CASO ESTRANHO - Conto Clássico Sobrenatural - M.Z.

CASO ESTRANHO

M. Z.

(Séc. XX)


Havia já alguns dias que M. P. não era visto na roda de alguns amigos, com os quais costumava palestrar diariamente, durante algumas horas, na pitoresca cidade de Petrópolis, onde residia.

Certa tarde, quando os procurou, todos lhe estranharam o aspecto, achando-o por demais abatido.

Não sabíamos que estavas doente — disse-lhe um desses amigos, o Vitorino — e só assim se explica que nenhum de nós tenha ido visitar.

Doente — respondeu M. S. — sinto-me eu agora com o que me tem acontecido.

Alguma enfermidade em alguém da família?

Não, mas um caso tão extraordinário, tão sobrenatural mesmo, que, certo, nenhum de vocês acreditará no que eu disser. E, no entanto, o meu abatimento físico prova que não lhes vou contar senão a verdade. Eu tenho o hábito de reler, à noite, deitado, os jornais do dia. Ao chegar à casa, dirijo-me para o meu quarto, acendo a vela, dispo-me, deito-me e entrego-me à leitura de todos os jornais, até vir-me o sono. Pois bem; de há umas oito noites para cá, não o tenho podido fazer, porque, mal me deito e apanho um jornal para ler, abre-se a porta do quarto, que fecho sempre à chave, apaga-se a vela e sinto que, a meu lado, no leito, se deita uma pessoa que eu não sei quem seja, mas que permanece junto a mim, a encher-me de terror, até pela madrugada, quando a sinto levantar-se e afastar-se do quarto, deixando…

Interrompeu-o uma formidável gargalhada do Vitorino:

Ora, M.! Se você fosse uma criança que se deixasse atemorizar com histórias de lobisomem, vá! Mas, na idade em que está, acreditares em fantasmas, a ponto de ficares no estado era que te encontras…

Asseguro que lhes contei um caso verdadeiro, que está ocorrendo todas as noites comigo.

Qual, meu velho! Isso não é mais do que uma ilusão, simples consequência de forte esgotamento nervoso, aliás, muito compreensível, porque és viúvo e moras só. Dou-te o conselho de procurares distrações.

Bem. Já que duvidas do que eu te disse, já que supões que esse caso não é senão uma ilusão resultante, talvez, de uma imaginação doentia, convido-te a vir testemunhá-lo esta noite no meu quarto.

Está dito. Irei, e podes, desde já, ficar certo de que não terás uma noite de vigília, mas de um sono profundo, que te reparará por completo as forças, que o medo de almas do outro mundo te tem feito perder.

M. S. e o Vitorino entraram, à noite, no quarto do primeiro, à hora em que aquele se recolhia habitualmente.

Vitorino sentou-se em uma cadeira, ao lado da mesinha de cabeceira, sobre a qual estava a vela acesa, e M. S. deitou-se, entregando-se à leitura de um jornal qualquer, como fazia nas demais noites.

Subitamente, a porta, que fora fechada à chave pelo Vitorino, abriu-se e o amigo do dono da casa, que ali fora para lhe dar coragem, ouviu os passos de alguém que caminhava em direção ao leito, viu apagar-se a vela… e mais não viu porque, em dois saltos, desceu, sem chapéu, a escada e alcançou a rua, mais apavorado que o próprio M. S., a quem pretendera animar.


Fonte: “O Combate”/RJ, edição de 17 de maio de 1921.

 

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