UM SORRISO RADIANTE - Conto de Ficção Científica - Marco Eugenio Sánchez Arrate

UM SORRISO RADIANTE

Marco Eugenio Sánchez Arrate

Tradução de Paulo Soriano


Os escritórios estavam decorados num estilo NeoArt Déco futurista quando ele chegou ao balcão.

Bom dia, bem-vindo à empresa Seus Desejos são Ordens, sou Jenny Fertrueno, Jenny226 para os amigos. Em que posso ajudá-lo?

Sim, olá. Chamo-me Asterodio Corrales, Astero32 para os amigos, e comprei há sete meses o seu Pacote Premium de Felicidade Eterna, mas, na verdade, não estou nada satisfeito.

Oh, sinto muito, senhor… Corrales? Vejo a sua conta aqui. Não está feliz?

Estou feliz pra caramba.

Então, qual é o problema?

Estou farto de ser feliz o tempo todo. Estou feliz se me multam, se me cortam o salário, se fico doente com a doença arcturiana da virilha (aquela granulada que faz os colhões parecerem romãs descascadas), fico radiante se discuto com a minha mulher, se o meu filho Sonsolex6 leva pau em cinco matérias na escola e não passa para o quarto ano, nem mesmo com peixadas. Eu não consigo parar de ser feliz, nem mesmo quando caio da escada em casa e arrebento o cóccix, o que aconteceu esta manhã. E aqui estou eu, com o traseiro engessado e preso a um andador, somente para poder vir vê-la.

Poderia me contar algo mais sobre o seu problema?

A minha mulher diz que não consigo parar de sorrir e que está farta disto, que preferia voltar a ver-me sério, choroso ou zangado às vezes, como antigamente. Que não pode ser que eu veja sempre o lado bom das coisas e que sente muita, mas muita inveja, porque sofre muito mais do que eu.

É mesmo verdade?

Sim. É verdade. Minha esposa, Maruchi72, sempre sofreu miseravelmente. Tem um emprego de merda em uma fábrica que produz esfíncteres artificiais e sofre de meteorismo devastador, essa nova doença das colônias orbitais de gases explosivos que não podem ser contidos.

Nossa, que desagradável. Isso sim é que é sofrimento de verdade.

É assim mesmo. Ele solta uns puns que ninguém aguenta em casa. E, ainda por cima, se a gente transa e eu broxo, eu me borro de rir.

Bom, veja bem, a Felicidade Eterna consiste precisamente nisto, em ser feliz como um verdilhão livre e selvagem, aconteça o que acontecer. Ela é alcançada com uma descarga constante e elevada de dopamina, ocitocina, serotonina e várias endorfinas artificiais que mergulham as pessoas num estado de felicidade radiante e divertida o dia todo. Com o dispositivo implantado no cérebro, você entra no que chamamos de fase pervertida polimorfa.

Que porra é essa?

Uma fase copiada dos estágios primitivos do desenvolvimento infantil. Quando um bebê nasce, ele ainda não consegue diferenciar o que lhe dá prazer e felicidade do que não lhe dá. Então, ele experimenta o mundo, experimenta tudo, chupa ou morde tudo, gosta de tudo, até do que o machuca; falta-lhe discernimento."

Entendo.

E o nosso módulo de refocilamento extasiante é o que faz com que você se revire constantemente no colchão de felicidade, aconteça o que acontecer, de bom ou de mau, na sua vida. Alguém lhe dá uma bofetada? Você gosta. Alguém o insulta ou rouba a sua carteira no metrô às seis da manhã? Você fica tão feliz que nem liga.

Eu não consigo parar de sorrir, nem mesmo quando estou dormindo e tenho pesadelos horríveis; é insuportável. Minha mulher diz que isto é perturbador. Então discutimos e eu sinto uma felicidade enorme, e isto a deixa ainda mais irritada, o que agrava o problema. Nosso relacionamento não ia bem antes de eu vir para cá e que me introduzissem o módulo, entende?

Lamento informar que seu problema não tem uma solução viável. O módulo não é regulável; não pode ser desligado temporariamente. Ele está sempre ligado. É eterno, como o próprio nome diz.

Não podem fazer nada? Uma versão com regulador, atenuador ou desligamento temporário?

Receio que não, senhor. Mas tenho uma solução alternativa. Poderíamos oferecer-lhe o nosso Pacote de Sofrimento Abnegado. O senhor sofrerá como um campeão sem reclamar, irá trabalhar como um trabalhador braçal todos os dias, acordará às matinas, fará horas extras não remuneradas, o seu organismo estará adaptado ao sacrifício e ao sofrimento constantes. O senhor escolherá trabalhos desprezíveis, horários exaustivos, salários aviltantes, parceiros sanguessugas, comerá mal e dormirá menos. Terá a vida social de um cardo silvestre num terreno baldio. Os que já experimentaram dizem que é o cúmulo do sofrimento e que, como também incorpora um inibidor de reclamações, o sofre-se mais ainda mais por não poder queixar-se e desabafar... Ou talvez o senhor prefira o Pacote de Sofrimento Constante. Neste, até as boas notícias são recebidas com dor. Ganha uma loteria de setecentos milhões e se sente como se um hipopótamo enfurecido estivesse fodendo-o com tudo, com perdão da má palavra. Eu tenho instalado um módulo de Sinceridade Extrema, já deve ter percebido.

Sim, sim, percebe-se. Foi uma ótima decisão empresarial instalar esse módulo nos empregados. E essa má notícia que você me dá, de que não se pode atenuar ou desligar o módulo, deixa-me muito, muito feliz com a raiva que sinto. Receio que vou ter que pedir para desinstalarem essa coisa.

Ah, sinto muito. Isso vi demorar um pouco. Há uma lista de espera de quatro meses. Todos estão pedindo para desinstalar o pacote. Tem sido um fracasso comercial da empresa.

Mas você não avisou aos clientes, uma coisa muito desagradável. Que droga! Escutar toda essa merda me deixou tão feliz que acabei de ter um orgasmo.

Limpe-se com este lenço. Eu cuido disso.

Puta merda, que vergonha imensa. Estou ejaculando de novo.

Bem, colocarei o senhor na lista de espera. E sugiro-lhe que instale outro módulo de Felicidade Eterna em sua mulher. Para que ela não tenha inveja e as coisas fiquem equilibradas.

Ela não quer recorrer a estados de espírito artificiais. Diz que é melhor sentir a própria merda do que um paraíso artificial induzido e externo.

Interessante ponto de vista. A sua mulher deve ser um curioso exemplar de masoquista queixosa e pertinaz, que não faz nada para sair do seu estado de mau humor e abraça o próprio sofrimento como se fosse um polvo do Cantábrico agarrado à sua rocha marinha favorita. Dizem que há pessoas para quem o sofrimento dá identidade.

Parece que você a conhece. Além disso, ela é bem agressiva. No momento em que me descuido, ela me dá um tapão ou me bate com alguma coisa. De vez em quando, ela me dá uma surra tão grande que preciso ir ao posto de saúde local para ser tratado. Mas fico extasiado de felicidade.

É curioso. Ela parece precisar do módulo Felicidade Eterna mais do que o senhor.

Sim, com certeza. Enfim, tenho que ir agora. Se eu chegar tarde em casa, minha esposa vai achar que eu andei me envolvendo com alguma vagabunda, e aí estarei em apuros. Fiquei muito feliz em conversar com você e não ter conseguido resolver nada.

Foi um prazer conhecê-lo, Sr. Corrales. Avisaremos quando for a sua vez de extrair o módulo Felicidade.

Asteródio Corrales saiu da loja com um sorriso bobo no rosto. No caminho para casa, pensava na próxima briga com Maruchi72, sua mulher.

Ao chegar em casa, brigaram. “Com quem você estava? Que horas são essas de voltar para casa?”. Ela atirou um abajur na cabeça dele, e ele a atingiu três vezes com um travesseiro. Xingaram-se de tudo quanto é nome, juraram se divorciar e acabaram indo para a cama furiosos e sem dizer uma palavra, de costas um para o outro.

E Asteródio fechou os olhos, felizmente amargurado, e adormeceu com um sorriso nos lábios. Repugnantemente feliz, porque sua vida era uma grande merda.



Ilustração: PS/Perchance.

Texto integrante da revista bilíngue (português e espanhol) “Relatos Fantásticos”, vol. V. Para acessá-la na íntegra, clique aqui.

 

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