O GATO AZUL DE SCHRÖDINGER - Conto de Horror - Marcelo Medone
O GATO AZUL DE SCHRÖDINGER
Marcelo Medone
Pedro caminha nervoso pela calçada estreita. Ele saiu tarde do trabalho. Ele quer chegar em casa antes que escureça, para se sentir seguro. Suas crises de ansiedade vão matá-lo algum dia. Ou seus surtos de paranóia.
Ele pega um atalho e entra em um bairro desconhecido. “Eu deveria ter seguido pelo caminho seguro”, diz a si mesmo. De qualquer forma, decide continuar andando por ali, embora acelerando o passo.
De repente, ele se depara com um prédio que não conhece, com uma fachada anônima e uma pequena porta de madeira. Um grande letreiro luminoso anuncia na marquise: “TEATRO O GATO AZUL – PEQUENAS PEÇAS TEATRAIS PARA PEQUENOS AUDITÓRIOS”. Ao lado da porta, há uma pequena placa em letras vermelhas: “HÁ UMA VAGA DISPONÍVEL PARA A PRÓXIMA PEÇA”.
Um homem gordo vestido com uma libré guarda a entrada. Antes que Pedro possa impedi-lo, o gordo se aproxima dele.
— Você está interessado? Temos um lugar disponível para você. Entrada totalmente gratuita. Garantimos que irá superar as suas expectativas.
Pedro fica um momento avaliando a situação.
O cartaz vermelho pisca com um brilho fantasmagórico, convidando-o a entrar.
— Que tipo de peça é? — pergunta Pedro.
— É um policial, no estilo das antigas peças inglesas de mistério. Há um morto e um assassino, é claro. Elenco mínimo, poucos espectadores. Queremos que os assistentes vivam a peça com intensidade.
— É como um enigma de Agatha Christie? Um quarto fechado onde é preciso descobrir o assassino? Gosto dessas obras.
— Já ouviu falar do gato de Schrödinger?
— Tenho uma vaga ideia.
— É uma experiência teórica discutida por duas eminências científicas há um século. Erwin Schrödinger e Albert Einstein queriam levar os postulados da física quântica para o mundo macroscópico. No mundo quântico, uma pessoa pode estar em dois estados ao mesmo tempo: presente ou ausente. Da mesma forma, um gato trancado em uma caixa blindada especial deveria poder estar vivo ou morto. Estou te entediando?
— Não, de forma alguma. Parece que você é um especialista no assunto.
— Tornei-me especialista com o tempo. Mas não se engane: nós não concordamos com a famosa superposição quântica. Odiamos a indeterminação. Ou o gato está vivo ou está morto, mas não as duas coisas ao mesmo tempo. Você logo vai entender tudo.
Pedro parece indeciso.
— Ainda falta muito para começar? — diz ele. — Não gostaria de perder muito tempo.
— Ansioso, não é? — diz o homem. — Aqui representamos peças muito curtas, de poucos minutos. Como já lhe disse, cada peça é para um público seleto, de apenas doze espectadores. Temos um lugar disponível para você. Já vai começar. É exatamente o que você precisa. Não pense mais nisso. Verá que é feita à sua medida.
— Devo confessar que fiquei curioso.
— Dizem que a curiosidade matou o gato. Como o gato de Schrödinger! Ha, ha, ha!
Pedro olha para ele com uma expressão confusa.
— É um mistério que ganha um significado diferente em cada função — diz o homem gordo. — O elenco é renovado continuamente. Por curiosidade, qual é o seu nome?
— Pedro. Pedro Sanabria.
O homem gordo sorri satisfeito e abre a porta cerimonialmente.
— Depois de você — diz ele.
Pedro entra docilmente. Atrás dele, o homem fecha a porta e a tranca com um pesado ferrolho metálico.
— Função completa! — exclama o gordo, para o interior do teatro.
Lá fora, o letreiro vermelho ao lado da porta e o letreiro azul da marquise se apagam.
Eles avançam por um pequeno corredor.
O homem gordo com a libré abre uma cortina e eles entram em um pequeno palco profusamente iluminado, no centro do qual há um grande trono embutido em uma gigantesca escultura de um gato azul. A Pedro, isso lembra um artefato do Antigo Egito.
Começa a tocar uma música inquietante, com órgão de igreja e violinos. Pedro sente um arrepio na espinha. Parece estar em uma cerimônia religiosa de uma seita secreta.
O homem faz um gesto para que ele se sente.
— Ali? — pergunta Pedro, apontando para o trono.
— Sim, cara. Vá em frente. O lugar mais privilegiado de todos. O centro de todo o espetáculo.
Hesitante, Pedro obedece. Imediatamente, aparecem dois assistentes, que o seguram e amarram seus dois pulsos com correias aos braços do trono, enquanto outro amarra seu pescoço ao encosto, prendendo-o firmemente.
Pedro se sente como Alex DeLarge, o protagonista do romance e do filme “A Laranja Mecânica”, um psicopata que é feito prisioneiro pelo Estado para ser submetido a uma terapia de reabilitação por aversão chamada “Técnica Ludovico”.
Para aumentar sua desconfiança, Pedro observa que várias câmeras o estão filmando do alto. Quem sabe quem está observando-o.
Ele está tão petrificado pelo horror que é incapaz de protestar ou emitir um único som. Ele não sabe se tudo isso é apenas parte de uma encenação teatral ou se ele está diante de uma gangue de criminosos sádicos.
Então, abrem uma cortina e Pedro vê que, do outro lado do palco, há um auditório com doze assentos ocupados. Todos observam, expectantes.
O homem gordo de libré avança para a frente e proclama:
— Apresento-lhes o novo protagonista da peça: o senhor Pedro Sanabria. Nossa nova vítima.
Os espectadores começam a aplaudir e a dar gritos de alegria.
A música agora soa mais forte, com o som de tambores e gongos. As luzes acendem e apagam freneticamente, em flashes deslumbrantes.
— Vocês não podem fazer isso comigo! Eu sou inocente! — exclama Pedro, tentando elevar a voz acima dos gritos frenéticos.
— Tão inocente quanto o gato de Schrödinger — responde o homem gordo, enquanto um dos espectadores, jubilante, se levanta de seu assento, levanta o braço, no qual empunha um revólver, aponta para o peito de Pedro e atira.
Ilustração: PS/Dreamina.
Texto integrante da revista bilíngue (português e espanhol) “Relatos Fantásticos”, vol. V. Para acessá-la na íntegra, clique aqui.

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