SALOMÉ - Conto Clássico Cruel - Ítala Gomes Vaz de Carvalho
SALOMÉ
Ítala Gomes Vaz de Carvalho
(1892 – 1948)
A mocinha, linda, fez um gesto brusco1 com a mão morena e as suas2 aias retiraram-se. Quando se viu3 só, levantou-se do divã em que ainda há pouco descansava, deliciosamente, sob a sensação agradável da massagem depois do banho perfumado e com as negras madeixas úmidas, sem enfiar as sandálias, foi de um salto até a sacada de mármore. O vasto pátio mergulhava nos tons do crepúsculo oriental; a sombra noite vinha subindo, aos poucos, as estrelas faiscavam4 , ainda pálidas, no céu de violeta e um coro de galinhas5 rompia o grande silêncio (...)6. Encostou7 a cabecinha à ombreira da porta-janela e quedou-se imóvel, ouvindo. Era tão criança ainda! Os longos cabelos negros caiam-lhe soltos pelos ombros até os joelhos redondos e burilados, como se fossam de marfim polido.
Tinha um perfil puríssimo. O queixo redondo, a boca pequena, o nariz reto e as órbitas profundas, cheias de mistério, de onde emergiam as pestanas longas e curvas. Testa curta e um pouco chata; as pupilas, invisíveis, deviam ser infinitamente tristes, a julgar pela atitude melancólica de imensa tristeza que se desprendia de toda a sua pessoa.
Do recanto mais escuro do pátio, elevava-se a mesma voz profunda e retumbante que parecia sair das entranhas da terra, penetrando o ar, envolvendo o palácio, invadindo os terraços para se agarrar às colunas, às arcadas, às paredes mesmo dos aposentos mais íntimos. As imprecações e as ameaças, os conselhos de arrependimento e virtude, o anúncio dos tremendos castigos ultraterrenos e a esperança do perdão para os humildes e os puros ecoavam em todo o ambiente.
Salomé estremecia a cada grito mais forte, de raiva e de temor ao mesmo tempo. De há muitos dias, a cada hora, a cada momento, durante o repouso ou enquanto brincava com suas damas de honra, estivesse ela ao lado de sua mãe Herodíade, ou perto do padrasto Herodes, durante os banquetes e as danças, a voz possante do prisioneiro do tetrarca, que os crentes da nova Fé denominavam o “Precursor do Messias”, dominava o tumulto da corte e vinha torturar os ouvidos e a jovem consciência de Salomé.
—Terá ele razão? — perguntava ao velho pedagogo que lia os antigos poemas gregos. Mas este não sabia responder ou julgava mais prudente não revelar, a respeito, o seu secreto pensamento, e já8 não havia procônsul romano, nem príncipe do Oriente que lhe falando de amor conseguisse distrair a linda princesa de sua9 angustiosa obsessão. A voz igual e calma continuava a subir do cárcere obscuro, infiltrando-se por toda parte e nada linha valor, nada mais existia, nem o som nem a musica, nem danças nem cantos. Salomé sentia-se arrastar pela eloquência tremenda e misericordiosa, incisiva e convincente que lhe sondava a alma e os pensamentos. Uma noite, às escondidas dos pais, chegou às grades do poço para interrogar o prisioneiro:
—Oh, homem do deserto, ouve-me. Fala mais baixo, fala só para mim; quero descer até onde estás para compreender melhor a tua palavra.
Mas Salomé era bonita demais. As claras pupilas resplandecentes que brilhavam de luz sobrenatural no rosto macerado e magro do asceta tiveram um lampejo de nojo e de repulsa.
—Não, mulher perdida, mulher impura, não te aproximes de mim! Manda parar as orgias de teus cúmplices e o escandaloso incesto!
—Por que me enxotas? Eu quisera tanto saber!
—Vai-te, animal imundo; não te aproximes!
Salomé, a linda princesa, a toda-poderosa, nunca haveria de esquecer a monstruosa ofensa. Herodíade, a sua mãe, leviana, tinha caído numa grande risada, quando a filha lhe havia pedido permissão para ir falar ao prisioneiro:
—Queres te converter, minha linda Salomé? Aceitar a pobreza, a renúncia ao luxo, às joias, às túnicas de púrpura e bisso, aos tecidos de ouro? Queres andar pelo mundo descalça, com uma áspera túnica de saco sobre os seios delicados e uma nesga de grosso linho azul escondendo teus maravilhosos cabelos? Terás ficado louca, minha filha, dando atenção a um condenado que desvaria?
—Somos nós, minha mãe, que não sabemos o que estamos dizendo. Vivemos no pecado, sem pensar nos pobres que morrem de fome e de frio, sem querer meditar sobre o que será nossa vida eterna, somente apegados aos bens da terra.
—Salomé, minha linda princesinha: com teus olhos de fogo, tuas tranças de ébano e tuas faces de rosas, és a rainha da formosura. Que mais queres? O que te falta?
—Nada, ou talvez tudo!
Herodíade continuou a rir; mas quando Herodes, o tetrarca, soube do insensato desejo de Salomé, franziu o sobrolho e ficou irado:
—Queres falar ao prisioneiro? Por quê? Para tentá-lo? Não sabes que ele não tem olhos para as tentações desta terra e que vê além das vistas dos míseros mortais como nós? Ele olha o céu, a beatitude eterna e ignora que as mulheres existem, quando mesmo sejam lindas como tu.
—Quero compreender a sua doutrina.
—Qual? A doutrina de amor e caridade, que renega os poderosos, despreza o ouro, exalta os humildes e perturba o mundo inteiro? Não é coisa que interesse à minha linda princesinha. Vai-te fazer mais bela ainda para o festim de logo mais! Serão meus hóspedes os príncipes da Armênia e da Lígia, os generais de Moina. Será um festim suntuoso, como o do rei Baltazar! Ri, oh, encanto das minhas pupilas! Esplendor dos meus palácios!
*
No seu quarto, sobre a mesa de mármore, Salomé encontrou naquela noite um cofre de prata esculpido, cheio de joias riquíssimas. Diademas, colares, braceletes, brincos e fivelas de ouro e pedrarias. As aias transmitiram-lhe a ordem de Herodes:
—Terás que te enfeitar com estas joias para o banquete de logo mais.
Foi quando Salomé, despedindo por um momento as aias, tentou pela segunda vez obter ao menos um olhar indulgente do prisioneiro austero; mas dele só recebeu palavras de maior rudeza:
—Afasta-te, verme imundo da terra! Para longe, para longe de mim!
*
Vestiram-na com sete túnicas transparentes: vermelha, rosa, roxa, violeta, azul, branca e carminada, todas bordadas a ouro e presas, sobre o ombro esquerdo, por uma grossa fivela também de ouro e rubis. A espádua direita, branca e lisa como o marfim, ficou desnuda. Calçou sandálias rubras e pôs um cinto de ouro e rubis para manter as sete túnicas que se abriam sobre as pernas longas e perfeitas, apenas veladas, no alto das coxas, por véus cor de carne. Envolvida nas túnicas leves e ondulantes, a princesa Salomé parecia estar nua. Os cabelos estavam presos no alto da cabeça pelo diadema fulgurante. O rosto oval e branco estava levemente rosado; os lábios cobertos de cinábrio, as olheiras marcadas de “khol”10 e as longas pestanas brilhavam, embebidas de uma misteriosa pomada que tornava ainda mais escuras as negras pupilas animadas de uma luz fosca.
Enquanto as aias a vestiam, a voz do prisioneiro subia no pátio, penetrando nos aposentos onde ela se enfeitava para a festa pagana. Não quis mais se olhar na placa de prata lisa, que as escravas lhe apresentavam. Nem quis mais saber como estava vestida. As palavras do asceta tenebroso atormentavam-na. “Por que tanto luxo e gozo para uns, enquanto outros sofrem na miséria das choupanas sórdidas?”. Mas também por que tanta rudeza, para com ela, no coração do apóstolo que apregoa a bondade, o amor, a caridade e o perdão?
*
Sentada à mesa do banquete, entre um príncipe do Oriente e um general romano, Salomé, para não pensar, esvazia taças sobre taças de vinho de Chipre. Herodes de longe alteia a voz:
—Não me ouves, Salomé? Já te pedi para dançar!
A princesa, fincando os cotovelos sobre e a mesa, encarando-o, petulante, faz tilintar os braceletes e retruca:
—Não tenho vontade de dançar hoje!
—Mas os meus hospedes só esperam por isso. Atravessaram montes e vales para te ver dançar, Salomé; e eu prometi.
—Estou cansada.
Herodíade, sentada ao lado do marido, olhou a filha. Notou-lhe o olhar fundo, preocupado, e sacudiu a cabeça, inquieta:
—Cansada, tu, Salomé, que de costume danças horas e horas seguidas? Não creio.
—Não me sinto bem esta noite!
—Estás fresca como a aurora! Dança, Salomé! Com as tuas túnicas cor de fogo, serás como uma chama viva. Dança! Dança!
O tetrarca levantou-se e pôs-lhe a mão suada sobre o braço; tinha os olhos acesos de luxúria e de vinho, tremiam-lhe os lábios moles e, ao mesmo tempo, ávidos.
Dos terraços abertos sobre o pátio, entrou outra vez a voz calma e profunda, ameaçadora e soturna, do prisioneiro. Salomé estremeceu, passou a mão sobre a testa e teve um sorriso estranho, cruel.
—Só dançarei, Herodes, se tu me deres o que eu exigir! Queres assim?
—Tudo que tu pedires. Juro!
—Vê bem; tu jurastes! Minha mãe e teus hóspedes são testemunhas!
E saltou no meio da sala, cantando, cheia de alegria, cobrindo com seus gritos o eco das palavras admoestadoras, que subiam do pátio em melopeia pungente!
*
Dançou, dançou! E nunca foi tão linda, tão encantadora e cheia de sedução! Tinha a flexibilidade da serpente com os matizes fulgurantes de uma flor de fogo. De suas túnicas rubras desprendiam-se rápidos relâmpagos das pedrarias que lhe ornavam os cabelos, o colo, a cintura e os finos tornozelos de gazela. No fim, caíram uma por uma as túnicas leves e Salomé ficou nua, apenas com a faixa de véus cor de carne amarrada em torno dos quadris delgados. Herodes estendeu os braços para ela, através da mesa, ébrio de vinho e de cobiça. Herodíade cobriu os olhos com as mãos gorduchonas e voltou-se para não ver o horror da cena. Os hóspedes, delirando de entusiasmo, desfolhavam todas as rosas do banquete para atirá-las sobre a dançarina.
—Tetrarca — chamava esta em voz alta —, agora tu vais me dar o que eu te pedir. Quero a cabeça do teu prisioneiro João!
—Salomé, não sabes o que estás dizendo! Estás tonta com os perfumes, a dança e a música. Vem cá. Bebe c esquece!
Herodíade deu-lhe uma taça cheia de vinho, enquanto Herodes, com uma risada sinistra, satisfazia o pedido louco.
—Sim! Terás a cabeça do prisioneiro. És tão linda, danças tão bem! Dançarás também em torno da cabeça decepada?
—Dançarei!
O carrasco possante desceu ao cárcere profundo com a espada de lâmina curva e voltou logo depois trazendo sobre o prato de ouro a cabeça cortada.
Salomé esperava de pé, alta, direita, escultural, com as mãos sobre os quadris, a cabeça altiva.
Quando avistou, enfim, o escravo carregando o trágico troféu, levantou os braços para o céu num agradecimento mudo e correu-lhe ao encontro. Olhou detidamente a cabeça cortada, o rosto lívido do asceta, desencarnado pelos jejuns e renúncias, onde as pupilas, embora apagadas, guardavam, ainda, uma luz sobrenatural. A boca, finamente desenhada, não mais havia de proferir injúrias e ameaças; não mais poderia ensinar, à soberba princesa Salomé, o tormento, o remorso, a angústia de crer e a consternação de nada saber ao certo! Nem sequer a enxotaria mais com as rudes palavras que a haviam ferido no fundo d’alma. Salomé deu uma risada que mais parecia um soluço; envolveu-se de novo na túnica escarlate, ensaiou novo passo de dança, mas caiu desmaiada, de bruços, boca entreaberta, braços estendidos ante a lúgubre dádiva, com os lábios mimosos numa poça de sangue.
Fonte: “A Noite Ilustrada”, edição de 22de janeiro de 1936.
Ilustrações: Caravaggio (1571 – 1610); Charles Mellin (1597 – 1649).
Notas:
1Termo provável.
2Termo provável.
3Termo provável.
4Termo provável.
5Termo provável.
6Ilegível.
7Termo provável.
8Termo provável.
9Termo provável.
10Cosmético à base de minerais moídos.


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