SONATA PARA UM MUNDO NOVO - Conto de Ficção Científica - Daniel Frini
SONATA PARA UM MUNDO NOVO
Daniel Frini
Tradução de Paulo Soriano
A nave desintegrou-se ao cruzar um campo de asteroides enquanto viajava a 33% da velocidade da luz. Anteriormente, quando a IA teve certeza de que a desintegração seria inevitável, ordenou aos instrumentos que ativassem as cápsulas de segurança. Algumas se atomizaram, como a nave. Outras se puseram em direção ao planeta.
Elas cruzaram o limite de Kármán a uma velocidade muito superior à de segurança e não conseguiram suportar o atrito e o calor resultante. Estilhaçaram-se na atmosfera, reduzindo-se a milhões de pedaços. A maioria não atingiu a superfície. Todas as cápsulas, exceto uma.
No entanto, seu pouso foi violento e descontrolado. O reator quebrou e, em milissegundos, um pulso em forma de radiação ionizante e de nêutrons matou os que a ocupavam. Todos, salvo ele.
Os gases neurais tiraram-no do sono da animação suspensa. O caos, ruído dos alarmes — intermináveis —, a fumaça e o cheiro penetrante e ácido o aturdiram. Levou vários minutos para se recompor e entender o que havia acontecido. O gosto metálico em sua boca lhe dizia que o reator se tinha rompido. Uma olhada ao redor mostrou-lhe que todos estavam mortos e que nem sequer haviam saído de seus nichos. Uma rápida varredura nos scanners mostrou que ninguém — e nada — de seu mundo estava vivo dentro de uma esfera de quatro anos-luz de raio, centrada em sua posição. Em outras palavras, a nave havia morrido. E ele estava sozinho.
Aquele situação ficou clara para ele, e essa compreensão o atingiu, deixando-o sem fôlego. Os anos de preparação, sua coragem e seu sangue-frio o impediram de gritar. Gemeu. Um nó inconcebível o impedia de engolir. Tentou chorar, mas as lágrimas negaram-se a cair: ele era o último habitante de seu mundo.
Não haviam conseguido.
Todos previram a aproximação do apocalipse; os sinais eram claros há muito tempo; as mudanças não poderiam pressagiar nada diferente. Mas, por alguma razão inexplicável, aqueles em posição de encontrar e implementar uma solução não só foram incapazes de fazer algo para impedir o desastre, enquanto era possível, como sequer o tentaram. Pior ainda, negaram o problema. Assim se passaram anos, décadas e séculos.
Muito tempo depois, quando tudo estava perdido, alguns governantes se aventuraram a dar explicações que, na verdade, não convenceram ninguém, e, claro, nada ofereceram que sugerisse o mínimo resquício de solução. Restava apenas salvar as sobras. E a memória. Mas nem mesmo nisto foram capazes de chegar a um acordo e os últimos e inestimáveis momentos da civilização foram perdidos.
Ao menos eles — os do seu grupo — tentaram.
A ideia nada tinha de original. Construir dez naves, nas quais carregariam tudo o que pudessem salvar de seu mundo. Dez arcas. Dez backups.
Mas o que salvar? Isso implicaria uma série interminável de seleções aleatórias, sem planejamento ou projeto; com apenas uma ideia vaga, um propósito indefinido, mais focado na ânsia de vergar a morte do que em um propósito concreto. Para eles, estava claro que não havia tempo para mais nada. O que deixar? O que levar? O que condenar, não à morte, mas ao esquecimento?
Tanta riqueza, vida, espécies, história, memórias. Tanta cultura. Um milhão de anos de cultura.
Além disto, para onde ir? Decidiram que cada uma das dez naves viajaria para um planeta distante dentre os milhões que haviam encontrado a orbitar estrelas distantes ao longo de milhares de anos — aqueles mais próximos do Planeta Mãe já haviam sido visitado e comprovaram-se inabitáveis. Disto emergiu outra das muitas outras tão importantes questões impossíveis de serem respondidas agora: por que alguns desses mundos não foram preparados para uma eventualidade ainda muito menor do que a extinção da vida no Planeta Mãe? Teriam eles tecnologia para tornar habitável outro mundo? E então?
Não havia outra opção senão procurar nas estrelas distantes; e arriscar, porque não havia meios de saber se o que havia acontecido antes — a impossibilidade de encontrar um planeta habitável — poderia, com apenas o vislumbre de observatórios em órbita, ser revertido. Era uma aposta de morte.
Começaram por selecionar os mundos entre os mais estudados no passado e descartar os que apresentavam alguma dúvida. Estudaram-se outros, em substituição aos rejeitados, em um processo recorrente que, finalmente, resultou em dez possíveis alvos, o mais próximo a cerca de 1.200 anos-luz de distância, e eles os fracionaram. Sua nave foi designada a um pequeno mundo azul, a meio caminho entre o centro e a borda da galáxia, gravitacionalmente preso a uma pequena estrela — uma anã branca do tipo G — a cerca de 2.500 anos-luz de distância. Quando chegassem, se chegassem, seu mundo já teria se tornado inabitável há muito tempo e, provavelmente, já teria desaparecido.
Perguntarem-se se conseguiriam alcançá-lo não foi em vão. Não sabiam se poderiam ir muito além do Planeta Mãe. A única forma de transportar tamanha carga era em naves com motores de radioisótopos de pósitrons, mas de um tamanho cinco vezes maior que as maiores já construídas. Dessa forma, seria possível viajar a não mais que 40% da velocidade da luz. Tal era o máximo a que poderiam aspirar. As naves teriam que ser fabricadas no espaço, fora do sistema, e carregadas em um grande número de viagens realizadas por naves convencionais com propulsão de motores helicoidais.
Assim foi feito.
Quando as dez naves estavam carregadas e prontas, a tripulação entrou em animação suspensa e a IA assumiu a ignição.
Ele foi designado para retardar o seu sono e supervisionar o início da viagem. Malgrado não pudesse ver as outras naves, detectou nos sensores, com horror, a inusual carga de antimatéria que somente poderia significar a destruição de, ao menos, seis das outras naves. Também pôde ver, nas telas, como as três restantes giraram descontroladamente e se puseram a cair em direção ao centro do sistema, seguindo o rumo à estrela. Sua nave, a única sobrevivente, iniciou sua jornada ao planeta designado, distante no espaço e no tempo.
Não havia mais nada a fazer. E lá se foram eles.
Ele era engenheiro e doutor em física nuclear, com experiência em nível III na operação de reatores de classe W — um dos únicos três técnicos capacitados em seu mundo — e era um especialista em armas de hidrogênio. Além disto, ele — assim como toda a tripulação — havia sido geneticamente modificado para resistir a 6500 rad de radiação ionizante. Ele sobreviveria à exposição aos prótons e partículas alfa de alta energia do espaço durante a mui longa viagem e à qualquer acidente. E isto aconteceu.
“Revisão!”. Uma voz proveniente de alguma parte de seu cérebro o devolveu à realidade. A sua temperança e maturidade mental permitiram-lhe superar o medo. Reagiu conforme exigia o seu treinamento. Automaticamente, verificou a sua condição e se tinha ou não ferimentos. Estava em condições física aceitáveis. Verificou o seu equipamento, o seu exoesqueleto e as suas armas. Estava tudo bem. Verificou a sua comunicação com a cápsula de segurança. Tudo bem. Acionou os comandos de sobrevivência. Estavam funcionando. Pelo menos, as baterias não haviam perdido a carga. Estado do reator? Vazamentos de radioisótopos. Ele resistiria.
Onde estava? Digitou os comandos no computador. A tela acendeu. Era o planeta certo. E a estrela? Há pouco se ocultara no horizonte. Estava na face escura. Tocou, na tela, o botão virtual “Verificação e exploração”. Era um mundo habitado. E com certo grau de civilização Tipo “0”, mas a cem ou duzentos anos de alcançar o Tipo 1. Fez uma careta de desgosto que, logo em seguida, se transformou em um rasgo de esperança. Talvez os nativos pudessem ajudá-lo.
Inundou-o um otimismo impensável segundo antes. Se conseguisse comunicar-se com eles, poderia contar-lhes sobre seu mundo.
Nada havia de orgânico a salvar, exceto o seu próprio corpo. Todavia, embora isso fosse melhor do que nada, ele era apenas uma minúscula amostra da diversidade que um dia conhecera. Mas os discos rígidos na cápsula continham uma cópia de segurança de todas as informações da nave; basicamente, um diário de bordo com todo o conhecimento de sua civilização. E, talvez, o grau de desenvolvimento de engenharia genética dos nativos pudesse reproduzir o genoma de pelo menos uma parte das espécies em seu mundo; e, claro, armazenar e conhecer toda a sua cultura.
Agora, era a sua esperança que o dominava Seu idioma não se perderia. Os idiomas de seu mundo não se perderiam. A música, a arte, a literatura, a geografia, as paisagens — os belos e amados ocasos do seu sol —, as selvas, os desertos, o gelo, a neve, o mar, as areias das praias, as cidades, a tecnologia, as plantas, os animais. A história, a sua história, a história da sua civilização; as excelentes conquistas das culturas antigas, os poemas gravados em tábuas de argila e as imensas bibliotecas de pergaminhos. E, claro, as guerras, as mortes, as pragas, a destruição, a superexploração, os assassinatos e genocídios, a escravidão, a maldade. E o crepúsculo — estúpido, idiota e alienado — do seu mundo.
— Eles poderiam usar nossa experiência e evitar o que nos destruiu — a si mesmo surpreendeu, falando em voz alta, entusiasmado. — Não somente serei capaz de preservar a memória da minha civilização. O que eu lhes tenho a oferecer pode-lhes salvar o próprio mundo!
Ele sabia, é evidente, que os nativos distorceriam as informações; usariam-nas com parcialidade e esconderiam materiais sensíveis uns dos outros. Conheceriam as suas armas e seu incrível poder. Ficariam surpresos com a possibilidade de dominar o espaço-tempo, de viajar para estrelas vizinhas, de curar todas as doenças e disputariam aquele conhecimento; mas ele estaria ali para preveni-los e evitar essas desagradáveis situações.
Convenceu-se, finalmente, do que era evidente. Os nativos reconstituiriam o mundo perdido, sua cultura e sua gente. Mas, muito mais importante do que isso, ele iria salvá-los da própria aniquilação.
Seria possível comunicar-se com eles, os nativos?
Na tela, pressionou o botão virtual que dizia “Informação, Comunicação e Linguagem”. O computador indicou que estava a escanear sinais. A barra de status rolava com uma lentidão exasperante. Então, ele leu na tela: “Informações insuficientes para determinar o número de espécies existentes. Estimativa: 9x106 espécies distintas.” Arregalou, surpreso, os olhos. “Uma espécie dominante identificada. Quantidade estimada de indivíduos desta espécie no planeta:7x109. Proximidade de indivíduos desta espécie: quatro indivíduos a dois mil metros. Características dos indivíduos: detectam radiação eletromagnética com os olhos, de 380 a 750 nanômetros, muito reduzida na face escura do planeta; detectam ondas de pressão, com os ouvidos, de 20 hertz a 20 kilohertz; detectam substâncias químicas com a língua e o nariz; detectam temperatura e pressão através da sua cobertura externa. Não detectam campos magnéticos. Não detectam radioatividade. Identificação de conceitos matemáticos: sistemas predominantes, base dez, base dois e base sessenta; conhecimento de zero e infinito, conhecimento de números primos, conhecimento de números irracionais e imaginários; conhecimento dos números e, pi e phi. Identificação de conceitos físicos: conhecimento da constante de Planck; conhecimento da constante gravitacional; conhecimento da permissividade elétrica no vácuo; conhecimento da permeabilidade magnética no vácuo. Identificação de conceitos químicos: conhecimento da camada de valência. Identificação de conceitos de linguagem em indivíduos: repetição de sons identificada; rácio de entropia calculada. Nível de possibilidade de comunicação: bom. Informações de codificação/decodificação baixadas para dispositivo móvel. Informações topográficas baixadas para dispositivo móvel. Informações sobre o ambiente baixadas para dispositivo móvel.”
— Tenho tanto a lhes ensinar — disse a si mesmo. Localizou a moradia dos nativos. Nenhum problema detectou ao longo do caminho. Novamente, verificou seu equipamento. Partiu. A maior das marchas. A que daria sentido à sua epopeia. A que salvaria a memória do seu mundo. A que salvaria este novo mundo de si mesmo.
Percorreu e atravessou, primeiro, malgrado não soubesse, o caminho que vai de Valdizán ao Castelo cristão, a antiga ferrovia e a Rua das Adegas. Viu a moradia e surpreendeu-se com o seu tamanho. Os nativos deviam ser enormes. Consultou seu dispositivo móvel. Apertou “Fisionomia” na tela. Lá estava a informação. Sim. Havia dois que eram cerca de cinquenta e cinco vezes o seu tamanho. Os outros dois eram cerca de trinta e sete vezes maiores.
A adrenalina o inundava. Aquele era o momento. Entrou na casa.
A mulher se levantou para levar os pratos à pia da cozinha. O jantar fora bom. O marido estava satisfeito e piscou para ela. As crianças adoraram o frango assado.
Ela deu dois passos e olhou para o chão.
— Puta merda! — disse ela e deu uma pisadela, que ressoou pela sala de jantar.
— O que foi que aconteceu? — perguntou o marido.
Ela respondeu:
— Nada, querido. Uma barata.
Ilustração: PS/Copilot.
Texto integrante da revista bilíngue (português e espanhol) “Relatos Fantásticos”, vol. V. Para acessá-la na íntegra, clique aqui.

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