TORTURAS - Narrativa Clássica Verídica de Horror - Luc Domain

TORTURAS

Luc Domain

(Séc. XX)

Tradução de autor anônimo do séc. XX



Antes da Revolução de 1789, as confissões dos criminosos, ou tidos como tais, eram obtidas por meio de torturas. A descrição destas cenas atrozes, verdadeiras visões de pesadelo, aparecem-nos hoje mais terrificantes ainda, à luz dos próprios autos ainda hoje existentes nos arquivos das extintas masmorras católicas. Eis aqui, pois, como exemplo, a ressurreição exata de um passado que não é relativamente longínquo!

Estamos no ano da graça de 1788. Num catre lúgubre, numa peça obscura e fria do calabouço, os altos muros recobertos de salitre, os magistrados do Parlamento de Ruão reúnem-se para julgar Marguerite Tison, acusada de ter degolado seu próprio marido.

Em torno de uma tosca mesa de carvalho negro, estão sentados os juízes vestidos de beca, um médico e o escrivão. Em frente deles, com todo o seu aparato de máquinas de formas estranhas e diversas, está o verdugo e seus ajudantes imediatos.

De joelhos, pálida, quase desfalecida, a acusada escuta a leitura da sentença.

Segundo o costume da época, ela fora submetida a um jejum de doze horas, mas, por piedade, seus guardas lhe venderam, por oito sous1, um pouco de vinho misturado com água. Dum só trago, secretamente, ela o bebeu, antes da horrível prova, enquanto que um barbeiro, requisitado pela justiça, lhe escanhoava o corpo.

Agora, despojada de todas as suas vestimentas, nua como Frinéia2 diante de seus juízes, pois a tortura se executava assim, ela é entregue ao exame do médico, que a julga tranquila (sic), e declara que ela é capaz de suportar os tormentos.

Aplique-lhe os grilhões! — ordena o juiz.

Algumas luvas de ferro são colocadas nos polegares dos pés e das mãos da paciente, cujas carnes ficam sujeitas a uma lenta e progressiva pressão. Enlouquecida pelo sofrimento, ela rola sobre a lousa fria onde está estendida.

Por Deus! Basta' Basta! — implora a pobre mulher. Seus gritos, seus apelos têm qualquer coisa de desumano, tanto a dor altera a sua voz. Seu sangue filtra-se, em pequenas gotas vermelhas, por entre as máquinas infernais que, pouco a pouco, trituram a extremidade de seus dedos, enquanto que, surdos às suas lamentações, aos seus gemidos angustiantes, os assistentes permanecem impassíveis.

Subitamente, um silêncio. A acusada tomba com um desmaio. Atiram-lhe um pouco d’água no rosto. Ela recupera os sentidos. E de novo, grave, a voz do juiz se eleva:

Confessais ou não o vosso crime?

Eu não o matei! Sou inocente! — responde ela.

Suspendam-na novamente! — grita o magistrado visivelmente irritado com esta resistência.

Trazem umas cordas finas. O verdugo amarra-as aos braços da paciente; depois, com o auxílio de uma roldana, ele a suspende como uma rés morta que se destina ao talho do açougueiro.

A mulher fica, assim, pendurada, face a face com os magistrados, que a observam com uma atenção serena. As dores que experimenta devem ser atrozes, pois, na verdade, ela tem um olhar assustador, medonho, trágico. O suor, correndo em bica, inunda a sua fronte. Seus gritos e gemidos não causam horror a quem os ouve.

Por amor de Deus, matai-me logo de uma vez! Eu não sei de nada! Eu me condenaria a mim mesma se dissesse outra coisa. Eu sofro, eu sofro!

Agora o carrasco aplica-lhe vergastadas impiedosas. E o sangue continua espirrando do seu corpo.

Depois disso, fazem descer o seu corpo quase inânime, e, como ela continua a negar, amarram-lhe em cada joelho um peso de cinquenta libras e de novo a suspendem.

Temendo um desfalecimento, o médico manda arrancar os grilhões dos dedos e dá à pobre mulher um copo de vinagre. Durante mais de uma hora Marguerite Tison fica assim suspensa. E não fossem os espasmos que de momento a momento agitam seu corpo, ninguém a julgaria ainda com vida. Depois, os seus gritos recomeçam, cada vez mais constantes, cada vez mais agudos. As cordas esticadas pelos pés penetram agora nas suas carnes já demasiadamente torturadas. Outra vez o corpo desce. Pela terceira vez, o juiz insiste para que ela se confesse culpada de morte.

Fazei de mim o que quiserdes! Eu não sou culpada. Misericórdia! Misericórdia!

Suspendam-na ainda outra vez! — prescreve, inexorável, o magistrado.

Mas apenas a ordem executada, grita a acusada que já não suporta mais:

Ai! Eu estou morta!

É um corpo inerte, as mãos e os pés vermelhos de sangue, que os ajudantes do algoz conduzem, silenciosos, sobre um velho colchão de cama.

A tortura durou três horas.


*


O suplício da água não era menos atroz. O paciente, estendido sobre um banco, devia absorver água quente administrada por potes chamados coquemars.

Em 1699, a senhora Angèlique Cartier, esposa de Claude Ticquet, conselheiro na Corte de Paris, foi submetida á prova da água em Chatelet. O processo verbal instruído pelos magistrados é bastante sugestivo na brevidade de seus termos:

Interrogada por que assassinou seu marido, ao primeiro pote d’água negou; no segundo pote d’água, não disse nada mais; no terceiro, deu os sinais da casa; no quarto disse: ‘Ai, meu Deus!’; no quinto, também não balbuciou uma só palavra; no sexto, afirmou que já dissera a verdade, a princípio; no sétimo pote d’água, então, não pôde mais articular uma só palavra. Isto feito, foi conduzida sobre um colchão, inanimada, para diante do fogo".

Os processos de torturas eram inumeráveis. Variavam de parlamento a parlamento. Se em Paris a questão era resolvida pela água, em outras jurisdições os meios empregados eram o polé, o torno, a suspensão por meio dos órgãos sexuais, etc.

Em Diepa, quebravam-se os ossos da mão do acusado. Além disso, acendiam-se-lhes entre os dedos mechas impregnadas de enxofre, derramando-se ainda chumbo fundido por cima das orelhas.

Em Avinhão, o suplício era conhecido pelo nome de “La veglia”. O acusado era posto durante seis horas sobre as bordas agudas de uma peça de madeira. A tortura devia ser interrompida somente para se reanimar o paciente quando este tombava desmaiado.

As vergastadas, a roda, o cavalete, tornavam os sofrimentos ainda mais dolorosos. Os grãos da sensibilidade humana eram calculados com um sangue frio espantoso, os gritos das vítimas medidos, comparados, de forma a fixar o momento e que a tortura devia ser suspensa, a fim de não causar a ruína completa do paciente.


Fonte: “Pan”/RJ, edição de 28 de janeiro de 1939.

Ilustração: Jan Monchablon (1854–1904).


Notas:

1 Subdivisão da antiga libra francesa. 

2 Cortesã grega do século IV a.C., de grande beleza, acusada de impiedade. Foi absolvida, após o seu defensor exibi-la nua aos juízes do tribunal.

 

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