O OUTRO LADO DO ESPELHO - Conto de Terror - David Machado Santos Filho

O OUTRO LADO DO ESPELHO

David Machado Santos Filho



Um rosto me encarava do outro lado do espelho. Não era o meu...

Pelo menos, não era o meu como eu o conhecia. Era meu reflexo, sim, mas era um estranho. Os olhos, embora da mesma cor, possuíam uma frieza que nunca me pertencia, um brilho calculista que me fez recuar um passo. A boca, uma linha fina e sem emoção, parecia zombar da minha própria expressão de pavor.

Fiquei paralisado, o coração batendo descompassadamente contra as costelas. O medo me corroía, um medo visceral de me mover e o reflexo não me acompanhar. E se ele ficasse lá, imóvel, enquanto eu tentava fugir? A ideia de quebrar a simetria, de testar a realidade, era mais aterrorizante do que a própria imagem. Cada segundo de imobilidade era uma aposta, um teste para ver se as leis da física ainda se aplicavam a mim. A respiração ficou presa na garganta. O simples ato de piscar se tornou um risco aterrorizante.

Fechei os olhos com força, desejando que a imagem se dissolvesse, que tudo voltasse ao normal. Um segundo, dois, três... O silêncio do banheiro era ensurdecedor, quebrado apenas pelo zumbido do meu próprio sangue nas veias. Quando abri os olhos, o reflexo não estava mais atrás do espelho. Estava ao meu lado.

O ar se tornou gelo. O alívio de não ver mais a figura no espelho durou apenas um instante, estilhaçado pela percepção mais terrível de todas. Não havia mais a barreira segura do vidro. A anomalia não estava mais contida. Ela cruzara o limiar e agora compartilhava o meu espaço, a minha realidade. A presença ao meu lado era uma ausência de som, uma mancha no canto do olho. O medo agora tinha uma nova dimensão. Não era mais sobre o que poderia acontecer, mas sobre o que estava acontecendo. A questão deixava de ser "o que é aquilo?" para se tornar "o que ele vai fazer comigo?".

Então, a figura me tocou. Não foi um toque violento. Foi frio. Um frio que não vinha da temperatura da sala, mas de algo mais profundo, como a ausência de vida. Ele se espalhou a partir do ponto de contato – o ombro – e percorreu minha pele como uma teia de aranha de gelo, paralisando não apenas os músculos, mas a própria alma. O ar que eu respirava parecia pesado, roubado. O silêncio foi quebrado apenas pela batida descontrolada do meu coração, um som que parecia alto demais, quase vulgar, na presença dessa quietude mortal. O toque não era uma agressão, era uma reivindicação.

O toque gélido da criatura não foi apenas físico; ele foi uma chave que destrancou uma porta esquecida na minha mente. No momento em que os dedos dela encontraram minha pele, a realidade ao meu redor se dissolveu e fui arremessado para dentro de uma visão avassaladora. A visão começou com fragmentos: momentos de solidão profunda, de autoquestionamento, de noites passadas encarando meu próprio reflexo, buscando algo que não encontrava. Havia uma sensação avassaladora de insatisfação, de um vazio que eu tentava preencher com validação externa, com a imagem que projetava para o mundo. Eu via as horas gastas aprimorando uma persona, um eu idealizado, enquanto o verdadeiro eu se sentia cada vez mais distante, mais... estranho.

Então, a visão se aprofundou. Eu me via, anos atrás, talvez na adolescência, ou em um momento de grande vulnerabilidade. Havia um desejo intenso, quase desesperado, de ser diferente, de ser melhor. Eu me lembrava de um pensamento fugaz, um sussurro na mente: "Eu queria que meu reflexo fosse a pessoa que eu deveria ser, a pessoa que eu realmente sou, sem todas essas falhas." E nesse desejo, nessa fissura da minha própria psique, algo nasceu. Não era um demônio, nem um fantasma externo. Era uma parte de mim. Uma manifestação da minha autocrítica, da minha insatisfação, do meu anseio por uma versão idealizada de mim mesmo. O reflexo, alimentado por minha própria energia emocional, começou a ganhar uma existência tênue, uma consciência própria, separada da minha. Ele observava. Ele aprendia. Ele se tornava a personificação de tudo o que eu queria ser e de tudo o que eu temia ser. O estranho no espelho não era um invasor, mas uma criação minha, um eu alternativo que eu, inconscientemente, dei vida. E agora, ele não estava mais satisfeito em ser apenas uma imagem. Ele queria o meu lugar. Ele queria ser eu.

Com a revelação da sua origem, o pânico deu lugar a uma determinação fria. Se ela era uma parte de mim, uma fragmentação da minha própria alma alimentada por anos de negação, então talvez a única forma de sobreviver fosse desfazer essa divisão. Eu decidi não lutar contra ela como um inimigo, mas acolhê-la como uma ferida que precisava ser fechada. Ergui a mão trêmula, não para afastar a figura, mas para tocá-la de volta. Se ela era uma parte de mim, então a única solução era a reintegração. Meus dedos roçaram a pele gélida do reflexo, e uma corrente elétrica, mais de reconhecimento do que de dor, percorreu meu braço.

Os olhos da figura, antes vazios, ganharam uma profundidade estranha, como se estivessem me vendo pela primeira vez, ou talvez, se reconhecendo. Senti uma atração poderosa, um puxão para dentro dela, e ao mesmo tempo, uma força que a atraía para dentro de mim. Era uma batalha silenciosa, não de força bruta, mas de vontades, de identidades. Eu me concentrei, visualizando a mim mesmo como um todo, um recipiente que precisava ser preenchido. Pensei em todas as qualidades que eu reneguei, nos medos que me fizeram criar essa projeção. Houve uma dor lancinante, como se fibras invisíveis estivessem sendo esticadas e rompidas, mas persisti. A figura, antes tão sólida e distinta, começou a vacilar, suas bordas se tornando translúcidas, como fumaça.

Uma onda de memórias, não minhas, mas dela, inundou minha mente: os momentos em que ela observava, os pensamentos que ela absorvia, a solidão de ser uma existência sem corpo, apenas uma sombra do que poderia ser. Havia uma tristeza profunda, uma melancólica existência que nunca foi plenamente vivida. E então, um suspiro, quase inaudível, escapou dos lábios da figura. Ela não resistiu mais. Seus traços se dissolveram, escorrendo como areia entre meus dedos. O frio em meu ombro se intensificou por um breve instante, e então, desapareceu. Senti um vazio, mas não o vazio de antes. Era um vazio que se preencheu imediatamente com uma sensação de completude, de peso, como se uma parte perdida de mim tivesse finalmente retornado. Uma exaustão profunda me atingiu, e cambaleei, apoiando-me na parede fria do banheiro.

Quando finalmente levantei a cabeça, o espelho estava lá. E o reflexo... era o meu. Mas havia uma diferença sutil nos olhos, uma profundidade que não existia antes, uma aceitação silenciosa de todas as minhas imperfeições. O estranho se foi, mas deixou sua marca, uma lembrança de que a verdadeira identidade é um mosaico complexo, e que cada fragmento, mesmo os mais sombrios, faz parte do todo. O silêncio no banheiro agora era absoluto, mas não mais opressor. Eu encarava o espelho e, pela primeira vez em muito tempo, reconhecia plenamente quem estava do outro lado.

Mas a sensação de completude, o alívio que me inundou, desmoronou em um instante. Não foi reintegração, foi substituição. O toque gélido não era um convite à união, mas um selo, uma troca. Tentei me mover, mas meus membros responderam com uma lentidão irreal, como se estivessem submersos em um líquido denso e invisível. O banheiro, antes tão familiar, agora parecia distante, embaçado, como uma pintura atrás de um vidro.

Meu olhar se voltou para o espelho, mas não era mais um espelho. Era uma janela. E através dela, eu via eu – o reflexo – virar as costas para o vidro, um sorriso sutil e satisfeito brincando nos lábios que deveriam ser meus. Ele caminhou para fora do banheiro, seus passos firmes e decididos, ecoando no corredor. Ele estava livre. Ele estava no meu mundo. Ele era eu.

O pânico se instalou, frio e cortante. Tentei gritar, mas nenhum som escapou. Minha voz, minha essência, estava presa ali, naquele não-lugar atrás do 8. Bati contra a superfície invisível, mas não houve impacto, apenas uma vibração silenciosa que se dissipou no vazio. O mundo real se afastava, e eu era deixado em um limbo de observação, um prisioneiro da minha própria imagem. A realidade se inverteu de forma cruel. Eu, o original, era agora o reflexo, condenado a observar minha própria vida ser vivida por um impostor. O terror não era mais o medo do desconhecido, mas o horror da perda total, da aniquilação da minha própria existência. Eu era uma sombra, um eco, um prisioneiro em minha própria prisão de vidro, enquanto o estranho caminhava livre, lá fora, sob o sol que nunca mais seria meu.

Eu estava preso atrás do espelho…



Fonte: https://www.recantodasletras.com.br/contosdeterror/8556809. Obra licenciada com licença Licença Creative Commons (CC BY-NC-SA 2.5 BR).


    


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