O FANTASMA DE JERRY BUNDLER - Conto Clássico de Mistério - W. W. Jacobs
O FANTASMA DE JERRY BUNDLER
W. W. Jacobs
(1863 – 1943)
Tradução de autor anônimo do séc. XX
A grande aldeia de Torchester começara os importantes preparativos da festa de seu padroeiro, para a qual faltavam poucos dias; mas, àquela hora, as ruas estavam escuras e quase desertas, e as últimas lojas se apressavam a fechar suas portas.
Na confortável sala do velho café do hotel da Cabeça de Javali, meia dúzia de fregueses, quase todos caixeiros viajantes, tendo já abordado vários assuntos, acabara por falar sobre fantasmas, e cada qual tinha uma história a contar sobre esse assunto, histórias tão tétricas que George, o garçom, ao ouvi-las, tremia e mal tinha força para enxugar o suor que lhe corria pela fronte. E acabou por sair da sala, com passo titubeante.
— Ora, adeus! — disse, de súbito, um dos circunstantes, um velho de pequena estatura. — Vocês estão aí contando histórias por certo fantasiosas e ignoram talvez que também nesta casa tem aparecido um fantasma.
— Como? Eu moro aqui há vários anos e nunca ouvi falar nisso — disse outro freguês.
— Pois olhe… Isso vem de longe. Nunca ouviam falar de Jerry Bundler? — insistiu o velhote, dirigindo-se ao empregado.
— Eu, sim senhor! — declarou o velho garçom, que nesse momento voltara à sala com duas garrafas. — Ouvi, mas vagamente… E sei que o patrão pôs na rua um companheiro meu que disse tê-lo visto.
—Pois ouçam — continuou o velhote magro e minúsculo. — Meu pai, que nasceu em Torchester, conheceu o caso em todos os seus detalhes. Ele era um homem sério, digno de todo o crédito, religioso sincero… E isso não o impediu de ver, um dia, Jerry Bundler nesta casa.
— Mas quem era esse Bundler?
— Um sujeito de Londres, ladrão, trapaceiro... tudo quanto quiserem... um canalha. Um dia, há cem anos ou mais, foi cercado neste hotel. Ele comera seu último jantar, nesta sala, e subira para dormir, quando dois policiais, que o perseguiam desde a capital, mas tinham quase perdido sua pista, subiram ao primeiro andar, acompanhados pelo proprietário do hotel, e quiseram abrir a porta de seu quarto. Mas a porta era de carvalho maciço e estava fechada por dentro. Então, um policial ficou de sentinela ali e o outro desceu ao páteo, de onde, com o auxilio de uma escada, subiu até a janela. Imediatamente, as pessoas que estavam em baixo viram-no curvar-se. Ouviram o ruído de vidros quebrados. O policial caiu cá no páteo e o criminoso, aparecendo à janela, curvou-se para olhar sua vítima.
Correram todos, furiosos, paral a porta, decididos a arrombá-la e só o conseguiram com grande esforço, porque o miserável fizera uma verdadeira barricada com móveis. Quando conseguiram abrir passagem, a primeira coisa que viram foi o corpo de Jerrv, que se enforcara com um lenço na grade do dossel de seu leito.
— Que quarto era o dele? — perguntaram várias vozes.
—Isso não lhes sei dizer; mas o certo é que, desde esse dia, o fantasma aparece, de vez em quando, neste hotel. Meu pai contava que, uma vez, dormiu aqui, e ele, aparecendo de repente, tentou estrangulá-lo.
—Irra! E nem assim o senhor se interessou por saber qual foi o quarto em que ele dormiu?
—Não. Para quê?
— Ora, para quê? Pelo menos para que eu ou outro qualquer não nos arriscássemos a ir dormir nele.
—Então, os senhores têm medo? — perguntou o velho, com uma risadinha de escárnio.
—Não digo isso… — protestou um dos caixeiros viajantes. — Mas permita que lhe observe… Contar histórias de fantasmas, vá! Mas dizer que há um no hotel em que se tem que dormir… Francamente… A ideia não é das mais inteligentes.
—Então, confessa que está impressionado, hein? — exclamou o velho aldeão, gozando o efeito que produzira. — Pois olhe, eu vou dormir tranquilamente, porque os fantasmas não podem fazer mal aos vivos. Meu pai cantava que sentiu os dedos de Jerry agarrando seu pescoço; mas eram como se fossem de algodão… Boa noite, meus senhores.
E com uma última risadinha subiu a escada, que conduzia ao primeiro andar.
—Imbecil! — rosnou o outro, furioso.
Seus companheiros nada disseram, mas era evidente que todos partilhavam sua opinião.
—Esperem — disse, de súbito, outro viajante, ainda moço, magro, chamado Hirst, e cujo vestuário denunciava pretensões a elegância. — Vou pregar uma boa peça a esse idiota. Vocês sabem que eu sou ator... Amador, é claro, mas, modéstia à parte, bastante apreciado. Justamente trago em minha mala uma cabeleira e uma roupa do tempo antigo, com que represento um drama passado no princípio do século findo. Vou me disfarçar com ela e aparecer no quarto do velho!
—Não faça isso! Será capaz de matá-lo — protestou um de seus colegas, gordo e pachorrento, chamado Malcolm.
— Qual matar! É uma brincadeira.
—Essas brincadeiras são perigosas…
—Também ele fez uma brincadeira muito estúpida conosco.
—A sua também não é das melhores. A mim não faria medo — disse um tal Somers, oficial reformado, que vivia ali de sua pensão.
—Pois vou começar pelo senhor! — disse Hirst, em tom de desafio.
—Está maluco… Eu, além do mais, prevenido…
—Prevenido ou não, a questão é saber apresentar a cena. Aposto uma libra em como sou capaz de assustá-lo.
—Pois está bem… Assuste-me, se o quiser, mas deixe aquele pobre velho tranquilo. Essas brincadeiras quase sempre acabam mal.
—Não há perigo. Eu sei fazer as coisas. E repito-lhe: vou começar pelo senhor — disse Hirst.
E subiu rapidamente a escada.
*
Durante as longas narrações anteriores, todos tinham mesmo bebido muito. Ninguém estava positivamente embriagado, mas rara era ali a cabeça perfeitamente segura.
—Esse animal tem a mania do teatro — disse Somers, enchendo o cachimbo.
— Agora, enquanto não nos deslumbrar com seus talentos, fazendo de fantasma diante de nós, não nos deixará em paz.
Nesse momento, o garçom, que descera a adega para buscar mais cerveja, voltou como um louco, livido, tropeçando e suando…
—Lá em baixo… Ele está lá em baixo!
—Quem?
—O fantasma… Quando eu me abaixei para o barril, vi uma sombra e, voltando-me, vi-o de pé, num canto, olhando para mim.
Essa declaração foi acolhida pelas mais variadas exclamações; mas logo que pôde pronunciar algumas palavras com mais calma, o pobre garçom insistiu:
—Sim, meus senhores. Eu vi... Vi como os estou vendo.
—Como era ele?
—Muito pálido, magro, com os olhos fundos. Que horror!
E o desgraçado tremia…
—Ora qual! Você está com medo… Julgou ver.
—Não… não. Eu vi. Juro que vi.
Ficaram um instante todos em torno do garçom, tentando restituir-lhe a calma. Mas ninguém falava em ir à adega apurar a inverdade de suas afirmações. Foram interrompidos pelo rumor de um gemido e passos precipitados. Voltaram-se e viram uma figura tão exótica, que tiveram dificuldade em reconhecer Hirst, vestido com calça curta, sapatos de fivela, uma cabeleira empoada, quase fora da cabeça e uma fisionomia transtornada pelo terror, a despeito do carmim com que pintara desajeitadamente as faces.
—Que é isso? Que houve? — perguntaram-lhe.
Malcolm apresentava-lhe um copo d’água. Hirst bebeu-o avidamente. Depois, segurando com força nervosa o braço de outro viajante, gaguejou:
—Eu estava gracejando e vi…
—Viu o quê?
— O fantasma… Valha-me Deus! Nunca mais me atreverei a brincar com essas coisas…
—Mas viu como… onde?
—Eu vinha descendo a escada… Vinha hirto, com um passo duro, vestido assim para assustar vocês, quando senti que me batiam num ombro. Voltei-me e vi…
Interrompeu-se, olhou com angustia para o corredor e ciciou:
—Olhem bem para a escada… Não estão vendo coisa alguma ali?
—Não… Não estamos vendo coisa alguma — respondeu Malcolm, com voz um pouco vacilante.
—Pois eu, quando me voltei, vi uma cara pequenina, pálida, com uma expressão cruel, traiçoeira. Que horror!
—Foi exatamente o que eu vi na adega — gemeu o garçom, com voz lamentosa.
Hirst estremeceu e, sem largar o braço do companheiro, deixou-se cair em uma poltrona, murmurando:
—Amanhã mesmo partirei daqui.
—E eu vou me despedir da casa — disse o garçom.
—Não sejam tolos — disse Somers. — Aconteceu o que tinha que acontecer… Começamos a falar nessas coisas, a esta hora da noite, e acabamos vendo tudo quanto a imaginação nos inspira.
—Diabos levem o tal velho com suas histórias! — exclamou Malcolm, irritado.—Já são dois que julgaram ver um… Eu mesmo sou capaz de ver também alguma coisa.
—Eu juro que vi como os estou vendo.
—Quem quer vir à adega comigo? — perguntou Malcolm.
—Vá sozinho, você, se quiser — disse outro.
O oficial reformado foi até a porta da adega, olhou para a escada. Mas, pouco depois, voltou.
—Viu alguma coisa? — perguntou Malcolm.
— Não sei. Tenho a impressão de que um vulto passou lentamente. Como se sente agora?
— Oh! Melhor… Muito melhor — respondeu Hirst, um pouco bruscamente. — Vocês devem me julgar um poltrão… Mas, se tivessem visto como eu… Vou me deitar. Mas confesso que gostaria de ter um companheiro. Há em meu quarto duas camas. Quem me quer fazer companhia esta noite?
Dirigia-se a Somers, que respondeu com um sorriso.
— Com muito gosto. E digo mais: acho que vemos deixar a lâmpada acesa toda a noite.
Dirigiu-se para o corredor e subiu a escada, conduzindo Hirst por um braço.
Os outros ficaram um instante em silêncio. De súbito, Malcolm observou:
—Coitado do Hirst! Ele, que pretendia nos assustar… Nunca vi um homem tremer tanto…
— Não zombe dele — disse outro.
— Olhe, eu não me envergonho de perguntar quem quer vir me fazer companhia. Também prefiro não ficar sozinho.
—Vou eu — disse Malcolm.
— E nós, Sr. Leek? — perguntou um outro. —Não quer trazer sua cama para meu quarto?
—Não, obrigado — disse Leek, com vivacidade. —Eu não acredito em fantasmas. Se algum dia me aparecer um, disparo-lhe um tiro, sem hesitação.
—Contra um fantasma não é provável que um tiro produza efeito algum… — observou Malcolm.
— Não faz mal. Ao menos, o estampido servirá para espantá-lo. Quanto ao senhor, se está nervoso, pode vir para meu quarto —concluiu ele, dirigindo-se ao que lhe propusera companhia. — Ou então proponha a George dormir no seu.
— Sim, senhor. E eu aceito — disse o garçom.
E voltavam-se já para a porta do corredor, quando ouviram nele passos pesados.
Imobilizaram-se, esperando, e, de súbito, viram surgir da penumbra uma estranha figura, com rosto lívido, olhos cavos e imóveis, cabelos cortados à escovinha…
Por um instante, essa figura se manteve imóvel, depois adiantou-se, num movimento hesitante…. Deteve-se de novo, ergueu as mãos, desatou o largo lenço negro, que trazia ao pescoço, e imediatamente sua cabeça tombou sobre um ombro.
Quase no mesmo instante, ouviu-se uma detonação seca, um forte odor de pólvora encheu a sala e o fantasma caiu como uma massa.
— Meu Deus! — exclamou Malcolm, que se curvou e, fitando atentamente o corpo caído, continuou, com a voz entrecortada pelo horror:
— É Hirst. É o pobre Hirst! Depressa. Um médico!
Leek deixara cair o revólver e ocultara o rosto entre as mãos. Somers surgira do corredor, alarmado, e, ao contemplar aquela cena, bradou:
—Valha-me Deus! Vocês não o… Sim? Oh! Eu bem lhe disse que não fizesse isso… Eu bem lhe disse…
—Pobre Hirst! — exclamou Malcolm. — Foi a primeira vez em que representou bem. Agora compreendo tudo… Ele disse que vira o fantasma… Fingiu medo, para nos iludir e preparar essa cena…
Mas ninguém deu atenção às suas palavras, porque Somers soluçava alto, repetindo:
— Eu bem lhe disse! Eu bem lhe disse!
Fonte: “Eu sei Tudo”, edição de julho de 1935.

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