COLHEITA - Conto de Ficção Científica - Belén Fernández Crespo
COLHEITA
Belén Fernández Crespo
Tradução de Paulo Soriano
“Yes, there are aliens. No, we shouldn't contact them.”
Stephen Hawking1
O Sol oscila, como uma luz que agoniza ao sopro do vento.
Ontem, o dia todo, mal se via um fulgor. Prendi a respiração, rezando para que não se apagasse, para que não fossem aqueles os nossos últimos oito minutos de vida, mas, finalmente, esta manhã, as brasas pareceram avivar-se.
Olho pela janela. Vejo o tênue brilho, cinquenta por cento mais suave do que o que refulge durante uma nevasca, e tento capturá-lo na minha mente: recordar o calor, a chama da qual tanto fugi nos dias de verão, incomodada pela sensação asfixiante; preservar aqueles ocasos escarlates, adornados com nuvens azuis-anis. Nunca imaginei seria testemunha deste fenômeno. Presumi que, quando acontecesse, já estaríamos extintos.
O fenômeno começou em 11 de novembro, há vinte dias. O Sol crepitava de forma diferente, como se perdesse a sua chama. Talvez devido a uma mudança em seu ciclo ou ao surgimento de alguma mancha solar excepcional. Nada poderia estar mais longe da realidade: a superfície do Sol estava lisa e impecável. No entanto, sua cor alaranjada havia transmudado para um vermelho intenso.
Não consigo entender muito bem o empenho da humanidade em encontrar e contatar seres de outros planetas, de enviar-lhes informações detalhadas sobre quem somos, onde estamos e como chegar até aqui.
Nos primeiros anos, eram simples mensagens espalhadas aleatoriamente na imensidão do espaço: canções enviadas por antenas, placas presas a sondas, na esperança de que chegassem a algum receptor, tal como os antigos marinheiros faziam com mensagens em garrafas.
Até que descobriram aquele sistema solar, gêmeo do nosso, a meros quatro anos-luz de distância.
Tal distância parecia ínfima em comparação com a de outros possíveis planetas habitáveis, cujos nomes haviam surgido em diversas ocasiões. Era urgente encontrar uma forma de enviar dispositivos que fossem os nossos olhos, que revelassem a verdade e pusessem fim às elucubrações e deduções no tocante à atmosfera, a existência de água e de vida.
Não houve consulta planetária. Não se importavam com a nossa opinião. Como sempre, os poderosos tomavam as suas próprias decisões, atendendo aos seus interesses; como sempre, não pensaram nas consequências de seus atos. As nanonaves guiadas a laser simplesmente foram lançadas.
E esperamos vinte anos.
Esperamos tanto que ninguém mais se lembrava da existência daquela missão.
E lá estava ele, o vampiro cósmico, imóvel, ileso, ancorado, de alguma forma desconhecida, ao nosso astro: um perfil negro indeterminado que, de uma forma para nós incompreensível, sugava-lhe a preciosa energia. Sua emissão calorífica de mil de graus formava o negativo da imagem que ninguém conseguira captar, dando cara ao Horror remoto que jamais confrontaremos; isso nos ajudou a compreender que o tamanho da “nave” era equivalente ao de um planeta como Mercúrio. Por meio de quais procedimentos ele extrairá a essência da nossa estrela? Onde armazenará a energia ou para onde a transportará, se o fizer? Por que o nosso Sol e não outro? Terão os recursos da sua civilização se esgotado, ou serão eles simplesmente piratas que pretendem vender o combustível ao maior lance?
— Vou esquecer as palavras, mamãe — diz o meu filho de seis anos.
— Não entendi.
— Por não ir à escolinha.
— São apenas umas férias… — tento acalmá-lo.
Como lhe explicar a verdade? Como dizer que não há futuro, se ele sequer começou a viver? O que farei quando as plantas e os animais morrerem? Como protegê-lo do Horror quando não restarem alimentos?
— Estou com frio, mamãe.
— Vamos nos cobrir com o cobertor. Abrace-me.
Contemplo o céu constantemente, esperando um milagre que sei que jamais acontecerá. A vida se apaga, a Terra esfria lentamente, enquanto uma espessa camada de neve e gelo cobre tudo. Nem mesmo os edifícios são reconhecíveis. Já não lembro como era o mundo, como era a nossa existência. Sinto o Nada avançando implacavelmente, e um arrepio percorre a minha nuca. Ao fundo, o zumbido contínuo das notícias, que, ao tentar explicar os fatos, buscam nos ajudar a encontrar a paz e aceitar o nosso destino. Em constante estado de alerta, mal consigo dormir.
Somos meros espectadores que assistem impotentes à própria destruição. Jamais saberemos como são os Coletores. Não tiveram a cortesia de nos permitir vislumbrar a fisionomia da nossa Morte; não nos permitiram lutar. Para eles, devemos ter a mesma importância que a de uma insignificante partícula de pólen. O nosso orgulho humano nos levou a pensar que, ao saberem de nossa existência, eles viriam nos ensinar a sua avançada tecnologia e viveríamos juntos num Universo de harmonia ideal. De antemão, deveríamos ter prestado atenção à forma como nos tratamos uns aos outros e previsto o que aconteceria.
Segundo os especialistas, eles acabarão por se aproximar da Terra para roubar-lhe a água. Certamente o farão antes que o Sol se apague definitivamente e o planeta comece a vagar, inerte, pelo espaço.
Colhemos o que plantamos.
Ilustração: PS/Dreamina.
Texto integrante da revista bilíngue (português e espanhol) “Relatos Fantásticos”, vol. V. Para acessá-la na íntegra, clique aqui.
Nota:
1“Sim, existem alienígenas. Não, não deveríamos contactá-los.” Fonte: The Atlantic.com “Stephen Hawking: Don´t contact Aliens.” 26 de abril de 2010.

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