AS MALDADES DO SILFO - Conto Clássico Fantástico - Catulle Mendes
AS MALDADES DO SILFO
Catulle Mendes
(1841 – 1909)
Tradução de Esmeralda
(Séc. XIX)
Um jovem, revestido de armadura de prata e com grandes asas de neve, galopava, ao romper da aurora, montado em um cavalo branco.
Aconteceu que uma bela princesa, passeando à sombra das árvores em flor, viu passar o jovem das asas de neve. Foi tal a sua comoção que deixou cair a rosa que tinha entre os dedos e sobre a qual pousara uma borboleta.
—Ah! — suspirou a princesa. — Sinto que esse cavaleiro absorveu para sempre os meus pensamentos.
A formosa herdeira do trono estendeu o braço e, com o gesto, pediu ao cavaleiro que parasse.
— Amo-te, oh! Tu, que passas ao longo dos caminhos, se me corresponderes, conduzir-te-ei à casa de meu pai, que é um poderoso monarca, e ele mandará celebrar as nossas núpcias.
— Eu não te amo — respondeu o cavaleiro.
E seguiu o seu caminho.
A princesa abriu a porta da quinta e principiou a correr na estrada.
— De onde vens? — perguntou. — E aonde vais tão cedo, tu que não queres se casar comigo?
— Venho da cidade, onde vive a minha amada, e vou ao encontro do meu rival que chega hoje.
— Quem é a tua amada?
— É a filha de um lavrador. Ela fia à janela, entoando uma canção que os pássaros escutam.
— Quem é o teu rival?
— É o sobrinho do imperador de Golconda. Quando ele desembainha a espada, parece que vai trovejar, porque se vê fuzilar um relâmpago.
— O que disseste tu à tua amada?
— Pedi-lhe o coração; ela recusou-o.
— O que dirás tu ao teu rival?
— Pedir-lhe-ei o sangue; e é preciso que ele mo dê.
— Que receio me inspira a tua vida! Consente que te acompanhe.
— A única mulher que eu desejaria que me acompanhasse está a esta hora em casa.
— Deixa-me montar à garupa do teu cavalo; nada mais exigirei.
— Os homens não costumam levar as mulheres à garupa quando vão combater.
E o cavaleiro deu de esporas ao seu cavalo branco.
A filha do rei chorou amargamente. Como era muito cedo, o Sol começava a descerrar no horizonte a sua pálpebra ainda velada de sombras, e os passarinhos, chilreando através da espessura, preparavam-se para empreender juntos os seus folguedos ao longo das campinas reverdecidas.
II
De um bosque de azáleas, o silfo surgiu de repente. Vinha vestido de folhas de trevo e trazia na cabecita um buquê de margaritas.
— Yolaine — disse silfo, dando uma gargalhada escarninha —, por que choras?
— O meu único amor ausentou-se e eu não posso segui-lo.
— O teu amor é esse belo jovem de armadura de prata e asas de neve, que galopa ao longe, montado em um cavalo branco?
— Esse mesmo. Os seus olhos são azuis como o céu e tem os cabelos da cor da noite.
O silfo agitou um ramo de espinheiro que lhe servia de cetro.
— Quando me apraz, Yolaine, a preguiçosa tartaruga excede a ligeireza das nuvens, e os fogosos poldros, instantaneamente domados, correm menos do que os escaravelhos, que levam uma hora a atravessar a folha de um plátano. Yolaine, segue o teu amor sem inquietação. Onde quer que ele vá, tu chegarás ao mesmo tempo.
Enquanto o silfo voltava para o bosque de azáleas, a princesa meteu-se a caminho. As pedras, onde ela punha os seus pesinhos calçados de cetim e pérolas, diziam-lhe:
— Obrigado, pequeninos pés de Yolaine.
III
Mas o malicioso silfo, que gosta de pregar pirraças, enganara a princesa.
Em vão ela caminhou toda a noite. Não conseguiu alcançar o cavaleiro, cujos olhos eram azuis como o firmamento.
Foi só à meia-noite, em uma estrada, que Yolaine viu passar, sobre um espectro de cavalo, um grande fantasma branco.
— Quem és tu, avejão, que passas? —perguntou Yolaine.
— Eu era um belo jovem de cabelos cor da noite; agora, nada sou. Encontrei o sobrinho do imperador da Golconda, meu rival; batemo-nos e ele matou-me.
— Aonde vais? — interrogou de novo a princesa.
— Vou à casa onde dorme a minha amada.
— Causar-lhe-ás pavor! Julgas que aquela que não amava um vivo quererá amar um morto? Vem comigo, que te escolhi. Farei do meu leito um túmulo nupcial. Adormecerei ali para sempre, ao teu lado, e teremos magníficos funerais.
— Não. Quero aproveitar o sono da minha amada para lhe dizer adeus através dos seus sonhos; beijarei, nos seus lábios adormecidos, o perfume da sua canção.
— Permite, ao menos, que eu te acompanhe. Deixa-me montar à garupa contigo!
— Não é costume os fantasmas irem visitar as suas amadas levando mulheres à garupa.
E o espectro desapareceu.
A filha do rei chorava, cada vez mais inconsolável.
Como passava da meia-noite, a Lua argentava melancolicamente o horizonte, os campos e a estrada, afogando-os em uma claridade branca como a neve. Os passarinhos, adormecidos no leito da folhagem, sonhavam com os seus alegres voos através das campinas em flor.
IV
O silfo saiu de um bosque de murta. Trazia uma casaca de luto, feita com duas metades de uma tulipa preta. Uma teia de aranha servia-lhe de fumo.
— Yolaine, pobre Yolaine! — disse silfo. — Por que choras tanto?
— O meu único amor morreu e eu não posso segui-lo.
— É o teu amor esse fantasma que acaba de passar na estrada?
— Ele mesmo. Arrancaram-lhe os cabelos cor da noite e a dor de perder a sua amada apagou-lhe o olhar azul.
— Conheço as ervas que dão a vida e as que dão a morte. Procura o corpo do homem que amas. Dar-te-ei a erva que restitui a vida.
— Silfo, tu iludiste-me uma vez! Mas se tu enganas quando se trata de fazer bem, serás, talvez, verdadeiro, tratando-se de fazer mal. Dá-me a erva que mata.
—Aí a tens — disse o garoto silfo. —Logo que morreres, irás reunir-te ao teu amor, e nunca mais se separarão.
O silfo entregou à infeliz princesa quatro folhas de uma erva que, em recordação de uma história de amor, se chama simonoide.
Apenas silfo voltou para o bosque de murta, Yolaine levou a erva aos lábios e morreu sem o menor sofrimento.
V
Mas ainda desta vez silfo enganara a princesa.
No momento em que a alma de Yolaine voava para o céu, avistou outra alma que descia para o inferno.
Ao clarão de uma estrela, reconheceu a alma do belo jovem.
— Onde vais, alma do meu único amigo?
— Ai de mim! Falei de amor à minha amada nos seus sonhos, e os meus beijos póstumos roçaram a sua boca, como uma borboleta preta que pousa, tremente, sobre uma rosa. Fui condenado e desço ao inferno.
— Queres que te acompanhe — eu, que morri — para tornar a ver-te? Consolar-te-ei nos teus tormentos, animar-te-ei nos teus desalentos, amar-te-ei na eternidade! O meu amor será caudal de repouso e resignação, e onde poderão dessedentar-se os lábios da tua dor. Queres que te acompanhe?
— Não! A recordação da minha amada deve acompanhar-me.
E alma do belo jovem perdeu-se nas trevas, enquanto a alma da donzela se erguia sozinha para o espantoso paraíso!
Fontes: “O Mequetrefe”/RJ, edição de 29 de julho de 1885; “Illustração Portugueza”/PT, edição de 20 de abril de 1855.
Fizeram-se breves adaptações textuais.

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