JUSTIÇA - Conto Clássico Cruel - Henri Barbusse

JUSTIÇA

Henri Barbusse

(1873 – 1931)

Tradução de autor anônimo do séc. XX



Em verdade — disse J. K. Alec Colombres —, não valho grande coisa. Sem ser, propriamente falando, um canalha, tenho frequentado tanta gente desonesta, no Klandike e em seus arrabaldes, que não posso jurar ser de todo um santo. Porém, em nossos ofícios de aventureiros e garimpeiros, espalhados pelo vento, sequestrados em intermináveis solidões e cortados pelo frio, os pequenos crimes não chamam a atenção. E não parece gracioso, depois de tudo, aplicar as leis da nossa velha Inglaterra a um país enganchado em alguma parte de lá de cima, no círculo polar, onde as viaturas são tiradas por cães, onde os homens morrem como moscas e as cidades nascem como cogumelos?

Nosso interlocutor esvaziou um copo de uísque. Encheu outro, que bebeu igualmente, porque ele não podia admitir nem os copos vazios nem os copos cheios. Depois, examinou através da janela de sua casa campestre de Epsom, onde nos encontrávamos, a campina inglesa, verde, amarela e vermelha, toda límpida, toda clara, e que parecia, dada a última mão de verniz, ter saído da loja do comerciante.

Ele mesmo havia trazido dos distritos da América do Norte, onde enriqueceu, o gosto das cores vivas. Estava adornado com um chalé verde e uma gravata cor de sangue de boi, e sua forte cabeça, sobre o pescoço vigoroso e brilhante, era comparável a um rosbife servido.

De qualquer maneira, eu era um serafim ao lado de Daniel Coffin Buttanshaw. Esse Daniel era um rapaz sem-vergonha. Agora que o tempo passou, e pude raciocinar, estou mais e mais convencido de que Danny matou o velho mercador judeu. Esta história é surpreendente. É uma das mais curiosas das que se contavam, há cinco anos, durante os ócios de viagens tão diabolicamente longas que se podia seguir, de oito em oito dias, as etapas sobre um mapa-múndi grande como um punho.

Assim, pois, meu Coffin Buttanshaw era evidentemente o assassino do infeliz mercador que se encontrou, uma noite de lua, de nariz contra a terra e o queixo preso na neve congelada, ao ponto de ser preciso acender velas de cera ao redor para livrá-lo. Não havia dúvida alguma, para mim e os amigos do sombrio mercador, que ele o matara por causa de dinheiro. Nós outros estimaríamos vê-lo enforcado; desgraçadamente, não se pôde encontrar nenhuma espécie de provas contra ele, e foi forçoso enterrar a coisa ao mesmo tempo que o judeu. Também a nós foi forçoso, camaradas de Danny, continuar a tratá-lo como antes, rir de seus gracejos e jogar com ele; a vida tem estas necessidades... O bandido! Eu o vejo aqui, como o vejo o senhor, com sua cara como um focinho, seus olhos de sapo, seu bigode hirsuto e sua cabeleira tostada. Era seco, com terríveis articulações, e nada mais gracioso que vê-lo parar diante de alguém balançando os extremos de seus braços simiescos... Ah! O cachorro traidor!

Abreviando: eis-nos novamente em campanha, ele, eu e outros dois garimpeiros da mesma laia, levando na consciência, seja um crime propriamente dito, sejam algumas transações difíceis… E, quiséssemos ou não, éramos forçados a fazer juntos uma espécie de sociedade.

"Pois bem; um belo dia, Coffin deixou-nos. Isto é, nós o deixamos. Hum!... Como explicarei isso? O senhor me compreenderá. Imagine que um desconhecido chegado do Norte fez-nos saber, à mina e aos meus dois outros companheiros, que havia um terreno aurífero sem dono a alguns meses de marcha de Fort Yugon, rumo à fronteira do Domínio. Instintivamente, o senhor compreende, não dissemos nem uma palavra a Coffin. Estávamos associados com ele, não há dúvida, mas isso não impede que um terço seja melhor que um quarto, eh! Ademais, recordamos precisamente, então, a história do judeu — mais vale tarde do que nunca —, compreendemos todo o horror de vivermos com semelhante pirata. Por demais, nossa ação era tanto mais escusável quanto o desconhecido nos havia enganado odiosamente e seu arsenal aurífero não existia. (Nunca voltei a pensar nesse bruto, de modo que me arrependo de não havê-lo estrangulado.) Já tenho dito bastante como para conceber essas precauções e com que pressa abandonamos uma manhã o nosso Coffin no caminho — se é que pode expressar-se dessa maneira. Se achava de tal sorte saturado de uísque, que não despertaria antes das seis horas, a menos que preferisse ter uma congestão. Ele o merecia, não é verdade? Ele não havia pedido seu parecer ao judeu quando o deixou, depois de fazer-lhe dormir de cara na neve!

Que nos aconteceu? Primeiro, desenganos, desastres, aventuras e trabalhos de Hércules. Depois de termos sofrido tudo isso, eu voltei rico à nossa Inglaterra e me instalei nesta fazendola, que comprei honestamente. Que aconteceu a ele? Soube-o depois e vou contar-lhe. Falto de recursos (naturalmente nós tínhamos tomado todas as precauções contra tão perigoso indivíduo), colocou-se em uma granja do distrito aurífero mais próximo. Trabalhou rudemente da manhã à noite e da noite à manhã, pois não recuava diante de coisa alguma, nem mesmo do trabalho, e esperava o condenado juntar um pouco de dinheiro que lhe permitisse lançar-se de novo à perseguição do ouro e também de nós outros. Então, durante dois meses, sofreu todas as penas, fazendo o serviço de uma besta de carga, e não deixava a granja, cujo dono estava encantado por ter a seu serviço semelhante máquina, que tudo fazia, e durante todo esse tempo levou uma vida exemplar.

Mas, acontece que, pela metade da noite, alguns homens invadiram a mansarda em que dormia, visto estarem os estábulos cheios de bezerros. Esses homens eram o comissário e quatro poderosos policiais que constituíam a milícia do lugar. Sacudiram Coffin sem nenhuma consideração. Aturdido, meio morto de sono, bocejando, grunhindo e abrindo sucessivamente o olho direito e o esquerdo, foi arrastado, seminu, para fora.

“—Nada de resistência, meu amigo — ameaçou o comissário. — Alguém viu você dar o golpe.

Que golpe? — tartamudeou nosso ex-amigo, a quem essas manobras, no frio terrível da noite, começavam a esquentar as orelhas.

Pensaram que ia resistir e o mais formidável dos agentes, avançando, pô-lo a nocaute em meio ”round”.

Quando retomou os sentidos, o comissário estava diante dele num pequeno posto, e convidou-o a confessar o assassínio da solteirona.

Sim, perfeitamente. Daniel Coffin Buttanshaw estava acusado de haver passado desta para melhor uma adusta “miss” que nunca tinha visto! A princípio estupefato, debateu-se, protestou, gritou. Mas, ai de mim! (digo “ai de mim” por ele, naturalmente), um acúmulo singular de circunstâncias o abafava. Tinham-no visto no lugar do crime; o punhal que havia penetrado na venerável vítima era o seu... Defendeu-se mal. Quando da acareação com a vitima, sua atitude diante da esquálida múmia foi julgada cínica. Não pôde apresentar álibi. Tinha perdido a cabeça, acusava do crime todo o mundo, inclusive o comissário! Resumindo: meteram-lhe a corda no pescoço por uma fresca tarde de neve...

“—Esperem! Esperem! — gritou alguém que chegava esbaforido. Era um padre católico.

O santo varão sabia perfeitamente que Coffin era inocente, pois tinha recebido a confissão do verdadeiro culpado. Mas, sucedia — o senhor sabe como nos lugares pequenos os rancores são ferozes — que o comissário não se ligava com o padre. Assim, recebeu-o ironicamente, pedindo-lhe que lhe desse, nesse caso, o nome do culpado.

O padre recusava-se, naturalmente, alegando o segredo do confessionário. Voltou-se o comissário para o carrasco, fazendo-lhe sinal de alçar a corda.

Ao mesmo tempo que o verdugo obedecia, o padre gesticulava, agarrado pelos policiais, vociferando:

“—Isso é uma injustiça, um abominável atentado! Deus o amaldiçoará…

E mil outras coisas semelhantes.

Deus! Eu penso para mim que Ele — que, do alto céu, acompanhara toda a vida de Coffin, desde o primeiro ato — agora não poderia fazer outra coisa senão sorrir…”


Fonte: “A Noite Ilustrada”/RJ, edição de 19 de outubro de 1943.

Ilustração: PS/Dreamina.

 

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