DESTINO - Conto Clássico de Terror - Ítala Gomes Vaz de Carvalho

DESTINO

(Conto de Natal)

Ítala Gomes Vaz de Carvalho

(1892 – 1948)


Certamente aquela mulher já devia estar andando há bastante tempo alguns passos na frente de Maurício, ao longo dos passeios dos bulevares. O barulho da feira era ensurdecedor naquela noite de véspera de Natal. Havia “menèges” imensos e toda espécie e todo o feitio: cavalinhos e porcos cor-de-rosa andando à roda, carrinhos enfeitados de estilo Luís XV, onde se podiam sentar comodamente quatro pessoas, gôndolas venezianas e outras fantasias para seduzir o transeunte a tomar lugar num daqueles instrumentos de tortura para quem fica tonto andando à roda. Toda a calçada do bulevar estava tomada pelas barraquinhas do tiro ao alvo, os circos, as coleções de feras engaioladas, os fenômenos monstruosos, as casinholas dos faquires e a mulher que diz a boa sorte!

Os cafés ao longo dos passeios regurgitavam de clientes. Música, “jazz”, luzes e cantores por toda parte. Os vendedores de amêndoas torradas e de castanhas assadas apregoavam os louvores de sua mercadoria, enquanto o público fazia cauda para poder entrar nos cinemas, impedindo o trânsito ao observador desocupado! Entre o povo compacto que se acotovelava, aos empurrões, incapaz de tomar consciente ou inconscientemente um caminho certo, ela parecia andar como uma criatura incorpórea, como um fantasma leve e etéreo que não tocasse o chão. Insinuava-se na massa compacta daquela gente louca com a flexibilidade ondulante de uma chama viva. Seria difícil não vê-la, mesmo se não estivesse vestida de cigana, com a saia rubra, o corpete de veludo preto e o lenço, na cabeça, coberto de medalhinhas de ouro falso. Maurício sentiu uma espécie de fascinação, e seguiu atrás dela com um novo interesse, uma ânsia instintiva.

Que massada! Pois não acabava de chegar de Salamanca, onde se fartara dos encantos espanhóis e de suas pitonisas? Por que não seguira antes uma parisiense, um daqueles estranhos tipos entre o santo e o demônio, que brotam em Montmartre aos pés da basílica do Sagrado Coração de Jesus?

Devia ser o desejo de satisfazer, a curiosidade de ouvir desvendando mais uma vez o segredo da vida! Desde menino, no colégio, e depois rapazinho, fora sempre a sua mania perscrutar, adivinhar o segredo do futuro! Sempre submisso às obscuras pitonisas que o aconselhavam, predizendo-lhe a carreira de oficial de marinha, tinha acabado sendo o chefe da casa de comércio do seu pai, exportador afamado de algodão e fumo! Desejoso e certo de casar com uma menina loura que o amava, ligara-se cada vez mais estreitamente a uma senhora morena que o comprometia. E precisando, agora, firmar contratos importantes na Espanha e Portugal, estava flanando e perdendo tempo em Paris.

Vivia consciente da espécie de escravidão que o ligava às ciganas e às cartomantes que lhe desfrutavam o espírito supersticioso e as amaldiçoava, sem poder, todavia, libertar-se do supremo domínio que elas exerciam sobre sua natureza impressionável. Maurício passara assim a primeira mocidade, sem que se houvesse podido libertar do misterioso prestígio da arte sibilina. Mas fazia agora justamente um mês que se abstinha das costumadas consultas, depois da última experiência que o deixara com arrepios de terror.

Foi num café de Madri, na véspera de seguir para Salamanca, que uma velha cigana se aproximara, com passos felinos e remexidos de cadeiras, como se ainda pudesse seduzir, da mesa onde ele sorvia um cálice de xerez apressado, e, tomando-lhe à força as mãos, dissera-lhe com brutalidade:

A morte paira sobre ti, rapaz. Só poderás evitá-la não fazendo movimento algum.

Horas depois, partia de Madri para Salamanca, e de lá para Paris, centro da alta civilização, onde por certo se devia predizer a sorte com maior delicadeza…

Impressionadíssimo com a terrível predição que desejava apagar do seu espírito, tinha já fixado encontro com um célebre quiromante para o dia 26 de dezembro, quando deparou a flexuosa gitana, caminhando diante dele, com o convite inconsciente e mudo de sua formosura.

Certo de não lhe consentir nenhuma intromissão no segredo de seu destino (que se prometia analisar somente com o auxílio do acreditado cartomante convocado para o dia marcado), pôs-se a seguir a rapariga com o único sentido de admirar uma bela criatura, harmoniosa e sem artifício de espécie alguma.

A mulher civilizada, cheia de requintadas artimanhas como a parisiense, já o exasperava. Estava cansado das nevropatas, que não acreditam no domínio da paixão, e martirizam o corpo e o espírito para provocar idênticas sensações nos homens, ou de certas mulheres, que já não possuem, embora com boa camaradagem, as vantagens do seu sexo e nem as do outro!

São, certamente, mais inteligentes e mais instruídas que as amigas de Salamanca. Não correm para se “benzer” na igreja, quando sonham que lhes caiu um dente! Não têm imaginação, nem se deixam levar por excessos de exaltação, mas sua feminilidade está reduzidíssima e possuem um egoísmo tão agressivo e revoltante que Maurício acabara, em plena Paris, por viver como se estivesse num deserto.

Entretanto, a figura singular daquela ciganam que devia ter uma vibrante sensibilidade amorosa, com seus lindos cabelos negros ondulados e o olhar selvagem, o hipnotizara de tal forma que não se pôde privar de segui-la, apesar de todos os protestos de não mais se aproximar de semelhantes mulheres.

Maurício tinha, aliás, uma boa desculpa: estava convencido da inutilidade das ciências ocultas, apesar do encontro marcado com um dos mestres quiromantes mais conceituado da capital. Sentia-se seguro de sua nova convicção e nem mesmo o anúncio imediato do fim do mundo conseguiria alterá-lo! O ceticismo invadira-o, e tinha razão para tanto, pois desde que aquela velha “Carmen” do cabaré de Salamanca lhe anunciara a vizinhança da morte, ele viajara, dançara, fizera toda sorte de exercícios corporais, sem que se averiguasse a tremenda predição!

Bem tinha razão o amigo Antônio, quando afirmava não haver, entre os vivos, quem pudesse adivinhar o futuro das criaturas humanas. Não, ele não queria novas predições. Estava simplesmente encantado pela graça daquela mulher e com a vaga esperança de esboçar com ela uma aventura amorosa sem nenhuma responsabilidade.

Continuou a seguir a soberba criatura pelo bulevar afora, surpreendido mais e mais pela sua atitude esquiva. Positivamente, ela, percebendo a perseguição de Maurício, fugia, acelerando cada vez mais o passo. O rapaz sentia-se humilhado. Embora não fosse muito bonito, era simático, elegante, muito bem-apessoado.

A cigana não ia só: tinha uma companheira ao lado, que frequentemente virava a cabeça, considerando rapidamente Maurício para informar logo à amiga do que se passava. Maurício, cada vez mais despeitado, apressava o passo todas as vezes que as duas raparigas tentavam fugir. Já tinham deixado longe o último barracão da feira. Raros transeuntes passavam em direção da velha igreja de São Teodoro. Já devia ser quase meia-noite — a hora bendita em que há dois mil anos nascera o Redentor! Maurício chegava cada vez mais perto do grupo formado pelas duas ciganas. Em dado momento, um ajuntamento de automóveis permitiu-lhe alcançar as duas raparigas no refúgio, no meio do bulevar. Risonho, triunfante, agarrou, enfim, o braço moreno, cheio de pulseiras, da linda cigana.

E então! — fez ele. — Que maneira de fugir é essa?

A rapariga voltou para ele o rosto, em que se refletia extraordinário pavor, dizendo com uma voz rouca, em péssimo francês:

Deixe-me! Deixe-me! A morte está junto do senhor!

A repetição daquela mesma frase, já ouvida da velha, terrível pitonisa de Salamanca, produziu efeito aterrador no ânimo de Maurício, que, todavia, se dominou um momento, retrucando:

Já conheço a cantiga. Uma sua parenta me quis assustar, contando-me esta história… desafinada. Mas, como vê, aqui estou muito bem com vida e saúde. Seja boazinha: venha tomar champanhe comigo.

Apertava-lhe os pulsos com força, procurando arrastá-la, mas ela, contorcendo-se como uma serpente, gritou-lhe ofegante:

Não é ao senhor que a morte ameaça: é à pessoa a quem escolher!

No mesmo instante, um automóvel, que chegava em grande velocidade, derrapou sobre o asfalto molhado e atingiu o refúgio, derrubando os dois! Maurício levantou-se, incólume. A rapariga ficou estendida no chão. Tinha as frontes abertas: agonizava!

— “Dios mío! Dios mío!” — gemia a companheira da pobre cigana.

Maurício lembrou-se que era noite de Natal, que não poderia deixar morrer assim no meio da rua uma pobre criatura sem o conforto da palavra de Deus! Agarrou-a nos braços poderosos e atravessou correndo o bulevar, entrando pela igreja de São Teodoro, afastando os fiéis coma preciosa carga que levava até os degraus do altar-mor. A missa começava!

Padre! Padre! — implorou alto Maurício. — Por piedade, o batismo e a absolvição, antes que esta criatura de Deus morra pagã na noite em que Jesus nasceu!

O sacerdote interrompeu o “introito” para aceder à súplica e a linda cigana morreu cristã, enquanto Maurício soluçava de comoção e alívio! Naquela mesma madrugada, abandonava Paris, renunciando ao encontro fixado com o célebre cartomante, no intuito de esquecer, para sempre, as emoções daquela trágica noite de Natal em Paris.


Fonte: “Salvação (Contos)”, A Noite Editora, Rio de Janeiro/RJ, 1923.

Ilustração: PS/Gemini.



 

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