O LENHADOR - Conto Clássico Fantástico - Coelho Neto


O LENHADOR

(Apólogo)

Coelho Neto


Ainda escuro, com as estrelas vivas no céu, lá saía o lenhador a caminho da floresta. Machado ao ombro, marmita à ilharga, lá ia ele para a faina diária de abater os troncos. Fosse o inverno rigoroso, de gelar, ou abrasasse o sol, o homem não se ressentia.

Robusto e ambicioso, mal o galo cantava punha-se de pé e, sem mesmo volver os olhos para o pequenino filho, que dormia num berço de vime, saía apressado, sempre receoso de chegar tarde, como se as pobres árvores, que o seu cortante machado detorava, pudessem fugir, como fugiam os animais ariscos, mal lhe sentiam os passos nas folhas secas do bosque.

A casa ficava entregue à mulher, que preparava a alimentação, cuidava dos demais deveres domésticos e ainda, apesar de fraca e enfermiça, fazia renda que ia vender à cidade.

Era o marido com os pesados carros de lenha e ela com o cestinho cheio de lindas rendas.

Os que a viam, tão pálida e tão magra, sempre a tossir, lastimavam-na: “Pobre mulher! Tão doente e sempre a trabalhar, porque nem aos domingos descansa e, se vêm à missa, é mais para mostrar, no adro da igreja, as suas rendas, do que para por-se em graça, porque nem para cuidar da alma lhe sobram instantes”.

Às vezes davam-lhe esmolas e ela, humilhando-se, agradecia beijando as moedas. E o filho? Pobre criança! Tão enfezadinho, sempre a choramingar. Se alguma senhora mais caridosa perguntava por ele, a mãe, com voz chorosa, respondia:

Ah, minha boa senhora! Sofre e como não há de sofrer o coitadinho, se tenho os peitos mirrados? Bem faço eu por contentá-lo, mas o leite é tão pouco e, ainda assim, tão dessorado, que o pobrezinho parece que sofre mais quando o achego ao colo. Deus não se compadece de nós.

Entretanto, os que viam o lenhador entrar, todas as tardes, na cidade com grandes carros empilhados de troncos, murmuravam:

Mas onde porá esse homem o dinheiro que ganha? Não há dia em que não apareça com uma carrada de lenha e que a não venda. A mulher auxilia-o com o seu trabalho. Moram em uma choupana em terras próprias. Que farão eles ao dinheiro?

Se interrogavam, ela saía sempre com a mesma resposta gemida:

As moléstias levam tudo quanto fazemos. Não há dinheiro que chegue. Nem sei que seria de nós se não fosse a caridade de certas pessoas que nos valem com esmolas.

Quem visitasse a choupana do lenhador, à beira da floresta, ficaria com o coração doído, tanta era a miséria entre aqueles fendidos muros, enegrecidos de fuligem. O leito era uma enxerga de palha de milho, a mesa era uma tábua mal acepilhada Nem arca possuíam, era em velhos caixotes que guardavam a roupa. No tempo do inverno, o vento bravio esfuziava por mil frinchas e a chuva jorrava do teto colmado, encharcando o interior, que ficava como uma pocilga. Ah! Mas se, à noite, alguém pudesse seguir o casal — o lenhador e a mulher — que, a portas fechadas, à luz duma candeia fumarenta, conversava baixinho na sala lúgubre, havia de pasmar do que ouvisse e visse.

Quando o pequenino adormecia, enrolado em trapos imundos, lá iam os dois para um quarto e, trancando-se, o lenhador, acocorado, punha-se a raspar a terra do solo até pôr a descoberto uma laje; levanta-a com esforço e, no fundo duma cova, brilhavam à luz pilhas de moedas de ouro e prata. Riam, então, de prazer, contemplando, adorando tamanha fortuna. E a mulher, com soberba, contava:

Sabes quem me deu hoje uma esmola à porta da Igreja? Luísa — imagina! —, que vive a bater roupa nas pedras do rio, a dar esmolas como grande dama. Recebi, que não sou tola, e cá está a moedinha de cobre à espera de outras para que as troques em prata.

O lenhador sorria e, deslumbrados, ficavam os dois à beira da cova, tiritando e roendo códeas de pão duro que a mulher trouxera da caridade.

Assim viviam avaramente, acumulando moedas e afetando penúria.

Uma noite, o lenhador sonhou que, ao entrar na floresta, vira fender-se uma grande árvore e aparecer dentro dela o gênio da mata. Era um gigante, todo verde, cujos cabelos eram compridos cipós, cujos braços eram grossos galhos, cujos pés eram imensas raízes, que assim lhe falhou em voz retumbante:

Homem forte, o teu machado inclemente vai devastando a minha floresta. Dentro em pouco não terei uma árvore que me abrigue e serei forçado a refugiar-me no seio da terra. Venho fazer-te uma proposta: se aceitares, poderás abandonar o machado, porque terás fortuna maior do que a do homem mais rico da cidade. Queres?

E o lenhador, em sonho, respondeu:

Sim! Quero.

Então assina com o teu sangue o que está escrito nesta folha verde e eu te conduzirei ao lugar em que se acha o tesouro.

E o gênio apresentou ao lenhador uma larga folha d'árvore na qual estavam escritas estas palavras luminosas: “Comprometo-me a nunca mais levantar o machado contra as árvores da floresta sob pena de ser por elas esmagado.”

Prontamente, picando uma veia do braço, tirou o sangue com que assinou o compromisso e o gênio, tomando-o facilmente nos braços, levou-o a um canto do bosque, perto duma fonte, sítio que ele conhecia por o haver, muita vez, procurado com sede e, cavando à beira d'água, fez aparecer um grande cofre de ferro, enferrujado e puído, e, abrindo-o, viu o lenhador que estava cheio, ate às bordas, de moedas de ouro.

É teu — disse-lhe o gênio —, leva-o. Lembra-te, porém, das palavras que assinaste.

E o lenhador jurou que as cumpriria e logo, curvando-se, quis carregar o cofre, mas o gênio ofereceu-se para levá-lo à choupana.

Foi com o ruído alegre das moedas de ouro que o lenhador acordou e logo, despertando a mulher, contou-lhe o sonho que tivera.

E se eu fosse a fonte? Que dizes?

Ora!… Quem se fia em sonhos?

Quem sabe lá! Conheço o lugar a que me levou o gênio. Vou até lá com uma enxada, cavo… É um pouco de trabalho, mas podemos ficar mais ricos do que o Daniel, que tem um palácio e terras fartas de lavoura e gado. Vou, não custa. Bem pode ser um aviso de Deus.

Mas ainda é cedo, homem. Pouco mais é de meia-noite.

Chegarei à fonte de madrugada. Pode ser que outro tenha tido o mesmo sonho e assim, quando lá chegar, já não encontrará o tesouro.





Levantou-se, vestiu e partiu.

A manhã era fria e nevoenta. O lenhador caminhava tiritando, a esfregar as mãos, muito encolhido num velho capote.

Quando chegou à floresta, na ânsia de descobrir o tesouro, deitou a correr e ainda era escuro quando parou, fatigado, à beira da fonte que vira em sonho.

Estava exatamente como lhe aparecera — com as águas límpidas brilhando sobre um leito raso de areia branca. Pelos ramos começavam os pássaros a piar.

É aqui! — exclamou o ambicioso, atirando a primeira enxadada à terra. E pôs-se a cavar, cantando.

De repente, ouviu um som metálico e a enxada tremeu-lhe nas mãos. Estremeceu de emoção e cavou com mais pressa, dizendo:

Pois querem ver que é verdade!

Súbito, como no sonho, viu aparecer um velho cofre enferrujado e puído e, apesar da grande excitação em que ficou, ouviu distintamente uma voz que dizia: “Lembra-te, lenhador, das palavras que assinaste!” Relanceou o olhar em torno e, não vendo vivalma, só se preocupou com o tesouro. Ah! O rico dinheiro, a bela fortuna em reluzentes moedas de ouro!

Abriu o cofre e contemplou extasiado os dobrões que lampejavam. De repente, curvando-se, tentou levantar o cofre; o peso era grande e o lenhador teve de desistir da empresa. Cobriu o seu achado cuidadosamente e voltou a buscar o carro tirado por três juntas de bois e chamar a mulher para que lhe ajudasse a transportar, em sacos, da fonte até à clareira em que devia ficar o carro, todo aquele poder de dinheiro.

Foi necessário cavar mais funda a cova no quarto escuro da cabana para guardar as moedas quantas, trazidas da floresta! À noite, com um lume de gravetos perto da enxerga, transidos de frio, os dois conversavam e a mulher dizia:

Agora, sim! Eu sempre queria que esses pobretões que por aí andam vissem a nossa riqueza. Podíamos ter um palácio todo de mármore, mais vasto e mais rico do que o do Daniel, que tanto se ufana com a miséria de umas moedas. E se comprasses uma casa e a mobilasses com luxo? Havíamos de ver toda essa gente a nossos pés, a pedir-nos coisas… E nós a rir, hein?

O homem não falava, a pensar na riqueza, ambicionando um tesouro maior. Tanto, porém, com ele lidou a mulher, que ele disse, por fim, em tom de angustia:

Em que penso? Perguntas. Penso que devo tornar à floresta com o machado, porque se me não virem mais como carro de lenha, entrarão a desconfiar e talvez cheguem a descobrir a verdade. Ai de nós se derem por ela! Quem nos dará mais pão para a nossa fome, mais roupa para o nosso frio? Demais, quem nos diz que não há outros cofres na floresta? Tornando eu com o machado às árvores, o gênio, para defendê-las, mostrar-me-á outro tesouro… Então, sim, ficaremos ricos, ricos como eu desejo…

Mas não te lembras das palavras do gênio e do documento terrível que assinaste? Vê lá! Acho que devemos trabalhar, mas sem perjúrio. O muito querer pode perder-nos.

O gênio! Falas no gênio! Ora, o gênio só me apareceu em sonho. Por que não o vi eu na floresta?

Mas achaste o tesouro.

Sim, achei o tesouro. Ora, adeus! Quanto mais, melhor! Eh! Eis que não tarda a manhã. Dá-me o machado e o capote e até logo. Mais uma carrada de lenha e gênio que se rale.

E foi-se.

Entrando na floresta, logo descobriu uma grande árvore, caminhou direito a ela e levantou o machado, atirando um golpe fundo ao tronco. Pôs-se a seiva a correr e ele trabalha, cantando, trabalha sem pena, quando um estalo anunciou-lhe que a árvore pendia.

Quis fugir, mas sentia-se enleado num cipoal, os pés como que se lhe haviam cravado na terra. Debateu-se, gritou vendo a imensa árvore inclinar-se com estrépito medonho.

Lembrou-se, então, das palavras do gênio… Ainda lutou, mas a árvore, como se, subitamente, a impelisse um grande vento, arriou fragorosamente, esmagando sob o seu tronco o lenhador ambicioso.


Fonte: “Gazeta de Noticias”/RJ, edição de 27 de outubro de 1935.

Ilustrações: Gustave Doré (1832 – 1883).

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