O CAVALEIRO INVISÍVEL - Conto Clássico de Terror - Ernest Favenc

O CAVALEIRO INVISÍVEL

Ernest Favenc

(1845-1908)

Tradução de Paulo Soriano


A Lua estava cheia — quase no zênite — e as árvores altas, de ambos os lados, projetavam sombras negras sobre a trilha por onde eu cavalgava. As sombras eram abruptas e bem delineadas. De repente, ouvi o som de cascos de cavalo a me seguir. Olhei para trás para ver quem me alcançava. Para minha surpresa, não vi ninguém, malgrado o som das passadas me parecesse bem próximo, como se a montaria evoluísse rapidamente. Como isto aconteceu duas vezes, julguei que estava tendo uma alucinação e, quando as luzes da fazenda surgiram no horizonte, continuei a cavalgar satisfeito, já que uma desagradável e supersticiosa sensação estava prestes a me dominar.

A propriedade rual era de uma uma viúva duplamente enlutada, pois, seis meses após a morte do marido, o seu único filho — um jovem promissor de cerca de 18 ou 19 anos —, morreu quando, a apenas três milhas da fazenda, a casa desabou sobre a sua cabeça. Como eu morava numa fazenda vizinha, segui, como de costume, ao alojamento dos solteiros. Desmontei e soltei o meu cavalo. Uma recepção calorosa, um gole de Mackay e uma refeição simples, mas farta, afastaram prontamente todos os pensamentos sobrenaturais da minha mente.

Contudo, contei aos rapazes as estranhas fantasias que me vieram à cabeça durante o trajeto, e fiquei surpreso quando vi que eles levaram minha história a sério.

Já se ouviu esse som antes — disse Doyle, o mais velho dos homens presentes. — Foi numa noite de luar, como esta, que o jovem Murdoch morreu, exatamente nas paragens onde você ouviu as passadas. Ele estava galopando, com o jovem Mack atrás, quando o cavalo tropeçou e caiu sobre ele. Morreu na hora.

E será que ele só cavalga em noites de luar como esta?

É o que dizem. Mas essa não é toda a história. Foi naquela mesma noite que a Sra. Murdoch — sabe você como ela é severa — descobriu que a linda Maggie, a garota que ela criou com seu meio-empregado, meio-companheiro, provavelmente seria mãe. Ficou arrasada. E quando Maggie, envergonhada e aterrorizada, confessou que o jovem Murdoch era o pai, a mulher quase enlouqueceu. Como já era tarde, mandou-me atrelar os cavalos à charrete e me disse para levar Maggie à cidade — ela não a deixaria passar mais uma noite ali. Protestei, mas foi inútil, e, quando estávamos a umas três milhas de distância, pois aquela trilha é um atalho para a estrada, lá estava o corpo do homem — que jurara casar-se com ela e salvar-lhe a reputação — estendido ao luar na trilha empoeirada.

Garanto que não gostaria reviver aquela cena. O jovem negro chegou a cavalo e avisou-nos do incidente, e alguns homens saíram para resgatar o corpo. Consegui acalmar um pouco a moça e segui para a cidade; mas, na manhã seguinte, ela estava lá, com uma febre altíssima. Por isso, e por ter nascido morto o bebê prematuro, a pobre Maggie quase morreu também. Mas ela se recuperou e foi embora para algum lugar — ninguém sabia para onde. Desde então, o barulho de um cavalo pode ser ouvido ao longo daquela trilha nas noites de luar. Não sei se a Sra. Murdoch já ouviu falar disso, mas suponho que sim.

A senhora Murdoch logo deixou a fazenda, que lhe trazia memórias tão amargas. Doyle e os outros colegas foram-se embora um a um, até que finalmente não restou nenhum dos antigos empregados. O administrador precisava contratar um casal e encontrou um na cidade vizinha. O homem era um sujeito rude e mal-educado, enquanto a mulher era asseada e arrumada, com vestígios de uma beleza passada no seu rosto triste e desgastado; eles não tinham filhos. Não estavam lá há muito tempo quando se descobriu que ele tinha o hábito de bater na mulher e, ao ser confrontado por um dos outros homens sobre isso, mostrou-se um canalha. Mas isso não ajudou a pobre mulher, que, às escondidas, provavelmente recebeu novos castigos, por conta da intervenção do homem que o confrontara.

A história dos passos fantasmagóricos havia sido, naturalmente, transmitida boca a boca, e notava-se que, frequentemente, em noites enluaradas, a pobre mulher silenciosa saía furtivamente e caminhava pela trilha do fantasma, como era chamada. Certa noite, quando estava quase tão claro quanto o dia, um dos homens, fumando na varanda da cabana masculina, viu a mulher sair furtivamente pela trilha do fantasma. Pouco depois, ele percebeu o marido seguindo-a sorrateiramente e, temendo que ele tivesse maus intentos, o homem, o mesmo que já o havia confrontado, seguiu-o.

A mulher estava parada, olhando apreensiva para a estrada, quando o marido se aproximou e, agarrando-a pelo ombro, disse-lhe asperamente para voltar para casa. Ela recuou; ele ergueu o punho. Nesse instante, o observador ouviu a aproximação do cavalo e do cavaleiro invisíveis. Se a mulher realmente viu alguma coisa ou não, não era possível dizer; mas ela levantou as mãos e seu rosto se iluminou de alegria. Quanto ao marido, ele lançou um olhar rápido naquela direção, depois disparou, correndo para casa.

Depois disso, a mulher ficou livre para ir à trilha do fantasma quando quisesse, mas isso não alterou o comportamento do marido quando estavam na fazenda. Era por volta da meia-noite quando toda a casa foi despertada por um grito de terror mortal. Vinha do quarto ao lado da cozinha, onde o casal dormia. Correndo para lá, encontraram a mulher, seminua, sangrando no meio do quarto, com o rosto machucado por um golpe, e o homem estendido no chão, inconsciente.

A história contada pela mulher era a de que o marido havia discutido com ela e a agredira. Então, algo — ela não sabia o quê — interpusera-se entre eles, e o seu marido caiu no chão, soltando o grito que eles tinham ouvido. Quando o homem recuperou os sentidos, não conseguiu dizer nada, salvo que realmente batera na esposa e, então, fora derrubado imediatamente por algo que, segundo ele, era um punho em brasa. Curiosamente, havia agora uma queimadura nítida em sua têmpora, no lugar onde ele disse ter sido atingido.

A história era muito estranha. A pobre mulher não tinha forças para desferir um golpe tão forte, e o homem não poderia tê-lo feito sozinho. O mistério jamais foi solucionado, mas o homem ficou diferente depois disso; menos violento, conquanto mais taciturno e circunspecto. Alguns meses depois, um tiro distante foi ouvido, no meio da noite, por uma ou duas pessoas cujo sono era leve, mas ninguém se deu ao trabalho de se levantar e investigar o ocorrido. De manhã, o marido foi até o zelador e disse que, acidentalmente, havia atirado na esposa durante a noite.

A história dele era que havia seguido a esposa, suspeitando que as visitas dela ao esconderijo do fantasma fossem apenas uma fachada para encobrir um adultério. Ele viu a esposa sentada em um tronco ao lado de um jovem ou rapaz, que lhe abraçava a cintura. Então, ele mirou e atirou contra aquele rapaz, mas a bala atravessou o homem e atingiu a esposa.

O corpo da outrora bela Maggie foi encontrado no local indicado e enterrado ao lado do jovem. Desde então, o tropel do cavalo fantasmagórico nunca mais foi ouvido.

O autor da sua morte persistiu na sua história até o momento em que a alavanca foi puxada e ele mergulhou na eternidade. Afirmava que o jovem que abraçava a sua esposa não era um ser deste mundo, pois o disparo não teve efeito algum sobre ele. E o médico que examinou o cadáver da mulher assassinada contou uma história estranha, na qual poucos puderam acreditar."


Fonte: “The Stories of Ernest Favenc”,Volume VI, Austrália.

 

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