O GROU E O DRAGÃO D’ÁGUA - Conto Clássico Fantástico - Somadeva Bhatta

O GROU E O DRAGÃO D’ÁGUA

Somadeva Bhatta

(Séc. XI)



Há muito tempo, vivia um grou à beira dum lago repleto de peixes que, aterrorizados com a sua presença, dele fugiam.

Já que não conseguia apanhá-los, o grou, ardilosamente, contou-lhe uma história enganadora:

Chegou aqui um homem, com uma rede, que captura e mata os peixes. Ele logo os apanhará com sua rede e, depois, os matará. Portanto, confiem em mim e sigam o meu conselho. Há, num lugar isolado, um lago translúcido, desconhecido dos pescadores destas paragens. Eu os levarei até lá e, um por um, tratarei de infiltrá-los placidamente em suas águas. Sem dúvida, lá vocês poderão viver tranquilamente, a salvo de perigos.

Os tolos peixes, amedrontados com notícia propalada pela ave, responderam:

Sim, leve-nos para o novo lago! Nós confiamos em você.

Então o traiçoeiro grou levou, um por um, muitos peixes. E, depositando-os sobre uma laje rochosa, os devorou. ​​

Um certo dragão-d’água (makara), que habitava aquele lago, vendo o grou apanhar e levar os peixes, disse-lhe:

Para onde os está levando?

O grou repetiu exatamente o que dissera aos peixes.

Ouvindo isto, o dragão-dágua, aterrorizado, disse:

Leve-me lá também!

Incitado com a apetitosa fragrância do dragão-d’água, o grou o apanhou e, voando alto, levou-o à laje rochosa. Todavia, ao aproximar-se da pedra, o dragão-d’água viu os fragmentos dos ossos do peixe que o grou havia comido e percebeu que aquela ave tinha o hábito de devorar todos aqueles que nela depositavam confiança.

Assim que o sagaz dragão-d’água pousou na pedra, decepou, com total presença de espírito, a cabeça do grou. E, voltando ao lago, contou aos peixes remanescentes o ocorrido, exatamente como acontecera. E estes, encantados, aclamaram-no o salvador de suas vidas.

A prudência é, de fato um poder.


Versão em português e breve adaptação textual de Paulo, a partir da tradução ao inglês de Charles Henry Tawney (The Kathá Sarit Ságara or Ocean of the Streams of Story, Calcutá, 1880).

 

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