MALDIÇÃO - Conto Clássico de Terror - Jack Dee

MALDIÇÃO

Jack Dee1

(Séc. XX)



Duvido muito, leitor, que, por mais fortes que sejam as tintas, por mais vivo que seja o meu estilo, eu possa transmitir um décimo das surpresas e angústias do drama que te vou contar. É preciso advertir, desde já, que não se trata de um conto, mas da vida real com todas as suas asperezas e brutalidades.

Eu cá tenho as minhas ideias a propósito dos fatos desta narrativa, mas você, caro leitor, dê lá as interpretações que lhe parecerem mais razoáveis, pois não é admissível que um homem, que conhece horrores e mistérios da Nova Zelândia, tenha convicções exatamente idênticas às de outro que só conhece a suavidade da vida citadina.

Eu era, naquela época, um jovem estudante e, durante as minhas férias de maio, com um colega de nome Pat Simpkin, decidi aproveitar o meu descanso com divertimentos menos banais. E, assim, quase sem preparativos, partimos de Auckland numa formosa manhã domingueira.

Estávamos em pleno inverno, mas o dia raiava esplêndido, e caminhamos até Manurewa profundamente iluminados pelo Sol. Vieram, então, duas bátegas de chuva e, já nas proximidades de Tuakaw, armamos a nossa barraquinha para passar a noite.

Alguns dias depois, atravessando mangues, restingas e rios no Vale Mangawhiri, encaminhamo-nos para as planícies Haurak e dormimos numa fazenda junto a New Thames. Daí pensamos em voltar para Auckland de bote, mas isso seria encurtar a viagem e abreviar as sensações inéditas da aventura, o que não nos agradava.

Procuramos, então, informações acerca da estrada para Coromandel, e um proprietário de garagem disse-nos estar em boas condições.

Partimos na manhã seguinte por uma das mais belas estradas que tenho tido ocasião de contemplar em torno do promontório e tendo à vista as pitorescas praias do Golfo Haurak.

Aqui, uma cascata espumante, cascalhando; ali, uma ponte minúscula sobre um rio; mais além, os rochedos nus dos recifes onde, em perpétuo marulho, as ondas se despedaçam. Ao longe, para os fundos, a imponência da cordilheira do Coromondel.

Alcançamos o alto justamente no momento em que o Sol entrava no ocaso sobre Auckland. O dia findava e impunha-se a necessidade de arranjar pousada para a noite. Apressamos, então, a caminhada, descendo para Manaia, onde tivemos uma afabilíssima recepção por parte dos maoris, reunidos em frente de um pequeno armazém.

Perguntamos pelos, “pakehas” (brancos) e informaram-nos de que somente duas famílias de brancos residiam no distrito: um fazendeiro, distante no meio da mata, e o professor da escola primaria, um edifício humilde e caiado, no topo de um morro à vista. Preferimos procurar o professor.

Sr. Young, o mestre-escola, recebeu-nos com mostras de grande entusiasmo, porquanto os visitantes em Manaia eram raríssimos. Aceso um lampião de querosene, baforando espessas fumaradas de cachimbo, tivemos uma palestra animada.

Uma casual observação a respeito das crianças maoris deu origem a uma discussão em torno da vida e costumes dos indígenas.

Os principais fatores de disciplina e ordem entre os antigos guerreiros maoris eram os curiosos costumes de “maru” e “tapu”, que, aliás, exercem uma poderosa influência — falou o Sr. Young. — Nunca se sabe quando qualquer acontecimento ou malfeito vem causar-lhe o “maru” na sua vida.

— “Maru”? Que vem, afinal, a ser “maru”, professor?

—“Maru” significa infelicidade para o sujeito, e os maoris acreditam ser uma manifestação de desagrado dos deuses, um castigo, enfim. A fim de que o resto da tribo não incorra no furor dos deuses, todos os bens do maldito são confiscados e distribuídos entre os membros da comunidade. O “tohunga”, ou sacerdote, é naturalmente o que tem direito ao maior quinhão.

E o “tapu”?

Ah… O “tapu” é sempre algo mais respeitável. Por esse costume, qualquer coisa se pode tornar intocável. Para um maori, profanar uma sepultura ou cemitério, entrar numa caverna proibida ou ceifar determinadas searas, sem a prévia permissão do “tohunga”, é incorrer na pena de morte. Mesmo nesse povoado, onde o povo já é cristão, e prevalecem costumes ingleses, o medo do “tapu” persiste, a despeito do fato de já estarem esquecidos os velhas deuses da raça. A uma milha daqui, na margem do rio, há umas velhas esculturas maoris pelas quais o chefe da tribo tem recusado milhares de libras oferecidas pelo museu.

Tão preciosas assim?

Velhos ídolos grotescos. Jazem em completo abandono, estragando-se no bosque. Ninguém se preocupa em conservá-los, em defendê-los da completa ruína. Mas, o senhor não encontraria um único maori capaz de vendê-lo ou ao menos permitir que dali os retirem. O velho “tohunga”, que esculpiu tais manipanços, declarou-os “tapu” e intactos permanecem eles. Tudo isso parece grosseiro e absurdo, mas a verdade é que eu próprio conheço dois casos de desastres que se seguiram à violação desse preceito supersticioso.

Eu e Pat Simpkin estávamos profundamente interessados e impacientes por ouvir a história. O professor Young acendeu o cachimbo sem pressa. Depois, disse:

Foi há dois anos — falou o homem, baforando um espesso rolo de fumo no ar. — Um grupo de turistas ingleses passou por esse povoado. Depois de divertir-se e observar os costumes dos indígenas, houve quem lhes mostrasse as esculturas intocáveis do bosque. Sem dar atenções aos protestos dos maoris, levaram um fragmento que lhes pareceu interessante. Poucas léguas adiante, o carro precipitou-se de um penedo ao mar e não escapou um vivo para narrar as sensações do desastre. O outro caso não foi tão trágico, mas, incontestavelmente, muito curioso: uma senhora inglesa, nossa conhecida, levou consigo um fragmento das esculturas para Auckland. Nada ouvimos, nem soubemos da notícia de nenhum desastre e já nos havíamos esquecida do fato, quando, cerca de seis semanas depois, a mulher chegou de volta a Manain trazendo o fragmento do ídolo e pondo-o no mesmo lugar de onde tirara.

Medo?

Disse-nos ela que havia, em sonho, sido visitada pelo fantasma do velho guerreiro que tinha esculpido os ídolos. Achamos graça na história, mas o fato é que a mulher voltou mais tranquila, como se houvesse se livrado de um pesado fardo

Contados pelo Sr. Young, com aquele nariz de falcão, aquela cabeleira em desordem, numa casa tibiamente iluminada por um lampião de querosene, entre baforadas de fumo e no coração de um povoado maori, as histórias do “tapu” impunham-se como verdades misteriosas e irrefragáveis. E que noite! Eu e Pat Simpkin não opusemos a menor dúvida, nem pensamos nas coincidências ou desordens nervosas

No outro dia, entretanto, ao nascer do Sol, as disposições do nosso espírito cambiaram para melhor. Tornamo-nos de novo dois seres racionais e civilizados. Demos os ombros, sorrimos da nossa própria credulidade. Ora, bolas! Éramos estudantes de medicina: estávamos fartos de discutir esses pretensos mistérios e encontrar explicações razoáveis para fatos mais complicados, e sentimos vergonha da nossa própria fraqueza em deixar-nos dominar pelas narrativas mais ou menos supersticiosas do Sr. Young, um homem forçosamente contagiado pelas abusões do meio primitivo.

Alugamos uma canoa, arranjamos um jovem maori para remar e rumamos rio acima, em busca das misteriosas esculturas “tapus”. Após uma viagem lenta e pitoresca, alcançamos um lugar onde a margem direita do rio tinha uma inclinação suave Um pouco distante da ribada, sob a folhagem sombria do bosque, viam-se os objetos da nossa visita, produtos grotescos do trabalho de um artista primitivo, Eram, indubitavelmente, preciosíssimas esculturas típicas. Cinco ao todo. Quatro delas haviam presumivelmente feito parte da ornamentação da fachada de um antiquíssimo “wahare-puné”, ou edifício onde se reuniam em assembleia os maiorais da tribo. Tinha cada um cerca de dois metros de altura por vinte e cinco centímetros de diâmetro. Na superfície, viam-se gravados em baixo-relevo sinais simbólicos, desenhos angulosos, caras humanas disformes, olhos esbugalhados, bocas enormes. Ainda se percebiam restos das tintas de que o autor se servira para impregnar a madeira, colorindo-a.

O quinto ídolo pareceu-nos o mais precioso de todos. Representava a cabeça de um cavalo com três pés de altura e relativamente espesso. Olhos, orelhas e ventas proporcionados e admiravelmente benfeitos. Estávamos, enfim, diante de um belíssimo espécime de escultura maori como nunca havíamos visto nem nos melhores museus.

Quando refletimos que todas aquelas esculturas tinham sido trabalhadas com instrumentos grosseiros, na maioria de pedra, podemos avaliar o primor de inteligência e habilidade que representava aquele ídolo. Era evidente que a cabeça de cavalo, que tínhamos diante dos olhos, era o resultado do trabalho acurado de vários “tohungas”.

A árvore sob a qual estavam tais esculturas “tapu”, por sua vez, não era menos interessante: era uma enorme “rata” com um tronco gigantesco, atirando para o céu a sua fronde pintalgada de flores escarlates por sobre o arvoredo humilhado.

A “rata” é obviamente uma árvore que difere das outras. Partindo inicialmente com uma simples trepadeira, pendendo semelhante a uma vergôntea de parreira, vai lentamente se expandindo, para os lados e para cima, suportada por algum gigante da floresta. Depois de roubar à árvore, sobre a qual se grimpou, o ar e a luz, termina matando-a.

Quando a árvore suporte seca e começa a espedaçar-se e apodrecer, a “rata” já está bastante forte para dela não necessitar e suster-se de pé: uma árvore oca com cerca de dez pés de circunferência.

Pat e Hongi, o remador indígena, estavam entretidos em examinar o interior dessa velha “rata”, quando me ocorreu a ideia de levar um fragmento daquelas esculturas para adicioná-las à minha coleção de curiosidades num canto do meu gabinete. Em poucos momentos, abri a lâmina do meu canivete e cortei um pedaço do ídolo “tapu”. Tinha apenas umas duas polegadas quadradas e pude guardá-lo bem no bolso

Só muito depois, já de volta em casa do professor Young, foi que mostrei ao meu companheiro o fragmento do ídolo; daí em diante, ele não me deixou tranquilo enquanto não dividimos entre os dois o pequeno troféu.

Bem, Pat, penso que já basta de aventuras desta vez. Amanhã, vamos de bote para Auckland.

E com, efeito, no dia seguinte, logo cedo, nos atiramos ao mar. Em casa, coloquei o pedacinho do ídolo “tapu” no meio de vários outros objetos, colhidos em dias de férias. Outro tanto fez Pat. E, ambos, demos sobejas risadas à custa do fantasma do velho “tohunga”.

Desde aquele dia, parece que a nossa sorte se modificou para pior. Uma série de acontecimentos desagradáveis e infelizes… Contrariedades, mau humor. Afigurava-se-nos a existência de uma conspiração universal contra nós.

Estávamos num ano importante e decisivo na carreira de Pat, pois ele esperava receber o grau de doutor. Nas proximidades dos exames, Pat desenvolveu uma atividade entusiástica e tremenda, mas, uma semana apenas antes, caiu de cama com um aniquilador ataque de influenza que não só o deixou muito combalido, como lhe prejudicou seriamente a vista.

O senhor tem que desistir inteiramente dos exames.

Mas, doutor…

Que fazer, rapaz? Mas… o inelutável. Primeiro a vida; depois, a carreira, o mundo. Suponhamos que fique cego…

Santo Deus!

Com a carreira acadêmica prejudicada, Pat foi para o campo e por lá ficou muito tempo, numa fazenda distante.

Nenhum de nós pensava nos ídolos “tapu” por ocasião da desastrosa doença do meu amigo, mas, evidentemente, uma reflexão tardia ocorreu a Pat. Algum tempo depois da sua partida para o campo, recebi dele uma carta:


Fiz uma viagem a Coromandel, amigo Jack, e deixei lá no mesmo lugar de onde saiu o pedacinho daquele maldito ídolo “tapu”. Eu sei que você poderá censurar o meu temor supersticioso, meu amigo. Mas um homem doente e com os seus sonhos esboroados, como eu, já pouco se preocupa com o juízo alheio.”


A verdade é que eu nenhum motivo tinha para sorrir dos temores do meu amigo. Era até aconselhável fazer, pelo meu turno, o mesmo. Talvez existisse alguma relação misteriosa entre a sua doença e a escultura “tapu”. Tive vontade de seguir o exemplo do meu amigo, mas sua carta veio ter às mãos num momento em que eu próprio estava de cama havia três meses.

Fiz um esforço supremo indo à minha coleção de troféus ver o pedaço do ídolo.

Havia desaparecido! Como?

Dez meses depois, em convalescença, ia eu assisti a uma partida de futebol e bum! Um automóvel atropelou-me Caí sem sentidos, com a perna direita fraturada de tal maneira que os médicos julgaram quase impossível tratá-la. Durante semanas a fio, vivi acabrunhado com o terror de uma talvez inevitável amputação.

Felizmente, após três meses de hospital, voltei à minha própria cama em casa, com a perna fraturada metida em gesso. Eu estava melhorando, diziam os médicos. Mas, acrescentavam, a junta do tornozelo nunca mais funcionaria bem. Quando tiraram o gesso, para substituí-lo definitivamente protegendo a perna, botaram uma tala de aço, um “calibrador”, como designaram. É com ele que posso utilizar hoje a minha perna. Mas, à noite, depois de tirá-lo para dormir, sou obrigado, quando me movo, a andar aos saltos sobre a perna esquerda

Poucas semanas depois de voltar do hospital, um fato estranho ocorreu. Apesar da noite agourenta de vento, uivando nas árvores em torno, e do chuveiro que caía sobre Auckland, adormeci facilmente às dez horas.

Subitamente, acordei às duas da madrugada. O impressionante é que, depois de quatro horas a sono profundo, eu não despertei em estado de sonolência, mas, como se algo anormal se dera, acordei já em pleno uso de todas as minhas faculdades mentais, com a mais completa lucidez. Tinha a noção de que não acordara espontaneamente. Havia sido acordado por alguma coisa. Subitamente, senti que não estava só no quarto. Havia “alguém” ali, espreitando-me, observando-me. Durante um lapso de tempo em que não havia lufadas de vento, ouvi distintamente a respiração de um estranho visitante. Por uma razão inexplicável, não pude articular uma palavra. É verdade que nada consegui ver.

Não vi, mas “senti”.

Senti que havia alguém perto de mim.

Aquela respiração ofegante, demorara, profunda…

Depois…

O meu corpo tremeu sob um calafrio. Eu estava como que amarrado de pés e mãos, incapaz do menor movimento.

Aquele “alguém” invisível e impalpável, que perambulava impune dentro de meu dormitório, aproximou dos meus ouvidos a boca e falou num tom horrendo e áspero:

— “Tapu… Tapu… Tapu…”

Um suor frio desceu-me pela testa. Senti a pele gelada. O sangue nas minhas veias parece que interrompeu interiormente a circulação.

A voz calara-se; mas um ruído estranho veio do gabinete, do lugar onde eu tinha a coleção de objetos colhidos na floresta. Era como se algum ladrão noturno estivesse bulindo nos móveis.

Reagi contra aquele terror e movi a mão para uma gaveta do criado-mudo à cabeceira. Apanhei um revólver. E se houvesse realmente algum malfeitor? Era preciso reagir e não deixar-me trucidar sem luta.

Mas os fatos culminaram antes que eu pudesse erguer-me

Uma barafunda violenta como de um objeto pesado a cair, a espatifar-se ruidosamente no soalho… Era a minha preciosa estante onde eu tinha as minhas curiosidades.

Veio, então, o silêncio. O sopro do vento e o rangido da cerca de paus eram os únicos rumores agora.

Apanhei a caixa de fósforos, acendi o lampião. Olhei em torno. Tudo silencioso e imóvel. Nem um ser vivo se agitava ali. Mas, entrando com precaução, no gabinete ao lado, vi a estante parcialmente destruída e o estojo, onde guardava as minhas preciosidades, com a vidraça partida, espatifado. O fragmento do ídolo lá estava, de novo intacto, por cima das outras coisas.

A esse momento, toda a gente que havia em casa estava de pé, e chegava de todos os lados, espantada pelo fragor. Verificou-se que todas as portas e permaneciam rigorosamente fechadas e que, portanto, ali não entrara pessoa alguma.

Depois de tanta infelicidade contra mim e o Pat — uma carreira arruinada, doenças, desastres, apreensões, terrores — era forçoso não duvidar mais do castigo dos deuses maoris. Parece que as divindades encolerizadas amenizavam agora os seus furores e, com os fatos daquela noite, apenas exigiam de mim submissão. Todos aqueles acontecimentos misteriosos valiam por uma advertência. Os deuses maoris faziam reaparecer os fragmentos da escultura para que eu, abatido no meu orgulho civilizado, fosse humildemente levá-lo ao seu lugar.

Quatro dias depois, galgava eu de novo as escarpas agrestes do Cromandel.

Em Manaia, encontrei Hongi para remar fio acima, levando-me ao lugar onde jaziam as grosseiras esculturas “tapu”.

E com que inexprimível emoção mergulhei pela última vez na sombra frondosa da “rata”, arrastando a minha perna dura e repondo no seu lugar o maldito pedaço de pau! Ah, meus senhores! Até hoje ainda estou convencido de que havia, nas caras disformes naqueles ídolos grotescos, um sorriso chamado de piedade desdenhosa.

Se tivéssemos, eu e o Pat, morrido num desastre, os deuses maoris não se teriam vingando com tanta crueldade.


Fonte: “A Noite Ilustrada”/RJ, edição de 26 de junho de 1934.

Fizeram-se breves adaptações textuais.


Nota:

1Provável pseudônimo.

 

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