UM CADÁVER INQUIETO - Conto Clássico de Terror - Ernest Favenc
UM CADÁVER INQUIETO
Ernest Favenc
(1845-1908)
Tradução de Paulo Soriano
— Sou-West? Vocês devem pegar a estrada a partir de Watervale — disse, dirigindo-se a dois viajantes com cavalos de carga, o chefe da equipe de reparos na linha telegráfica terrestre. — Mas, por aqui, é extremamente acidentado. Aconselharia vocês a voltarem para Watervale e seguirem a estrada. No final, vocês verão que é mais curto.
— Não gostaríamos de fazer um retorno — disse um dos homens —, e os nossos cavalos estão bem-dispostos e ferrados.
— Ah, não são bem pedras no caminho, senão dunas — areia branca e pinheiro. No entanto, é melhor pararem aqui e partirem amanhã de manhã, pois só há um lugar onde podem contar com água no caminho: um riacho mais ou menos na metade do percurso.
— O que aconteceu com aquele velho maluco, que andava por aqui há seis meses? — perguntou um dos eletricistas, dirigindo-se ao pessoal que jantava naquela noite.
— Nunca mais ouvi falar dele— respondeu outro. — Mas diziam terem visto os seus rastros seguindo na direção para onde vocês dois, viajantes, estão indo. Outros dizem que os cavalos do velho apareceram em Watervale, mas nunca soube se isso era mesmo verdade.
Na manhã seguinte, os dois homens partiram e, à tardinha, chegaram ao riacho que lhes indicaram. Era um lugar desolado: um filete d’água arenoso, que abria caminho entre áridas dunas brancas, sobre as quais pinheiros esguios e angulosos estendiam seus galhos nus. Havia um pouco de grama na margem, e os viajantes logo soltaram seus cavalos cansados, pois a viagem havia sido árdua o dia todo.
— O que é aquilo lá no meio do morro, Jack? — perguntou um deles.
— Parece que são os trapos de uma barraca velha. Vamos subir e ver.
Eram mesmo os trapos de uma velha tenda, que o vento reduzira a tiras, e o falecido dono estava sentado de costas para uma árvore, como se estivesse, complacentemente, a contemplar os destroços de seus pertences. Estava morto há alguns meses, e o calor do verão o ressecara até transformá-lo numa múmia.
— Que diabos é aquilo em volta do seu pescoço? — perguntou Alf, enquanto observavam a relíquia.
Eles avançaram e encontraram um cinturão em volta do pescoço do cadáver, como um laço improvisado, com a ponta da cinta passada pela fivela e quase totalmente esticada.
— Parece que ele foi enforcado e solto novamente — disse Jack, olhando para a árvore.
Havia um galho suspeito, convenientemente posicionado logo acima. Encontraram uma sela de carga e outra de montaria no acampamento, além de outros pertences que um homem costuma carregar em áreas rurais; porém, os cães haviam estado à solta e o couro fora danificado pelo tempo.
— Seja lá quem for, parece-me que se trata daquele velho maluco de quem os homens falaram. Acho melhor enterrá-lo amanhã de manhã; já é muito tarde para tanto—disse Jack.
— Por que diabos ele quis morrer aqui? — resmungou Alf, que parecia encarar aquela situação como uma afronta pessoal.
— Acho que ele poderia bem escolher o lugar adequado, não é mesmo? — retrucou Jack. — Embora, por falar nisso, eu não veja por que ele teve que morrer aqui. Não é um lugar alegre, certamente, mas não há motivo para um homem morrer por causa disso.
Os homens prepararam e comeram a refeição, e logo adormeceram profundamente.
Jack acordou no meio da noite, olhou em volta e atentou para perceber onde estariam os cavalos. Apesar do luar brilhante, o lugar, que semelhava sombrio durante o dia, à noite parecia mais ainda. A areia branca e nua e as árvores escuras, com suas réstias negras, não combinavam para formar uma imagem animadora. O vento uivava, produzindo um som melancólico entre os ramos dos pinheiros. A atenção de Jack foi atraída pelo bater da velha tenda no alto da colina. Ele olhou naquela direção, sobressaltou-se, levantou-se num salto e fitou o local com atenção. Olhou para Alf, mas ele dormia profundamente. O que ele pensou ter visto foi uma figura escura saltando e agitando os braços sob a árvore onde jazia o cadáver.
— Deve ser um galho se mexendo —murmurou Jack. — De qualquer forma, vou, sem acordar Alf, ver o que é.
Colocando o cinto e o revólver, dirigiu-se silenciosamente ao local e deparou-se com uma cena estranha. O cadáver se levantara e se entregava a estranhas e impróprias travessuras — saltando no ar e tentando atirar a ponta do cinturão, que estava em volta do pescoço, por cima do galho alto.
Por fim, desistiu e gemeu tão miseravelmente que Jack sentiu pena; ele era um camarada de coração mole.
— Qual é o problema, meu velho? — perguntou ele.
— Qual é o problema? — gemeu o cadáver. — Tenho que ficar aqui, empoleirado neste cume, sem descanso, até que eu me tenha enforcado.
— Por que quer se enforcar? Eu acho que você não precisa fazer isso. (Jack me contou essa história e me disse que se sentiu bastante calmo durante toda a conversa.)
— Você não me entende — respondeu o cadáver. — Todos os membros família se enforcaram. Meu pai, meu avô e meu tio Bill. Meu primo Ned foi enforcado pelo carrasco. Ora, meu tio Bill era um velho rabugento e ranzinza, que sempre me detestou, e, antes de se matar, escreveu uma carta na qual dizia: “Desconfio que o meu sobrinho Frank (ou seja, eu), quando chegar a hora, vai profanar a tradição da família. Não duvidem disto.”E foi isto o que disse o velho difamador.
“Ora, isto muito me magoou, incomodou-me bastante. Um dia, tentei provar que o velho tio Bill era um mentiroso, mas fui repreendido por um magistrado, e acabei por estragar tudo. Tentei outra vez, mas o resultado se repetiu. A mesma coisa aconteceu na terceira vez, e eu já estava ficando cansado disso. Então decidi vir para um lugar mais afastado, onde um homem pudesse ter uma vida justa. Tive uma grande vontade de trabalhar nos postos de telégrafo, mas não achei que fosse justo, porque os rapazes que serviam na linha eram muito sociáveis. Então eu vim para cá, e, acredite se quiser, no mesmo dia em que cheguei, fui acometido por uma febre terrível.
“Você sabe como é a febre, como ela mina os joelhos, o pescoço, a coluna e tudo mais. Como consegui chegar aqui, eu não sei; mas, de alguma forma, consegui, e aqui precisei acampar. Eu estava mal, fora de mim por alguns dias, e, quando consegui me locomover, descobri que meus cavalos, tendo chegado à conclusão de que aquele era um antro esquecido por Deus, haviam fugido. Então me dei conta de que aquela era a minha chance. Aqui estava eu, sozinho, sem ninguém para me impedir; eu mostraria ao tio Bill que seria fiel à tradição da família. E, então, então… (Aqui o cadáver gritou de agonia.)
“Eu estava fraco demais, com as articulações debilitadas ao extremo, para jogar aquele maldito cinturão por cima do galho! Tentei, tentei e tentei… Finalmente, consegui fazer uma espécie laço, mas quase sufoquei, e, estando muito fraco, caí debaixo da árvore e morri.”
O cadáver ficou em silêncio por um tempo.
— Desde então — continuou o falecido —, tenho sido atormentado pelo velho tio Bill, que vem e zomba de mim. Noite após noite, tenho tentado fazer a coisa direito e falhado. E, até hoje, ninguém veio em meu socorro. Agora — continuou o cadáver, num tom persuasivo —, você se importaria de me dar uma mãozinha? É só dar um puxãozinho no cinturão, sabe? Jogá-lo primeiro por cima do galho.
Jack pegou o cinto e ponderou. Não haveria mal nenhum em enforcar um morto que tanto queria pôr um fim àquele suplício. O cadáver assumiu sua posição e jogou o cinturão sobre o galho, mas este era curto demais para alcançá-lo.
— Espere um pouquinho — disse Jack. — Vou apanhar um dos nossos e afivelar.
Jack foi ao acampamento e pegou um cinto. Alf ainda roncava, e o morto o aguardava com um celestial sorriso de expectativa no rosto.
— Então — disse Jack — diga quando estiver pronto.
— Pronto! —gritou o cadáver.
— Suba aí — disse Jack.
Ele subiu até a metade do galho. Jack deu uma volta e fez alguns nós no tronco. Depois, dando boa-noite, retornou ao acampamento e dormiu profundamente até de manhã.
Os dois viajantes levantaram-se ao amanhecer. Alf foi atrás dos cavalos, que tinham descido o riacho na direção oposta. Jack preparou o café da manhã e olhou para o local de sua aventura da meia-noite, mas não havia nada pendurado na árvore. Então concluiu que tivera um pesadelo e decidiu que nada falaria sobre o ocorrido. Logo depois, Alf voltou com os cavalos e eles tomaram café da manhã.
— Acho melhor irmos enterrar aquele sujeito — resmungou Alf. — Ainda bem que o solo está macio.
Jack concordou e eles seguiram. Ao chegarem ao local, Alf olhou em volta e ficou surpreso.
Não é de admirar! O corpo jazia sob o ramo, a cabeça um pouco afastada, e o laço vazio balançava sob o galho. Evidentemente, o pescoço do falecido não suportara a tensão. Jack permaneceu em silêncio. Então, Alf caminhou até lugar onde o segundo cinturão estava atado e o examinou.
—Macacos me mordam se ele não veio buscar o meu cinto! — murmurou, ao reconhecer as suas iniciais nele gravadas. Então o desatou e saiu, dizendo a Jack enquanto se afastava:
—Olhe aqui! Se aquele sujeito conseguiu levantar-se ontem à noite e enforcar-se com o meu cinto, que se enterre sozinho.
Fonte: “The Stories of Ernest Favenc”,Volume VI, Austrália.

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