A TRAGÉDIA DA FAMÍLIA YIN - Conto Clássico de Terror - John Macgowan

A TRAGÉDIA DA FAMÍLIA YIN

John Macgowan

(1726 – 1780)


Vivia, num certo distrito de uma das províncias do centro da China, um homem chamado Yin. Possuidor de consideráveis ​​bens, a sua grande ambição era a de se destacar na vida. O único desejo do seu coração, que parecia superar todos os demais, consistia em que sua família viesse a tornar-se aristocrática.

Até onde ele sabia, nenhum de seus antecessores mais próximos fora um erudito notável ou conquistara qualquer honra nos grandes exames trienais. O resultado era que sua família era plebeia, da qual nenhum mandarim jamais havia surgido. Como, então, poderia ele garantir que a fama e as dignidades, que haviam sido concedidas a alguns clãs da região em que vivia, recaíssem sobre sua casa e seus netos?

Malgrado fosse rico, era um homem iletrado, e toda a sua fortuna fora adquirida no comércio. Quando jovem, sua educação fora negligenciada, já que a sua juventude se resumira à luta pela sobrevivência. Conquanto tenha obtido um grande sucesso, as honras de um estudante jamais lhe seriam concedidas, e nunca poderia ocupar um cargo no império. Ocorreu-lhe, contudo, que, embora lhe fosse impossível classificar-se entre os grandes eruditos da China, seus filhos e netos poderiam ser assim honrados. Nesse caso, a glória do sucesso dos descendentes sobre ele recairia, e os homens falariam dele como o chefe de uma família que se destacara pela erudição e pelas posições de destaque no Estado.

Finalmente, ele chegou à seguinte conclusão: a forma mais eficaz de alcançar o objetivo colimado era garantir um auspicioso cemitério onde pudesse sepultar os corpos de seu pai e de seu avô, que haviam falecido alguns anos antes. A crença universal de que, de alguma misteriosa maneira, têm os mortos de conceder riqueza, honras e prosperidades aos membros sobreviventes de suas famílias era algo que o Sr. Yin defendia com muita tenacidade. Esta crença lhe indicava como poderia emergir do caminho ordinário e monótono, seguido por seus ancestrais, e trilhar o caminho onde favores reais e distinção oficial marcariam, no futuro, a sua posteridade.

Como se havia aposentado dos negócios, poderia agora dedicar quase todo o seu tempo a percorrer o país em busca dos locais onde certas forças invisíveis se concentravam com um poder tão dominante e avassalador que o corpo de qualquer pessoa, ali sepultada, concederia riquezas e dignidades incalculáveis ​​aos seus parentes mais próximos. Destarte, acompanhado por um professor da arte divinatória, cujo estudo daquela complexa ciência lhe permitia detectar, num relance, os lugares que preenchiam as condições necessárias, Yin fazia frequentes excursões pelas regiões ao redor de sua casa.

Os vales por onde corriam os riachos, e onde o som das águas correntes podia ser ouvido dia e noite, enquanto cantavam em seu caminho para o mar, foram todos explorados. Onde quer que a água e as colinas se encontrassem, em feliz conjunção, lá estavam esses dois homens, perscrutando o terreno; e, com a ajuda de uma bússola, que o professor carregava consigo em uma sacola de pano, observavam se as linhas que traçavam indicavam que o misterioso Dragão, ali embaixo, fazia a sua morada.

Inúmeros lugares foram cuidadosamente examinados e, malgrado alguns deles fossem admiravelmente adequados para uma pessoa de ambição ordinária, não satisfaziam as grandes expectativas para o futuro acalentado pelo Sr. Yin. As colinas elevadas, os riachos sinuosos e a vista distante das montanhas envoltas em névoa indicavam, talvez, que uma prosperidade moderada seria o destino daqueles cujos parentes ali seriam sepultados; mas não havia sinais de preeminência no conhecimento, nem de mandarins cavalgando em liteiras, com grandes comitivas a acompanhá-los, enquanto desfilavam com altiva dignidade pelas ruas da cidade que governavam. Por inadequados, estes locais foram, portanto, rejeitados.

Dias e meses se passaram nessa busca por um ambiente que se ligasse o destino da família Yin por muitas gerações; mas todos os lugares falhavam em um ou dois detalhes que teriam comprometido a esplêndida perspectiva que a ambição desse homem rico vislumbrava.

Finalmente, certo dia, enquanto caminhavam tranquilamente com os olhos atentos e perspicazes, pararam por um instante para descansar no topo de uma pequena colina que tinham acabado de subir. Mal haviam lançado um rápido olhar à linda paisagem que se estendia diante deles, o professor, com os olhos brilhando e um incomum entusiasmo, exclamou, com a voz empolgada:

Veja! É este o lugar que estávamos procurando todos esses dias! Em toda China, não se poderia encontrar lugar mais adequado. Estamos, por assim dizer, no centro de um grande anfiteatro, onde se reúnem as melhores forças de Feng Shui. Atrás de nós, a colina ergue-se numa graciosa forma semicircular, protegendo o local onde os mortos serão sepultados das rajadas do norte e, também, dos espíritos ferozes e malignos que vêm voando nas asas dos grandes vendavais que sopram com o toque do gelo e da neve. Na planície à nossa frente, espalhadas por sua superfície, suaves elevações indicam onde o Dragão repousa, esperando conceder os seus favores a todos que se aproximarem de sua mágica influência. E observe como o rio serpenteia, aparentemente relutante em abandonar um local onde as influências invisíveis atuam para enriquecer os lares e alegrar os corações dos homens e mulheres desta região. Vejam como ele flui impetuosamente em direção ao mar, e como contorna aquele cabo e desaparece de vista. Veja, então, como parece que alguma força incontrolável o desviou em seu curso, pois ele retorna à planície com olhos brilhantes e semblantes jubilosos, como se estivesse feliz em voltar mais uma vez às montanhas distantes, onde nasceu.

O significado de tudo isso — continuou ele — é que a prosperidade que o Dragão concederá aos vivos, por intermédio do ministério dos mortos que jazem em seu domínio, não desaparecerá tão cedo, mas, como o rio que vemos serpenteando diante de nós, permanecerá e confortará por muitos e longos anos aqueles a quem foi concedida. Que as riquezas virão, é certo, assim como cargos oficiais e honrarias; lance, pois, o seu olhar àquela crista que reluz ao sol da manhã e observe a figura que se ergue, distinta e bem definida, de seu cume. É simplesmente uma rocha, é verdade, mas observe bem seu contorno: notará como a silhueta se revela à sua vista, até assumir a forma de um mandarim em trajes oficiais completos, de pé, com o rosto voltado para nós. Eu recomendo incisivamente — concluiu o professor — que você se assegure do pedaço de terra em que nos encontramos, custe o que custar, pois toda ambição que já preencheu sua alma será, com o tempo, satisfeita pela riqueza e pelas honras que o Dragão e os seus espíritos acompanhantes derramarão em seu lar.

Yin ficou encantado com a perspectiva que o homem ao seu lado lhe descreveu com tanta veemência; de bom grado, concordou com a proposta de interromper sua busca e comprar o terreno, em que agora estavam, para dele fazer um cemitério dedicado à sua família.

Nesse exato momento, um homem apareceu, caminhando tranquilamente para ver o que aqueles dois estranhos estavam fazendo naquele lugar remoto, para o qual não havia estrada e de onde não havia atalhos às aldeias.

Pode me dizer, meu amigo — perguntou Yin —, a quem pertence esta porção de terra?

Sim, facilmente — respondeu ele. — Está vendo aquela casa dilapidada perto do rio? Pois bem, ela é ocupada por um homem chamado Lin, com sua esposa e uma filha de cerca de dezenove anos. Eles são extremamente pobres, como, pela casa, você pode inferir. A única propriedade que Lin possui é este terreno, que herdou de seus antepassados, e que ele espera um dia vender a alguma pessoa abastada como cemitério, para que lhe traga boa sorte.

Estou deveras disposto a comprar o terreno, contanto que consiga um preço razoável — respondeu Yin. — E ficarei grato se você concordar em intermediar e negociar a compra para mim. Você poderia prontamente conversar com Lin e verificar quais são os termos sob os quais ele estaria disposto a me transferir a propriedade.

No dia seguinte, o intermediário retornou e informou a Yin que Lin, sob nenhuma circunstância, consentiria em vender-lhe o terreno.

O fato é que — continuou ele — Lin tem um propósito bem definido em mente, para o qual este terreno em particular tem muito a ver. Ele e a sua esposa estão ficando idosos e, quando a filha se casar, ele teme que seu ramo da família se extinga. Então, ele planeja encontrar um marido para ela, que venha a morar na casa e desempenhe o papel de filho, bem como o de genro.

Tão determinado estava Yin em ter para si aquela porção de terra que, após consideráveis ​​negociações, durante as quais parecia que o velho pai jamais mudaria de ideia, finalmente ficou acordado que a filha do vendedor se casaria com o filho mais velho de Yin, chamado Shung, e que os pais da jovem se mudariam para aposentos na mansão da família do comprador, onde seriam sustentados por ele, com conforto e comodidade, pelo resto de suas vidas. Se Yin fosse uma pessoa generosa e de bom coração, esse plano teria sido ideal; todavia, como era, por natureza, um indivíduo avarento e ganancioso, o resultado foi trágico.

Assim que as escrituras do cobiçado terreno lhe foram entregues, Yin providenciou o translado do corpo de seu pai, que fora sepultado em um local distante da influência do Dragão, para este novo cemitério, onde o defunto estaria em contato com os espíritos superiores do submundo. Ali, também, Yin poderia atrair a atenção do mandarim, que dia e noite lhe dedicaria os olhos, e que, em razão da própria simpatia que surgiria entre eles, certamente lhe concederia, com o tempo, o misterioso poder de transformar os seus netos, e os filhos destes, em eruditos, e estes, assim, alcançariam altos cargos a serviço do Estado.

Entrementes, estavam sendo feitos os preparativos para o casamento da jovem de origem humilde com um homem de posição social muito superior àquela a que ela jamais poderia aspirar em normais circunstâncias. Pérola era uma jovem doce e graciosa, que teria sido uma esposa exemplar para alguém de sua condição social, mas que era totalmente inadequada à nova dignidade que lhe seria imposta assim que cruzasse os umbrais da rica família Yin. Ela era apenas uma camponesa, destituída de educação e refinamento. Seus dias haviam transcorrido em meio à pobreza e, embora fosse uma moça de boas qualidades, com os elevados ideais que as pessoas mais simples da China possuíam, seu lugar apropriado era, afinal de contas, entre as pessoas com as quais havia convivido a vida inteira.

Na verdade, seus pais sempre tiveram dúvidas sobre a conveniência de casar a filha com um membro de uma família tão superior à deles — como os Yin—, e, por muito tempo, se opuseram a todos os argumentos em prol do casamento. Finalmente, vencidos pela impetuosidade de Yin, e deslumbrados com as perspectivas que tal aliança oferecia não só à própria moça, mas, também a eles próprios, com a garantia de conforto para o resto da vida, deram, a contragosto, o consentimento.

Para que Pérola sofresse o mínimo de desonra possível ao aparecer entre seus novos parentes, a fim de comprar roupas de casamento adequadas para a filha, o pai vendeu todos os bens de que dispunha. No entanto, a sua noção de adequação das coisas vinha do ambiente humilde em que vivera a vida inteira, e as sedas, cetins e joias caras, que adornavam as noivas ricas, jamais haviam figurado em seus sonhos. Ainda assim, Pérola era uma bela moça e, com seus penetrantes olhos negros, que sempre pareciam transbordar risonhos, e com um sorriso que parecia um relâmpago no céu de verão, ela precisava de poucos adornos, e conquistaria o coração de qualquer homem que tivesse a sensibilidade de apreciar uma mulher de verdade assim que a visse.

Finalmente chegou o dia — apressado pelo premente desejo de Yin de resolver tudo — em que a humilde casa seria desocupada e transferidos os seus moradores para a rica casa, que ficava logo depois de uma colina vizinha.

Uma magnífica cadeira de noiva, cuja brilhante cor carmesim tornava-a um objeto notável na paisagem cinzenta, serpenteava em direção à casa onde a nubente estava vestida, já pronta para nela sentar-se, assim que surgisse à porta.

Marchava, à frente, uma banda, fazendo o campo ressoar com notas peculiares, que pareciam voar no ar com um tom desafiador, enviando seus ecos até o topo das colinas, e penetrando nos vales silenciosos. Havia, também, multidões de criados e dependentes do homem rico. Estes, vestidos com trajes semioficiais, seguiam em grupo com rostos sorridentes e gritos de alegria. A ocasião era festiva, e as visões de pratos raros e banquetes generosos, que durariam vários dias, enchiam a mente da feliz procissão, enquanto esta se dirigia ao encontro da noiva.

O retorno da festa foi ainda mais animado e alegre. Os membros da orquestra pareciam inspirados pela ocasião e entoavam melodias vigorosas, enquanto que os instrumentos, como se soubessem o quanto dependiam deles, respondiam aos esforços dos músicos e enchiam o ar com notas jubilantes.

Uma ilustre comitiva se reunira para receber a noiva que, em sua cadeira carmesim, conduzida pelo marido, cadeira carmesim, avançava, com passos tímidos e coração vacilante, ao salão preparado para a sua recepção. Ao entrar na casa, algo no ar lhe causou um estremecimento no, dissipando quase instantaneamente as esperanças de felicidade que ela tanto acalentava.

Shung, seu marido, era um homem de espírito ignóbil, que sempre se opusera a casar-se com uma mulher inferior à sua posição. A visão de sua noiva, com seu ar rústico e as roupas malfeitas, de comum aparência, que vestia, fez seu rosto arder de vergonha, pois ele sabia que um sorriso de escárnio se escondia no rosto de todos que se reuniram para vê-la.

Um profundo sentimento de ódio invadiu a sua alma mesquinha e, com o passar dos dias, o único propósito de sua vida passou a ser humilhar aquela mulher de temperamento doce, que fora sacrificada simplesmente para levar adiante os planos ambiciosos de seu sogro ardiloso, o Sr. Yin. Por algumas semanas, ele simplesmente a ignorou, mas, gradualmente, passou a tratá-la com tanta crueldade que, muitas vezes, ela cogitou seriamente tirar a própria vida. Logo se descobriu que pai e filho estavam tramando um plano sistemático para se livrar de toda a família.

O velho pai e a velha mãe, a quem Yin havia concordado em sustentar pelo resto de suas vidas, acharam a situação tão insuportável que, voluntariamente, deixaram os miseráveis ​​aposentos que lhes foram designados, e retornaram à sua cabana vazia. Todos os móveis haviam sido vendidos para comprar as roupas de casamento da filha, de modo que, ao chegarem à antiga casa, não encontraram absolutamente nada. Com alguns feixes de palha, improvisaram uma cama no chão, mas não havia comida, nem nada que os confortasse naquele estado de profunda miséria.

A tristeza pela filha, a decepção e a angústia ao pensarem em como haviam sido enganados e ludibriados pelo Sr. Yin, para que ele se apossasse de seu pedaço de terra, afetaram tanto o espírito deles que ambos adoeceram com uma febre morna, que os deixou prostrados em seu leito de palha. Como viviam isolados, ninguém soube, por um tempo, que estavam doentes. Os dias se passaram sem que ninguém os visitasse, e, quando, finalmente, um agricultor bondoso veio perguntar o que lhes havia acontecido, descobriu, horrorizado, que marido e mulher jaziam mortos, lado a lado, em sua miserável cabana.

A notícia da morte do casal trouxe o maior prazer à mente do infeliz homem que, na verdade, fora a causa dela. Agora, ele estava livre do pacto que o obrigava a sustentá-los enquanto vivessem, e, assim, haveria uma verdadeira economia no dinheiro que teria que gastar com comida e roupas. Um sorriso cruel e frio permaneceu em seu rosto endurecido por vários dias após o sepultamento do pobre casal de idosos na encosta, perto da cabana, e essa foi a única expressão de luto que seu rosto assumiu.

A partir desse momento, a vida de Pérola tornou-se, cada vez mais, um fardo. O amor, o único elemento que poderia ter inundado seu coração de felicidade, foi a única coisa que jamais lhe fora oferecida. Em vez de afeto, havia palavras cruéis e cortantes, olhares de desprezo e golpes violentos, infligidos à exaustão pelo homem desalmado que era chamado de marido.

Por fim, para demonstrar seu total desprezo e aversão por ela, o marido, com a conivência do pai, trouxe uma concubina para casa. Essa dama vinha de uma família relativamente boa, e foi induzida a aceitar essa posição secundária devido à grande quantia de dinheiro que Yin desembolsara por ela. A miséria de Pérola aumentou mais ainda com a chegada da concubina. Seguindo o exemplo do marido, e com inveja da posição superior que a lei concedia à sua rival na família, ela recorreu a todos os meios que uma mulher rancorosa pode conceber para tornar a vida da esposa ainda mais miserável.

A morte dos pais havia preenchido o coração de Pearl com uma dor e um sofrimento tão intensos que a vida perdera todo seu encanto. Ademais, ela percebeu, pela sórdida alegria que se manifestara abertamente após o trágico fim de seus pais, que os Yins jamais se dariam por satisfeitos enquanto ela não os seguisse para a Terra das Sombras. Ela, portanto, anteciparia os cruéis planos de seu marido e do genro, livrando-se, assim, de uma perseguição que só cessaria com sua morte. Então, certa meia-noite, quando toda a família dormia e nada se ouvia do lado de fora além do gemido do vento, que parecia se preparar para cantar-lhe um réquiem, Pérola pôs fim a todos os seus sofrimentos terrenos enforcando-se em seu próprio quarto.

Quando, no dia seguinte, o corpo foi encontrado, pendurado em um gancho em uma das vigas, Yin e seu filho soltaram um grande grito de alegria. Sem recorrerem a qualquer espécie de violência, eles haviam se libertado da aliança com aquela família de classe inferior e, a um custo muito reduzido, obtiveram a posse definitiva da terra que enriqueceria e enobreceria seus descendentes.

E, assim, enquanto a pobre garota jazia morta, levada a um fim prematuro por espíritos mais ferozes e malignos do que quaisquer outros que supostamente voavam, com ódio em seus corações, no ar ao redor, sorrisos, risos e ruidosas congratulações eram distribuídos pelos demônios vivos, cuja perseguição tornara a vida dessa mulher, de doce temperamento, insuportável.

Mas a retribuição estava próxima. O Céu age lentamente no castigo dos ímpios, mas seus passos são firmes e irresistíveis ao longo do caminho que leva à vingança sobre o malfeitor.

Numa noite sombria, quando o céu estava nublado e nem Lua nem estrelas eram visíveis, e uma tempestade de inaudita violência preenchia o ar com um tumulto de significados ferozes e furiosos, uma cena estranha e macabra se desenrolou no túmulo onde o pai de Yin fora sepultado. Hediondos sons de lamentos e gritos podiam ser ouvidos, como se todos os demônios das regiões infernais tivessem se reunido ali para uma noite de festa. Mais altos que a tempestade, os gritos produziam as rajadas mais estridentes, e pessoas em suas casas, a grandes distâncias, foram despertadas de seu sono pelos gritos sobrenaturais que lhes gelavam o sangue de terror. Por fim, um trovão ribombou dos céus escuros, mais alto do que qualquer mortal jamais ouvira. Os relâmpagos cintilaram e, concentrando toda a sua força sobre o túmulo, exatamente onde o caixão jazia, abriram uma enorme fenda na terra e, agarrando o caixão com seus dedos flamejantes, atiraram-no desdenhosamente numa colina a milhas de distância.

No dia seguinte, após uma longa busca, Yin encontrou os restos mortais no local isolado onde haviam sido lançados. Já voltava para providenciar o sepultamento quando, num trecho deserto da estrada, duas figuras sobrenaturais surgiram repentinamente diante dele. Para seu horror, ele as reconheceu como os espíritos do pai e da mãe de Pérola, que praticamente haviam sido mortos por ele, e a quem Yam-lo1 permitira que retornassem à Terra para atormentar o homem que fora o autor de sua destruição. Tão aterrorizado ficou Yin com o aspecto selvagem e ameaçador das figuras, que caiu ao chão, desmaiado, sendo encontrado horas depois por seu filho, que saíra à sua procura.

Por vários dias, Yin recebeu os maiores cuidados, e os médicos mais renomados foram chamados para lhe prescrever o tratamento. Ele, todavia, nunca se recuperou, e havia sempre um olhar vago e atormentado em seus olhos, como se visse alguma visão terrível que lhe roubava a razão e o impedia de recobrar a consciência. Nesse estado, ele morreu, sem um olhar de reconhecimento para aqueles que amava e sem que fosse dada uma palavra de explicação sobre a causa desse trágico desfecho de uma vida que estava no ápice.

O filho mais velho agora era o senhor da riqueza do pai; mas, em vez de aprender a lição com o terrível julgamento que recaiu sobre os seus, em razão da injustiça e do mal cometidos contra uma família inocente, tornou-se ainda mais implacável no tratamento daqueles que estavam sob seu poder. Jamais cogitou reparar os atos de crueldade que levaram sua esposa, na tentativa de escapar de sua tirania, ao suicídio. Mas os passos do Destino continuavam a avançar em sua direção. Apesar de lentos e pesados, seguiam com infalível determinação, prontos para executar a vingança dos deuses.

Com o tempo, o quarto onde Pérola morrera tornou-se assombrado. Sua figura espectral podia ser vista na penumbra, esvoaçando e espiando pela porta com uma expressão de agonia no rosto. Às vezes, ela era vista ao amanhecer, inquieta e agitada, como se tivesse vagado a noite inteira; e, outras vezes, esvoaçava ao luar e se esgueirava pelas sombras das casas, mas sempre com um resquício daquela antiga expressão que, quando viva, tornava seu rosto tão cativante e encantador.

Quando perceberam que era o espírito da jovem que assombrava a casa, todos aos residentes demonstraram o maior alarme e terror. Não há nada mais terrível do que a aparição dos espíritos daqueles que foram injustiçados, pois eles sempre veem com algum intento vingativo. Não importa o quão amorosas as pessoas tenham sido em vida, pois, com a morte, toda a sua natureza se modifica, e elas são tomadas pelo desejo mais ardente de infligir danos e, principalmente, de causar a morte ao objeto de seu ódio.

O cruel tratamento que Shung, seu marido, havia usado para levar Pérola ao suicídio era por todos conhecido, e o fato de ela agora ressurgir, com o escopo de vingança, não era considerado surpreendente; ainda assim, todos temiam mortalmente se envolver no castigo que certamente seria infligido.

Como o fantasma continuava a rondar, persistentemente, pela casa, Shung foi finalmente tomado pela apreensão, temendo que alguma calamidade estivesse prestes a se abater sobre a sua casa. Para se proteger de qualquer ataque inesperado do espírito que vagava e pairava nos cômodos mais escuros e isolados de sua casa, providenciou uma espada que havia sido afiada até ficar extremamente cortante, e que carregava na mão, pronta para atingir Pérola, caso ela ousasse atacá-lo.

Certa noite, sem saber que a sua concubina estava sentada em um certo quarto mergulhado em densas sombras, entrava Shung ali para algum propósito, quando o espírito de sua falecida esposa agarrou a sua mão com uma força irresistível, constrangendo-o a desferir repetidos golpes contra a pobre mulher indefesa. Não foram mais do que uma dúzia de golpes, antes que ela jazesse inconsciente no chão, morta. Pelas feridas abertas, jorrava o seu sangue.

Quando o fantasma afrouxou seu domínio e Shung se sentiu livre para ver o que havia feito, ficou extremamente horrorizado ao contemplar, com os olhos arregalados, a cena terrível à sua frente. Então, percebeu a sentença que recaíra sobre ele pelos erros que cometera contra Pérola e sua família.

Tão logo a notícia do homicídio chegou ao pai da mulher, este apresentou uma queixa ao mandarim mais próximo, que emitiu um mandado de prisão para Shung. Em seu julgamento, ele tentou defender-se declarando que não fora ele quem matara sua concubina, senão um espírito maligno que se agarrara ao seu braço e dirigira os golpes causadores da morte da concubina.

O magistrado sorriu diante dessa defesa extraordinária. Disse que Shung devia considerá-lo um grande tolo acaso houvesse pensado, por um momento sequer, que ele estaria disposto a aceitar uma desculpa tão ridícula para o crime terrível que o homem cometido.

Como Shung era um homem rico e tinha meios para subornar os funcionários de baixo escalão no yamen2, seu caso foi adiado para que verificassem quanto dinheiro lhe poderia ser extorquido antes da sentença. O assassinato — aparentemente sem motivo ou provocação — de uma mulher, que pertencia a uma família proeminente na sociedade, gerou um sentimento generalizado de indignação, e a opinião pública condenou incisivamente Shung. Todos sentiam que deveria haver uma punição exemplar para ele; caso contrário, qualquer homem que tivesse dinheiro suficiente poderia desafiar todos os grandes princípios estabelecidos pelo Céu para o governo da sociedade e para a prevenção do crime.

Para facilitar a vida de Shung, enquanto este se encontrasse na prisão, a sua mãe teve que desembolsar grandes somas subornando todos os que estavam ligados ao yamen. Nunca antes uma oportunidade tão vantajosa havia sido apresentada aos gananciosos lacaios, encarregados pelo imperador de administrar a justiça entre seus súditos. Em sua preocupação com o filho, a pobre mulher vendeu campo após campo para conseguir fundos destinados a atender às exigências desses funcionários gananciosos. Bastava que alguns deles insinuassem que Shung corria perigo de vida, e novas vendas eram realizadas para subornar o mandarim e obter clemência em seu julgamento.

Por fim, todos os bens foram vendidos e, quando souberam que não seria possível obter mais dinheiro, Shung foi condenado à prisão perpétua. Isso foi um cruel golpe para a sua mãe, que sempre tivera esperança no livramento do filho. Cheia de tristeza e completamente sem recursos, em poucas semanas ela morreu de desgosto, enquanto o filho, desesperançoso, sem enxergar nada além de uma prisão à sua frente, cometeu suicídio, pondo fim a uma vida sem sentido.

A trágica extinção de uma família que, apenas um ano antes, vivia em plena prosperidade, foi aceita por todos que ouviram a história como um castigo justo e implacável vindo dos Céus. Pois o Céu zela tanto pela vida humana que, qualquer um que a destrua, fica sujeito à fatídica lei de que o responsável, será, por sua vez, esmagado pelas rodas da justiça vingativa.



Fonte: “Chinese Folk-Lore Tales”, Ed. MacMilland and Co., Londres, 1910.


Notas:

1Ou Yan Luo Wang, é o deus da morte e governante do reino dos mortos.

2Repartição na China imperial.

 

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