A SERPENTE VINGADORA - Conto Clássico de Horror - T. E. Grady

A SERPENTE VINGADORA

T. E. Grady

(séc. XX)

Tradução de autor desconhecido do séc. XX



Na Índia Meridional, uma estrada solitária, profundamente sulcada pelas rodas de velhos carros de bois e demarcada por cactos espinhosos e raras palmeiras, desenrola a sua extensão deserta através de muitas milhas.

Em Sankarankoil, uma aldeia dessa estrada, dez milhas a leste de Puliyangusdi, na Presidência de Madras, há um sepulcro visitado periodicamente por centenas de peregrinos, que aí vão fazer as suas oblações aos deuses. Foi com esse objetivo que, alguns meses atrás, uma rica dama velala deixou o lar em Kadaiyanalur, uma povoação vizinha.

Como é comum, estava ela adornada, com toda a pompa, de joias que valiam cerca de cento e cinquenta libras — uma pequena fortuna no Sul da Índia. Levava consigo um filho, uma criança de peito de dezoito meses. Embora o distrito seja selvagem, as aldeias sejam espalhadas e as estradas deploravelmente más, há um serviço mais ou menos regular de ônibus em certas vias, sendo os veículos, na maioria, Fords que, no ultimo grau de decrepitude, se transformaram. Um desses ônibus passava perto do sepulcro, e, então, a senhora tomou logar, com dois ou três outros passageiros. E assim começou uma viagem que iria ter um fim quase incompreensível. Por algum tempo, afora os solavancos naturais de um motor em tão primitivas estradas, nenhum incidente digno de nota ocorreu.





Por fim, foi atingida uma estação a cerca de seis milhas de Sankarankoil. Esse era o ponto de destino dos outros passageiros, e, quando o ônibus partiu novamente, levava apenas o chofer, a mulher que ia ao sepulcro e seu filhinho.

Pouco depois, a mulher observou, com alguma surpresa, que o condutor deixava a estrada principal, seguindo para Sankarankoil por uma trilha lateral; mas, quando indagou da razão do rodeio, ele explicou que a estrada real tinha ficado quase intransitável por causa dos recentes aguaceiros. Era, portanto, necessário procurar a aldeia por outra direção.

Dentro de poucos minutos, porém, o ônibus parou e o condutor encaminhou-se para a porta traseira. O seu objetivo real, ao deixar a estrada principal, tornava-se agora claro. A sua cobiça inflamou-se à vista de tão valiosas joias e ele resolveu tirar partido da sua posição e da oportunidade que lhe aparecia para um roubo fácil. Quase louca de terror pela sua salvação e de seu filho, a pobre mulher, a despeito dos seus esforços, foi arrancada do automóvel. O chofer, então, fria e metodicamente, despojou-a dos objetos de valor, que transferiu para os seus bolsos.

Surgiu, então, uma questão importante: como evitar a descoberta do crime?

Foi assim que a ideia de assassinar a vítima lhe apareceu no espírito, e a vista de um poço próximo resolveu o problema. A despeito das súplicas lastimosas da pobre mulher, o salteador arrastou-a para o poço e, com a criança presa nos braços, atirou-a no fundo, aos gritos.

Então, sem um ultimo olhar ao poço, para assegura-se de haver conseguido o seu infame intento, o chofer voltou-se calmamente e, tomando o ônibus, prosseguiu a viagem interrompida, certo de que tinha apagado todos os vestígios do crime.

Tinha, todavia, cometido um erro fatal, que o levou casualmente à ruína. A despeito das chuvas pesadas, o poço continha muito pouca água. Isso serviu para amortecer a queda da vítima, e quando a infortunada mulher tomou pé, sentiu que estava metida até a cintura na água. Não se ferira na queda e a criança tinha também escapado incólume, mas a sua situação era terrível — presos num poço profundo, ao lado de uma estrada deserta. Incapaz de sair, ela pediu socorro, gritando como louca, mas os seus gritos de nada valiam, porque a mais próxima habitação ficava a algumas milhas de distancia de estrada praticamente deserta. Quando se calou no fundo do poço, responderam-lhe os ecos da sua própria voz desesperada.

A horrível situação pode ser melhor imaginada do que descrita. Horas e horas ficou metida na água até a cintura, agarrando nos braços o filhinho tenro, e sofrendo a funda agonia da fome e da fadiga. Caiu a noite com uma rapidez tropical; uma noite de horror interminável, que provou o máximo das suas faculdades de sofrimento. A aurora encontrou-a quase inanimada, com a única esperança de livrar-se da sua terrível posição e a imaginação do filho a sustentá-la. O Sol estava alto no céu quando ela percebeu que alguém se aproximava e, reunindo todas as suas forças, gritou mais uma vez. É de imaginar o seu terror quando viu aparecer na borda do poço a fisionomia, contraída pela cólera, do homem que, umas trinta e seis horas antes, a havia jogado ali, abandonando-a como morta!

O miserável estava de regresso de Sakarankoil, acompanhado dessa vez por um ajudante. Passando por ali, foi tomado de um desejo mórbido de tornar a ver o local do crime e, deixando o ajudante no ônibus, foi até ao poço.

Depressa compreendeu o que acontecera e, espicaçado pelo medo de que se descobrisse o crime, se a sua vítima fosse encontrada viva, resolveu, dessa vez, ter certeza da sua morte.

Apanhando um pedregulho do lado do poço, atirou-o à pobre mulher, que estava então quase sem sentidos. Com os nervos abalados, a sua pontaria não foi boa e a pedra caiu na água, sem ofender a ninguém.

Diante disso, ele se abaixou para apanhar outro projétil, mas, quando o fazia, a Providência interveio. As suas mãos já estavam na segunda pedra quando ele deu um violento grito de terror. Detrás da pedra, ergueu-se uma cabeça achatada, com olhos pequenos e malignos. Um corpo flexível avançou como um relâmpago e os dentes fatais de uma cobra enterraram-se no seu punho.

Para o pretendido assassino, era o fim. Sua morte foi rápida e agonizante, e, dentro de poucos minutos, ele jazia morto ao lado daquilo que acreditara ser a sepultura inominável da sua vítima.

Mas o ajudante, que estivera até então no ônibus, foi ver o que estava demorando o chofer. O veneno da serpente tinha já terminado o seu trabalho mortal, mas o nativo ainda teve tempo de ouvir os últimos gritos da mulher, que morriam, quando ela se afundou na água, desacordada. Com grande dificuldade, conseguiu ele retirá-la e transportou-a com a criança à aldeia mais próxima, onde ambas recobraram o alento. Da cobra — medonho instrumento de vingança — não se achou sinal.

E assim terminou uma das mais espantosas histórias do Oriente. É difícil acreditar, mas eu tive o trabalho de saber que os fatos todos foram verificados pelo inspetor de polícia de Sankarankiol (ou — como é mais conhecido na Índia Meridional — Sankaranainarcoil) e por um brâmane graduado em Ambasamandron, que conhecia não só o chofer, como a sua pretendida vítima.


Fonte: “Almanach Eu Sei Tudo”/RJ, 1940.

Ilustração do miolo: PS/Perchance.

 

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