora ele tenha mostrado uma certidão de nascimento livre em São Cristóvão, e a maioria das pessoas a bordo soubesse que ele laborava no ramo naval e sempre se apresentara como um homem livre, ainda assim ele foi retirado à força de nosso navio.

Pediu, então, para ser levado à costa, perante o secretário ou os magistrados, e esses infernais invasores dos direitos humanos prometeram-lhe que assim seria. Contudo, em vez disso, levaram-no a bordo do outro navio; e, no dia seguinte, sem sequer lhe darem a oportunidade de ser ouvido em terra, ou permitirem que visse a esposa e o filho, levaram-no embora, provavelmente condenado a nunca mais vê-los neste mundo.

E esse não foi o único caso desse tipo de barbárie que testemunhei. Desde então, vi, muitas vezes, na Jamaica e em outras ilhas, homens livres, que conheci na América, serem submetidos, vilmente, a trepanações e mantidos em cativeiro.

Ouvi falar de duas práticas semelhantes até mesmo na Filadélfia; e não fosse a benevolência dos quakers daquela cidade, muitos negros, que agora respiram o ar da liberdade, estariam, creio eu, gemendo sob as correntes de algum fazendeiro.

Tais coisas abriram minha mente para um novo cenário de horror que me era estranho até então. Até aquele momento, eu considerava apenas a escravidão terrível; mas a condição de um negro livre me parecia, então, igualmente terrível, no mínimo, e em alguns aspectos até pior, pois vivem constantemente temerosos da perda da própria liberdade E a liberdade só existe mesmo no nome, pois as pessoas são universalmente insultadas e saqueadas, sem possibilidade de reparação; pois tal é a equidade das leis da Índias Ocidentais: nenhum testemunho de negro livre será admitido em seus tribunais de justiça.

Nessa situação, causa-lhes surpresa que escravos, quando tratados com brandura, prefiram mesmo a miséria da escravidão a tamanha zombaria da liberdade?

Eu estava agora completamente enauseado das Índias Ocidentais e pensava que jamais seria totalmente livre enquanto não as tivesse deixado.



Ilustração: Autor anônimo do séc. XVIII.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A MÁSCARA DA MORTE ESCARLATE - Conto de Terror - Edgar Allan Poe

O GATO PRETO - Conto Clássico de Terror - Edgar Allan Poe

O RETRATO OVAL - Conto Clássico de Terror - Edgar Allan Poe

O BARBA AZUL - Conto Clássico de Terror - Charles Perrault