ENCERRADA NA CATACUMBA - Narrativa Verídica de Horror - Autor anônimo do séc. XX

ENCERRADA NA CATACUMBA

Autor anônimo do séc. XX


Uma noite de horrores, passada numa câmara mortuária de um cemitério abandonado — eis a terrível experiência por que passou recentemente a bela Sra. Joseph Dobbins, de Pawtucket, Rhode Island.

Cercada pelos caixões dos mortos, enquanto que uma lua espalhava uma claridade de magia sobre os túmulos, a jovem esposa gritou, esbracejou durante horas a fio.

Quando, afinal, a manhã raiou, e quando conseguia vencer a porta engradada, ela correu para a casa de sua mãe, soluçando histericamente, e lhe contou uma história verdadeiramente estranha.

Em vista dessa história, Dobbins foi preso. Ele foi condenado a passar quatro meses no cárcere — mas não foi condenado porque tivesse transformado a sua esposa em prisioneira de um cemitério. Foi preso devido a uma velha acusação de ter furtado 125 dólares da sua sogra.

Desde julho do ano passado, quando de repente desertou do lar, a policia de Pawtucket procurou-o, mas não o conseguiu encontrar. Entretanto, ele foi atraído ao lar, vindo de Filadélfia, só por se ter lembrado da comida que a sua esposa fazia. Ele poderia ter tido uma boa refeição em sua própria casa, se não tivesse, por um impulso esquisito, encerrado a sua companheira no cemitério. Por isso, teve de satisfazer-se com a pena de prisão. Através desses fatos desconexos, corre um fio de uma história que surpreendeu toda gente de Pawtucket, que conhecia o casal Dobbins muito bem. Quando chegou o dia das núpcias, o que se verificou ha três anos, toda a gente achou que eram moços e simpáticos e que constituiriam o “casal Ideal”. Mas houve algumas pessoas que disseram que não se poderia depositar inteira confiança em Joe Dobbins.

Os dois anos subsequentes da vida matrimonial, entretanto, parecem ter posto termo ao ceticismo dos vizinhos. Eles eram populares entre a gente moça de Pawtucket. Dobbins parecia subir de uma maneira meteórica em um dos grandes estabelecimentos comerciais da cidade, e a sua bela esposa era uma das figuras mais atraentes da cidade em que residiam.

Além disso — fato que exerce grande importância na carreira de Joe Dobbins —, ela era uma cozinheira extremamente boa. Uma vez, durante um concurso que se realizou entre as jovens esposas e donas de casa de Pawtucket, ela conseguiu tirar o primeiro prêmio de cozinha. De maneira que, quando Joe se sentava à mesa, ele não podia lamentar os bolos e os pastéis que “sua mamãe costumava fazer quando era solteiro…”

Tudo isso, entretanto, serviu para fazer a cidade ficar perfeitamente espantada quando, em junho do ano passado, soube-se que Joe Dobbins desaparecera. À primeira impressão, pensou-se que Dobbins tivesse caído em alguma armadilha de ladrões de estrada. A polícia começou a procurá-lo e a estudar essa possibilidade bem razoável. Mas, mais tarde, em vista de uma queixa feita pela sua sogra, a polícia começou a procurar Joe Dobbins por outros motivos. Ele fora acusado de ter furtado 125 dólares à sua sogra. Houve também a acusação de abandono da sua esposa. Em Rhode Island, a perseguição continuou. Afinal, depois de muitos esforços, a polícia resolve a abandonar os trabalhos de busca.

Sem o auxílio de um marido para ampará-la, a bela esposa de Joe Dobbins teve de procurar um emprego para poder manter-se a si e a sua própria mãe. Ela conseguiu encontrar colocação como secretaria no escritório de um advogado. Pelejou muito. Mas, nos momentos em que pensava na sua vida, ela suspirava pelo marido, e, enquanto que outros falavam desprezadoramente dele, ela insistia e teimava em que um dia ele haveria de voltar.

Ele voltou. Mas não foi a volta que a sua esposa imaginara. Parece que, depois de ter deixado Pawtucket, Dobbins perambulara pelo país até ter chegado à Filadélfia, a terceira grande cidade norte-americana, depois de Nova York e Chicago. Aí ele conseguiu um emprego e recomeçou a sua vida.

Depois de algum tempo, ele começou a notar que lhe faltava qualquer coisa. Não se tratava das amizades de Pawtucket, nem do emprego que tivera antigamente. Tratava-se da arte culinária magnífica da sua esposa. O Natal estava chegando e ele se lembrava dos doces, pastéis e empadas que ela fazia. Ele teria de comer em restaurantes. Mas, por melhor que fossem os artigos de restaurante, não podiam comparar-se com os do doce lar.

Um dia, às súbitas, ele voltou. Ninguém pareceu reconhecê-lo quando entrou em Pawtucket. Ele encaminhou-se diretamente para a casa da família em High Street. Aí soube do lugar em que sua esposa se encontrava empregada. Quando ela saiu do escritório, ele a esperava. Tomaram um carro.

O que aconteceu depois disso é vago e ficou envolto em névoa. Foi o que a polícia apurou. Mas a polícia contou também a história que a Sra. Dobbins lhe contara:

Quando saí do escritório, fiquei grandemente surpresa em ver o meu marido, que deixara o lar há tanto tempo. A primeira coisa que me pediu foi o envelope que continha o meu salário. Recusei-me a fazê-lo, mas concordei em discutir o que ele muito bem entendesse.

Tomamos um carro para chegarmos à casa de minha mãe. No caminho, ele sugeriu que poderíamos descer no cemitério que existe em Wainut Hill. Assim, o fizemos, embora não pudesse compreender o motivo de tal resolução.

Caminhamos através das quadras. Ele insistia em que devêssemos estar a sós. Eu não compreendia bem o motivo. Já estava ficando escuro. Ele não parecia ligar importância ao que se passava.

Foi então que ele me disse que regressara à cidade natal porque sentia uma falta enorme da minha maneira de fazer os pratos, e que queria entrar em concórdia comigo. Depois, começou a falar sobre dinheiro e instou comigo para que o ajudasse num plano que haveria de dar o melhor resultado possível. À medida que íamos conversando, tínhamos chegado a um grande túmulo que tinha a sua porta aberta. Meu marido parou e disse:

“— Gostaria você de passar algumas horas aqui? Ninguém veria você e ninguém saberia de tal coisa.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele me empurrou para dentro do tal túmulo. Tive uma síncope. Quando voltei a mim, ele me disse:

“— Se você tiver outra síncope, porei você num desses caixões.

Depois, fechou a porta de ferro pesada e fugiu.

Estava ficando escuro — continuou a contar à polícia a senhora Dobbins — e uma lua muito pálida começava a espalhar a sua claridade de prata sobre as campas do cemitério”. A senhora Dobbins circunvagou o olhar. O túmulo parecia escuro. Fixando o olhar, ela verificou que não estava completamente vazio, porque continha quatro caixões, todos eles tendo inscrições das pessoas que tinham partido para o outro mundo.

Ela sentiu um pavor horrível. Um frio intenso apoderava-se-lhe do corpo. Tentou gritar. Tremia. A garganta parecia estar sendo estreitada por uma invisível mão. Queria gritar. Deu empurrões violentos contra a porta. Nada. Toda a sua jovem força de nada valeu.

Afinal, recobrando a sua força, e com a vaga esperança de que pudesse ser ouvida, ela gritou alto, bem alto, a todos os pulmões. O grito ecoou soturnamente através do cemitério. Ela imaginava que algum transeunte haveria de salvá-la. Mas, na sua angustia, não podia compreender, que, à noite, os poucos que passam perto dos cemitérios fazem-no apressadamente. De mais a mais, um grito misteriosamente partido de um cemitério espantaria um transeunte, que se sentiria tomado de superstições de toda sorte.

Percebendo que ninguém aparecia, ela gritou com toda a força. Procurou torcer as varas de ferro da grade. Deu violentíssimos empurrões contra a porta. Fez um esforço físico desesperado e que ninguém poderá conceber em condições normais de uma mulher. Mas a única resposta que recebia era o sibilar do vento, remalhando as árvores altas e esguias, e dando uma impressão verdadeiramente tétrica de abandono, desolação, morte. Diante dela, havia unicamente a porta da câmara mortuária, pesada, maciça, resistente. Contentava-se com o olhar através das grades, pondo os braços para o lado de fora e gritando freneticamente, freneticamente, freneticamente.

A claridade lunar, agora mais intensa, revelava as quadras simetricamente divididas por caminhos retos. Flocos de neve começaram a cair levemente. Uma umidade penetrante invadia-lhe o corpo. De vez em quando, um vento mais forte sacudia um cipreste que vergava e zunia. Todas as coisas pareciam tomar formas horríveis e fantasiosas. As árvores distantes, cobertas de neve, pareciam transformar-se em fantasmas de lendas. Mesmo nas campas banhadas da claridade lunar, campas singelas, a jovem mulher parecia ver formas mexendo-se, imagens que se levantavam e se abaixavam. Uma verdadeira alucinação que ninguém pode descrever.

Tudo isto desfilou com uma velocidade incrível através da imaginação da Sra. Dobbins. De mais a mais, toda a sorte de superstições que lhe tinham contado nos seus tempos de infância povoavam-na novamente, assumindo proporções de espectros terríveis. Horas passaram-se e ninguém aparecia. Nenhum socorro. Ela nem pensava em dormir. O seu terror, a sua angustia e o seu desespero eram enormes. Só com pensar que milhares de pessoas aí dormiam para sempre, enquanto ela não podia conciliar o seu sono, aterrava-a profundamente. Ela gritava. Os seus gritos se perdiam no ar parado e morto.





Passou-se a meia-noite. A lua desapareceu. Uma escuridão impenetrável. Os túmulos brancos surgiam como manchas na escuridão. E a pobre da mulher passou o tempo todo num terrível esforço muscular, sacudindo as barras da grade. Nessa prisão dos mortos, toda a sua energia acabaria por minguar e desaparecer. Simplesmente horrível. Tateou pela escuridão e tocou num caixão. Horror. Gritou novamente. Ninguém. Nada se movia. Nada.

O desânimo. Novo período de atividade. Ela andou pela câmara mortuária e acabou por segurar qualquer coisa de sólido. Sólido e frio. Deu-lhe a impressão de ferro. Tratava-se de uma barra de ferro. Quem sabe se aí não se encontrava a esperança de poder libertar-se desse inferno de horrores? Essa vara de ferro talvez fosse a sua esperança. Ainda conseguiu pensar de uma maneira desconexa. E lutou novamente. Lutou durante muito tempo. Afinal, conseguiu fazer mover a barra de ferro. O esforço fora incrível. Sentia-se completamente cansada. Mas fora recompensada. A um abalo mais forte, ela notou que a porta se mexera. Abriu-a. E foi assim que se precipitou no cemitério.

Ela mal sabia a direção que tomava. Apenas corria como uma louca pelas ruas do cemitério. Afinal, encontrou-se na rua.

No dia seguinte, quando ela contou a sua história, a policia prendeu-lhe o marido. Ele foi acusado de ter furtado 135 dólares à sogra. Veio o processo. Mas a polícia não o condenou por ter prendido a esposa câmara mortuária de cemitério. O caso, entretanto, causou grande sensação e foi muito comentado pela imprensa.


Fontes: “Diario da Manhã”/RJ, edição de 8 de dezembro de 1935; “Jornal do Brasil”/RJ, edição de 11 de agosto de 1935.

 

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