À PORTA DO CEMITÉRIO - Conto Clássico de Terror - Carlos Leite

À PORTA DO CEMITÉRIO

Carlos Leite

(Séc. XX)


Não sei que pressentimento me atormentava naquela noite. Boêmio incorrigível, conhecia o Rio como um bom carioca e chegara de uma feita a embarcar pela madrugada, aliás em lugar perigoso do “bas fond”, para correr aventuras numa das ilhas do fundo da Guanabara.

Seresteiro” impenitente, um nômade dentro da grande área da nossa capital, sentimental como a guitarra do gaúcho, à hora do “milongueio”, jamais quisera um método de vida. Olhava tudo por um prisma tão diferente! Nada de vínculos sociais, nem preconceitos religiosos. Ah, se pudesse ter vivido na época da mitologia, restaurar suas legendas tão suaves, ou seus ritos e as suas festas tão exóticas! Outras vezes, pensava ser um Gorki — o rei dos vagabundos — sem preocupações, a estudar a humanidade como tem que ser analisada. A vida do deserto me sorria — um beduíno tendo como companheiro o camelo inofensivo, longe do homem e mais próximo do chacal, menos perigoso que aquele. Tudo no mundo era para mim feito de contrassensos e ilogismos, só ficções e mentiras, com os energúmenos no alto da célebre bengala da política e, na ponteira, eu e os pobres de espírito, mas ricos de espírito e no pleno desabrochar de promissoras inteligências. Nada como o viver à vontade dentro de uma natureza luxuriante, a correr localidades, não me submetendo à sujeição alguma! Absorto de ideias e nada de filosofia. A lanterna de Diógenes carregasse quem a quisesse. Melhor no areópago, ante a nudez estonteante de uma Frineia, ou nos braços de Anfritite, numa praia maravilhosa, onde o mar também morresse em contorções de espuma. Queria a vida no que ela tem de mais puro e verdadeiro, onde não há mentiras e nem convenções.

Naquela noite, à cadência apaixonada dos tangos, parecia que qualquer coisa gemia dolorosamente dentro de mim. Naquela noite, o “jazz band” eram os meus nervos. Eu não dançava. Turbilhões de pensamentos no cérebro, como se fosse uma Marinoni a rodar louca, vertiginosamente. Até então, não bebera. Se o fizesse, talvez escaldasse a própria vida.

Nem eu mesmo traduzia a incoerência do meu espírito. Aquilo não era um baile. Talvez que, nas orgias dionisíacas, a bacanal não atingisse os limites da licenciosidade como naquela noite. Que mais poderia desejar? À luz das lampadas azuis e encarnadas — misto de inocência e impudicícia, as carnes das mulheres —, ninfas em tropel — tinham cintilações. Cada qual mais apetitosa, mais lúbrica, num abandono admirável de suas volúpias. Qualquer mulher daquelas, assim nuas e impudicas, maravilhosas na opulência dos seios, risos a despontarem de cíatos divinos, era capitosa bebida. Umas, o champanhe a provocar arrepios macios, outras, o absíntio, gerador de contorções de cio. Eram as sacerdotisas da Beleza e do Prazer.

E na ebriez da volúpia, senti viver em todas as épocas. Fui fauno, de pelos carnicabros e picarços, a perseguir as ninfas, sedentas e com estremecimentos eróticos; romano a raptar as sabinas, que estrebuchavam de prazer em meus braços; um Mohamed qualquer entre odaliscas num harém de perfumes e flores; um oriental entre espirais de ópio e mulheres vendedoras de amor. Vivi todos os tempos do paganismo e os dias voluptuosos da Grécia e de Roma, com despudoradas messalinas e irriquietas “houris”.

Afinal, fugi do paraíso infernal, onde o nu exaltava a imaginação e a musica punha tremuras na alma. Ganhei a rua. No sudário da noite, lampejavam as estrelas e fresca viração, benfazeja e boa, ia-me reanimando, acalmando o meu espírito.

Coordenando ideias, aproveitando os benefícios que me trazia o mar a murmurar suavemente no extenso areal, desci a praia do Retiro Saudoso. Seriam aproximadamente duas horas da madrugada. Bonde, talvez só o encontrasse com facilidade no Campo de São Cristóvão, onde as linhas se bifurcam no emaranhado de “rails”.

Alcançar aquele ponto seria passar pelos portões e muros de três cemitérios. Se o homem vivo não presta, quanto mais o morto!

Eu, que fugira de um paraíso, onde tudo ressumbrava vida, ia me aproximar do lugar da Morte. Senti pavor.

Tive ímpetos de voltar e desejos de encontrar um camarada para a escalada tormentosa, daquele trecho de defuntos.

Quanto mais me distanciava do Retiro Saudoso, mais ia cedendo ao peso de tétricos pensamentos. Cheguei até a ruminar a etimologia da palavra cemitério. Fui filólogo um dia! A dúvida era atroz — “coemeterium” do latim, ou “koimeterion”, do grego? Onde resolver o grave problema? Não se apanha assim à mão um Oiticica nem um Mário Barreto.

A questão é que a dúvida mais me desconcertava o espírito, a pensar maduramente no “koimáō” dos homens de Atenas e nas suas necrópoles. Nisto, o chapinhar de remos no mar foi como nova ferroada em meus nervos. Até julguei que já fosse o Caronte, pronto a levar-me pelo Estige fora.

Noite do pavores e arrepios de medo. Tudo era anátemas, cada qual mais horripilante. As árvores tomavam o aspecto de formidáveis cenotáfios e um deles naturalmente para mim. Senti a algidez das catacumbas e então pensei seriamente no “hodie mihi”. Filosofei, bati aos peitos, arrependido dos meus feios pecados. Não fosse ali morrer num insulto cardíaco. Misturei, como um boticário da roça, tal a exaltação do meu cérebro, as prédicas dos doutores da Igreja com as teorias de Kardec. Perguntava a mim mesmo, como, sendo descendente de um “pithecanthropus”, morreria miseravelmente como um homem... A minha alma, depois, não andaria errante entre os espaços planetários; não se tornaria o caboclo das macumbas ou não se transmigraria para o corpo de um burro da Limpeza Pública? Era pão “cá tá parta!” Tudo isso me arrepiava. O espírito já começava a transcolar pelos poros. Na volta de uma esquina, um esbarro. Tudo dentro de mim, parecia a Josephine Backer em saracoteios infernais.

Uma mulher se me afigurou um daqueles formidáveis mamutes dos museus históricos. Sosseguei; repus os nervos em seus devidos lugares, como se fosse o Henrique Roxo de mim mesmo.

Era uma mulher de fato, que à luz clorótica de um lampião se me me pareceu divinamente bela. Vestida, era como que mais devassa do que aquelas que, nuas e impudicas, ficaram no baile. Afinal, o acaso punha um companheiro para a travessia fatal. Era uma mulher, na verdade, mas o medo é feito de paradoxos. Encontrasse um homem e talvez o tomasse como um ladrão, como um celerado. E aquela mulher de carne tão macia, olhar em que luziam duas estrelas, era a companheira ideal para atravessar aquele ponto, onde perambulavam as almas impiedosas. Na frágil criatura descaçaria o meu grande medo.

Esbarro providencial. Falamos eu e a criaturinha, que trazia sobre o corpo o próprio manto da noite. Nunca uma voz teve tanta flexibilidade, tamanhas sinuosidades. Era feita de arminho e seda. Fugira da bacanal, mas aquela mulher discretamente vestida, reanimava em mim o vulcão de desejos lúbricos. Aconcheguei-a ao meu corpo. As suas carnes queimavam como fogo. Mais uma vez a imaginação a exaltar-se — desejos de um “boudoir”, onde ressurtissem espelhos e lâmpadas vermelhas, reflexos da loucura dos meus estos eróticos. Excitado, desejava, mesmo na rua, beijar loucamente aquela carne estuante, que tanto prometia.

Falamos. Disse quem era. Uma mulher, ainda jovem, sem preconceitos, ávida de sensações extravagantes, de explosões de amor. Voltara também de um baile, onde tudo lhe fora insípido. Ninguém satisfeito — ela da inocência de uma “soirée” familiar e eu da impudicícia de uma bacanal. Contrastes da vida. Sem rebuços, confessava que o temperamento exigia mais do que simples volteios numa sala, onde só encontrara efebos de cara empomadada. Morava ali perto e, sem compromissos, me receberia, contanto prometesse eu viver o resto daquela noite em seus braços. Fauno e Messalina, a passearem sob a lua, onde se estampava um olhar de malícia. Prometia tudo. Nos holocaustos a Vênus, ninguém poderia me suplantar naquela noite. Seria Paris ou os negros da Líbia nos braços das Messalinas romanas. O meu sangue eram ondas de opio, cocaína e cantáridas.

Desembocamos enfim na praia do Caju. Lá se estendia o muro que separa a cidade dos vivos da cidade dos mortos. Mesmo acompanhado, sentia o corpo arrepiado. Tudo aquilo devia estar impregnado de coisas do além-tumulo. Manchas no paredão eram como almas ali chapadas. Olhar esbugalhado, a boca no ríctus apavalhante, estremecia ao mais leve rumor. A própria companheira se me apresentava agora feita de fosforescências — como que o fogo-fátuo dos campos santos. As pernas chumbavam-me ao solo. Ou a vista me fugia, ou aquela mulher já não mais tinha feições. Os olhos eram dois braseiros a se caburlarem no vácuo.

Que sentes, amorzinho?

Aquela voz já não tinha o timbre aveludado de há pouco. Pareciam antes gemidos vindos das covas próximas.

Nada. Quero vencer esse trecho. Nunca vi coisa assim interminável.

Retumbou uma gargalhada sinistra, que ecoou lúgubre. Outras gargalhadas apavorantes reboaram na solidão da noite.

Arrisquei a mão sobre a mulher. Os vestidos estavam ocos. Eram farrapos de pano que se desfiavam ao vento.

Moras muito longe? —arrisquei uma pergunta.

Os dentes tremiam. Uma sensação de frio nas extremidades. Arrastava-me, pesadamente, na inconsciência de mim mesmo.

Defrontamos o principal portão do cemitério do Caju. Olhos semicerrados, nem queria olhar. Aquela hora as almas penadas deviam estar em desenvolto “cancan” como as impudicas do baile dó Retiro Saudoso.

Não querias saber onde moro?

Já não era mais voz — apenas sons cavernosos que vinham das entranhas da terra; um desses gritos de hienas no recesso das florestas.

Parei. Num segundo, um caos no cérebro, que fervia. Adivinhava a verdade…

Cabelos eriçados, olhos fora das órbitas, estarrecido, como atarraxado ao chão, olhei. Múmia ou esqueleto humano, já sem vestido — uma visão translúcida e fosforescente a coar-se pelo pesado portão da necrópole.

É aqui. Se me queres, podes entrar.



*


Ali fiquei desacordado, até que, rompendo a claridade, vieram-me socorrer os primeiros transeuntes.

Desde então, não mais passei por um cemitério. Só o farei quando a carcaça já não mais precisar da sua alma.


Fonte: “Primeira”/RJ, edição de 10 de setembro de 1928.

 

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