O VAMPIRO DE JOINVILLE - Conto de Terror - Rogério Silvério de Farias
O VAMPIRO DE JOINVILLE
Rogério Silvério de Farias
A manhã nasceu úmida em Joinville, embalada por uma névoa fina que rastejava pelas ruas como um fantasma. O silêncio parecia mais denso que o habitual, como se a cidade, em sua velha elegância germânica, pressentisse algo que os homens, cegos em sua rotina, jamais perceberiam.
Carlos pedalava lentamente sua bicicleta pelo calçamento irregular do centro histórico. O ranger dos pedais, somado ao chiado dos pneus no paralelepípedo molhado, parecia o único som pulsante naquele cenário que beirava o irreal. O vento frio roçava-lhe o rosto, trazendo consigo um cheiro agridoce de folhas mortas e um perfume de coisa antiga — algo que a própria Cidade das Flores parecia querer esquecer.
E foi então que “ele” surgiu.
Estático. Espectral. Sombrio…
Inexplicável.
Deslocado no tempo e no espaço.
Ali, no meio da praça, um homem — se é que aquilo merecia tal definição — permanecia imóvel. Alto, esguio, envergava um paletó negro de corte antigo, saído talvez de um retrato amarelado do século XIX. Sua pele era pálida, quase translúcida, como porcelana fria sob a luz do sol enevoado. Mas foram os olhos que congelaram Carlos.
Olhos que não refletiam luz.
Buracos escuros.
Poços de ausência.
Carlos tentou, instintivamente, desviar. Tarde demais.
O estranho virou-se com uma lentidão desconfortável, como quem rasga a própria realidade ao se mover. Um sorriso brotou-lhe nos lábios, largo demais, revelando dentes longos, brancos e absurdamente afiados.
— Bom dia… — disse, com uma voz que não pertencia ao mundo dos vivos. Uma voz que não atravessava o ar, mas vibrava direto dentro do crânio de Carlos, como um pensamento intruso, invasivo, profano.
O corpo de Carlos gelou. Tentou responder, mas sua boca era uma peça desconectada, inútil. Então, veio a dor. Uma pressão crescente nas têmporas, um latejar insuportável, como se algo—algo frio, afiado e impiedoso—estivesse escavando sua mente por dentro.
E as portas se abriram.
Flashs. Fragmentos. Memórias. Segredos. Medos enterrados nas camadas mais profundas da psique. Sua infância, suas culpas, seus desejos inconfessáveis. Tudo fluía para fora, sendo sorvido, sugado, drenado…
— Delicioso… — sussurrou o vampiro, com um gemido que misturava prazer e perversão. Seus olhos se fecharam, e sua expressão era a de quem degusta um vinho raro, envelhecido por décadas, selado no porão da alma. — Seus medos… tão… suculentos…
As pernas de Carlos cederam. A bicicleta tombou. E ele, ali, prostrado no chão úmido, não conseguia sequer lembrar por que estava assustado. Não conseguia lembrar… de nada.
O vampiro abaixou-se, pousando dedos longos, gelados e finos como garras sobre sua testa.
— Shhhh… — sussurrou, como se ninasse uma criança. — Não se preocupe. Ninguém sente falta daquilo que não sabe que perdeu…
E então… o vazio.
O que fazia de Carlos um indivíduo — seus pensamentos, memórias, desejos, medos e sonhos — foi sugado, tragado, desintegrado dentro daquela criatura que sorria, agora plena, saciada.
Quando se levantou, ajeitando o paletó com elegância anacrônica, o vampiro caminhou pela praça como qualquer outro transeunte. Aos olhos dos demais, era só mais um homem estranho, talvez um turista excêntrico.
Afinal… quem notaria uma vítima que nem sequer se lembrava de ter sido atacada?
E naquela cidade, onde o sol parecia apenas um espectro pálido atrás da neblina, ninguém estava verdadeiramente a salvo.
Porque há vampiros que não se alimentam de sangue.
Há predadores piores.
Os que devoram almas.
Ilustração: RSF/Grok.

Comentários
Postar um comentário