O DETALHE ESQUECIDO - Conto Clássico Cruel - Ch. R. Alford

O DETALHE ESQUECIDO

Ch. R. Alford

(Séc. XX)

Tradução de autor anônimo do séc. XX



A respiração de Mrs. Darlington ressoava, na quietude do aposento, áspera e ritmada, denunciando uma senhora idosa e um sono profundo. No quarto próximo, Mabel Campion, sua criada havia já dez anos, ouvia esse resfolegar enérgico e esperava com paciência verdadeiramente estoica.

A lua, entrando pela primeira janela, projetava um paralelogramo de luz, que se adiantava devagar, tornando visíveis, pouco a pouco, o mosaico do soalho, os móveis… Ei-lo sobre a mesa de toalete, revelando a confusão deixada pelo saque. As gavetas abertas e seu conteúdo revolvido, em desordem. Sobre o mármore da superfície, espalhadas ao acaso, escovas, pinças, grampos, uma trousse1 aberta, o pó de arroz entornado; e, no meio acesse caos, a caixinha de joias, vazia.

O leito se mantém em penumbra, mas pode-se distinguir, sobre o travesseiro enorme, a cabeça de Mrs. Darlington. Os cabelos brancos encobrem metade do rosto.

A lua atravessa também a vidraça do outro quarto, onde Mabel Campion jaz, com os olhos abertos, mas imóveis, os pés e as mãos atados, ouvindo o rumoroso ressonar que lhe chega pela porta de comunicação aberta. Por momentos, uma inquietação atravessa seu espírito. Terá dosado muito a proção do narcótico? Em vez de seis gotas, quinze. Ela nem notou que o gosto estava mais forte… E já estava tão habituada àquele remédio. Era rara a noite em que não o pedia… Não era possível que um excesso de nove gotas lhe tivesse feito mal.

Sua respiração não estava diferente da do costume. Ela sempre ressonava assim.

Mas era capaz de dormir até mais tarde e Mabel começava a sentir o corpo dolorido e dormente, daquela imobilidade, em posição tão incômoda.

Coragem! Se tivesse coragem para resistir até o amanhecer, seria regiamente recompensada; poderia passar o resto de sua vida ociosa e tranquila, cercada pelo conforto que nunca conhecera. Seu plano fora bem estudado e tivera execução perfeita.

Talvez desconfiassem dela, mas não teriam provas; acabariam por deixá-la em paz. Então, ela deixaria passar algum tempo; arranjaria outro emprego, de preferência junto de uma senhora que, como Mrs. Darlington, a levasse à Suíça. Num desses países, arranjaria um pretexto para se despedir e, vendendo as joias ou as pedras soltas, uma a uma — seria mais prudente —, teria com que viver sossegada.

Curioso! A ideia daquele roubo lhe viera do temor de ser vítima de ladrões. Mrs. Darlington era de uma imperdoável temeridade. Ter em casa, assim, em uma gaveta com uma fechadura vulgar, tantas e tão valiosas joias!.. Quantas vezes a própria Mabel lhe aconselhara que as depositasse no cofre de um banco. Mrs. Darlington recusava. Gostava de ter suas joias junto de si.

Se não, seria como se não as tivesse — dizia ela. — Num banco ou numa joalheria, seria a mesma coisa.

E nem ao menos tomava precauções em casa. Era maluca, positivamente maluca. Principalmente depois que tinham vindo morar naquela casa de arrabalde, isolada, no meio de um jardim, o terror de Mabel aumentou. As janelas não eram sólidas. Cortando uma vidraça ou, mesmo sem isso, enfiando um pedaço de arame debaixo do fecho, nada seria mais fácil do que abri-las.

Mabel pensava: “A cozinheira e a copeira dormem no fundo da casa; o chofer, lá fora, na garagem. Se os ladrões vierem… Mrs. Darlington tem o sono pesado como uma pedra; mas eu acordo com qualquer rumor; se me acontecer essa desgraça, os ladrões começam por me apertar a garganta ou me dar uma tacada, para que eu não possa reconhecê-los, mais tarde”.

Insistiu com a imprudente senhora. Aquilo era tentar os malfeitores… Ela deu de ombros e riu de seus terrores. Mabel ficou mais inquieta do que nunca. Aquela mulher, com sua inconsciência do perigo, ainda acabaria causando sua morte. Toda a gente sabia que ela era rica, que tinha joias…





E não havia, no mundo, pessoa mais em condições de ser roubada…

Foi à força de pensar como seria fácil entrar no quarto de Mrs. Darlington e apoderar-se de suas joias que a criada teve a ideia de realizar, ela mesma, essa proeza… Se havia de esperar que viessem verdadeiros ladrões e a estrangulassem em seu leito?

Levou mais de um mês amadurecendo o plano, estudando as possibilidades, as precauções. O mais difícil foi descobrir um esconderijo para as joias, um lugar em que a polícia não as encontrasse e onde ela pudesse ir buscá-las, depois, quando não mais tivessem desconfianças a seu respeito. Resolvido esse problema, estudou os detalhes da encenação. Mrs. Darlington tomava umas gotas para a insônia. Na noite escolhida, deixaria cair no copo maior porção. Depois, teria que fazer um trabalho mais complicado. Durante três ou quatro dias, estudou um meio para se amarrar aos pés e à cabeceira da cama. Com uma corda, que furtou na garagem, fez longas experiências, imaginando nós como não costumava dar.





Se algum detetive se lembrasse de levar o inquérito a essas minúcias, verificaria que ela nunca dera nós assim… Amarrar os pés era fácil; para as mãos, teve que preparar uma combinação engenhosa. Um pedaço de corda com duas laçadas. Enfiava a mão esquerda na primeira; passava a corda duas vezes no varão de metal da cabeceira da cama; depois, distendendo bem o corpo e esticando o braço o mais possível, passava a outra mão na segunda laçada… Experimentou uma noite e quase ficou presa. Magnifico!

Chegou afinal a noite escolhida. Mrs. Darlington dorme profundamente. Mabel realiza tudo, como planejou, com método e cuidado. Entra pé ante pé no luxuoso quarto. Calça as luvas de borracha de madame para não deixar impressões digitais. Vai à janela, ergue o fecho e deixa-a entreaberta. Vai à mesa de toalete. É preciso dar a impressão de que os ladrões perderam tempo, procurando o que queriam. Puxa uma a uma todas as gavetas; sem rumor, revolve tudo e deixa coisas caídas pelo chão; com uma pinça para unhas, força a pequenina e ingênua fechadura do armário, deixa cair em desordem meias, camisas, vestidos… O cofre de joias foi ainda mais fácil de abrir…

Abandona-o aberto, sai pela janela de seu próprio quarto e vai ocultar as pedras preciosas na pequena cova, que abriu, durante o dia, no jardim, numa estreita nesga de terra entre um arbusto e a grade. Volta. Entra. A lua ainda não apareceu. Ninguém a viu. Fecha sua janela, apanha um lenço bastante grande, dá-lhe um nó bem no meio; introduz esse no na própria boca e amarra as pontas do lenço sobre a nuca. Agora as cordas… Cinco minutos depois, estava estendida, com a mãos e os pés imobilizados, em posição incômoda… Mas assim era preciso. A própria Mrs. Darlington, quando despertasse, estranharia não vê-la acudir a seu toque de campainha, notaria a desordem em seu quarto. Veria o armário aberto, as gavetas saqueadas… Um pequeno broche caído no soalho, junto da janela, indicaria o lugar por onde os ladrões tinham entrado e fugido. Ficaria alucinada. Gritaria: — Mabel! — Viria procurá-la e seria a primeira a testemunhar que a encontrara amordaçada, amarrada, sem poder gritar nem lazer um movimento…

A despeito do mal-estar, que começava a torturá-la, a criada sorriu.

Mas, como custava a passar uma noite assim! Devia ter feito “aquilo” mais tarde.

Sentia os ombros doloridos, como se estivessem desarticulados; um frio intenso invadira-lhe os pés. Sem dar por isso, tinha se movido, procurando uma posição mais repousante e, agora, a corda estava lhe cortando os tornozelos… Ouvira dizer que fazia mal prender o sangue assim. Tentou puxar o corpo mais para baixo, a fim de aliviar um pouco aquela pressão; mas não pôde. A fadiga não lhe permitia manter os braços completamente estendidos.

Calculara mal as distâncias. Cansado, seu corpo pesava mais no leito e forçava sobre as cordas. Mas lembrou-se de que os ladrões teriam feito assim. Deus! Como lhe doíam os ombros. Mordeu a mordaça, decidida a resistir. Algumas horas de sofrimento e, depois, poderia viver, confortavelmente, sem trabalhar, viajando, servida, por sua vez, por uma criada.

Moveu as mãos, que também começavam a ficar frias. Moveu as mãos e, de súbito, todo seu corpo se inteiriçou, num frêmito de horror, de desespero.

Esqueceu tudo e sua garganta tentou emitir um grito, que a mordaça abafou.

Estava perdida, perdida! Ia ser presa, acabar seus dias numa penitenciária. Movendo os dedos, verificara uma coisa que ia entregá-la, sem defesa, à polícia; uma coisa, que era a prova de seu crime, o testemunho claro e indiscutível do que fizera.

Atenta a tudo quanto planejara, esquecera-se de tirar as luvas.


Fonte: “Eu Sei Tudo”/RJ, edição de maio de 1939.

Ilustrações: PS/Copilot.


Nota:

1Recipiente pequeno usado para guarda de pó de arroz. 

 

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