A AULA DOS ESPECTROS - Conto Clássico de Terror - Lasinha Luís Carlos de Caldas Brito
A AULA DOS ESPECTROS
Lasinha Luís Carlos de Caldas Brito
(Séc. XX)
Avisaram-me de que o velho colégio, situado naquele recanto sossegado de um bairro suburbano, não estava em situação de pagar muito bem, mas os tempos eram calamitosos e eu nunca fora homem de muitas exigências. Ordenado regular, comida, teto, que poderia mais eu desejar, quando tanta gente em volta de mim passava miséria? Aceitei, pois, o emprego e não foi, aliás, sem certa melancolia que me transportei com os meus pertences, naquela manhã chuvosa de agosto, ao velho casarão escondido entre árvores. O lugar ressumbrava umidade, antigo era o aspecto do colégio, mas, não sei porquê, logo a ele me afeiçoei e desejei sinceramente ali encontrar o sossego e a paz tão desejados. Cientificado de que meu quarto se encontrava no edifício anexo, não de aspecto tão decadente quanto o edifício principal, fiquei até certo ponto aliviado, mesmo porque não me sorria muito a ideia de fazer parte das coisas úmidas e sombrias que neste deviam estar abrigadas. O anexo era um pequeno prédio de dois andares, mais moderno e confortável, onde dormiam, aliás, todos os empregados e os professores mais moços que não possuíam família.
Desde o primeiro dia achei curiosa e interessante a figura do velho professor Baldomeu, que parecia engolido por um colarinho demasiado alto e duro, umas mangas de casaco largas demais, o cabelo comprido, um todo de pessoa que diminuiu dentro das roupas que, seja dito de passagem, não eram nunca substituídas… O professor Baldomeu, no entanto, gozava de muito prestígio, pelo menos de muita consideração entre o pessoal do colégio, foi o que me pareceu logo no primeiro dia. Todos o cumprimentavam muito atenciosamente ao vê-lo passar, mas em breve notei que poucos dele se acercavam. O velho dava a impressão de amar a solidão, sempre muito metido consigo mesmo, resolvendo sérios problemas de que a ninguém fazia parte, muito só, muito pessoal. No entanto, simpatizei com ele e logo ao segundo dia procurei entabular conversa. Fiquei, assim, sabendo que era dos poucos que tinham o seu dormitório no edifício principal, dando para a ala de trás, que eu, do anexo, não via.
— O prédio está muito estragado e um pouco úmido, mas que quer? Eu também estou velho e arraigado aos hábitos de outrora. Sempre vivi aqui e não gostaria de mudar de quarto. Os homens sozinhos mais facilmente se aferram aos ambientes e aos hábitos. Não me casei, nunca tive filhos. Afeiçoei-me a este lugar.
Por um outro empregado soube que havia trinta e três anos que ele lecionava no colégio. Não cheguei a assistir as aulas que ministrava durante o dia, porque coincidiam com as minhas horas mais ocupadas, mas, logo após os primeiros contatos, fiquei sabendo que dava aulas noturnas, o que achei em parte estranho.
— Aulas noturnas, professor Baldomeu? A que horas? — indaguei.
— À meia-noite em ponto — informou-me.
— São essas as aulas que dou com o melhor de mim mesmo. São os meus melhores alunos, os mais queridos. E nelas ensino as matérias mais interessantes.
— Mas… acho curioso que os alunos possam vir a essa hora! — exclamei. — Meia-noite é a hora dos meninos estarem no sétimo sono! Por que vêm eles assim tão tarde? Não poderiam dar aula em outra hora, mais cedo?
— É claro que não! Se pudessem, certamente viriam.
— São alunos pequenos, ou já são rapazinhos? — insisti eu, como sempre pecando pela curiosidade.
— De vários tamanhos e idades — respondeu o professor Baldomeu imperturbável.
Pedi-lhe desculpas por importuná-lo com tantas perguntas, mas o velho professor fez um gesto como se dissesse “isso não tem importância”, e passou adiante.
Tive ocasião de referir-me às aulas noturnas do professor Baldomeu em conversa com um jovem adjunto do terceiro ano, que me declarou:
— Esse velho é maníaco. Ninguém pode com ele.
Compreendi que devia ser uma das suas originalidades, a dessas aulas noturnas, talvez ministradas a alunos que trabalhassem de dia, gente pobre que passasse por cima da própria necessidade de descanso a fim de adquirir uma cultura necessária.
— Mas ele é bom professor? — indaguei, querendo levar adiante a conversa, sem grande êxito.
— Foi — disseram-me apenas.
De qualquer modo, resolvi-me a assistir a uma aula do professor Baldomeu. Era de todos os professores do velho colégio o que mais me interessava e atraía. Havia qualquer coisa de tão poderosamente sincero na sua maneira de ser, que eu me sentia inclinado a acompanhar-lhe os passos, a estimá-lo até. Estava pronto a ajudá-lo, a secundá-lo em sua obra meritória. Imaginava-o curvado, explicando a alunos de condição modesta árduos problemas com sacrifício de sua própria saúde. De qualquer modo — pensava — é um batalhador infatigável e uma alma generosa. Parecia-me um tanto caduco, nervoso, fora da época. Teria as qualidades de um bom professor? Espessa curiosidade impelia-me a apanhá-lo em flagrante, dando uma aula. Queria ver erguerem-se nos sagrados entusiasmos do ensino aquelas pálpebras de comum tão cuidadosamente abaixadas. Habituado a trabalhar em colégios, afeiçoara-me àquele ambiente de dar e receber cultura, gostava de ver os homens esforçados fazendo das tripas coração a fim de abrir as cabeças dos rapazes e meter a instrução lá dentro. Como agiria o velho professor Baldomeu com os seus discípulos da meia-noite? Tratá-los-ia com consideração e carinho, conforme dissera, talvez pelas suas precárias condições financeiras, ou ministraria as aulas cheio de rancor pelo adiantado da hora, morto de sono, a olhar periodicamente para o relógio?
Naquela noite, resolvi-me a surpreendê-lo em pleno exercício de suas funções de professor, já que, ao que compreendera, jamais ele me daria permissão para assistir oficialmente a essas aulas noturnas. Esperei, pois, não sem certa ansiedade, o bater da meia-noite. Da porta do edifício anexo, vi-o atravessar, através da janela, o corredor de cima, dirigindo-se ao salão de classe. Espreitei, esperando ouvir o barulho da entrada dos alunos. A entrada ficava do outro lado do edifício, de modo que eu, do anexo, não poderia ouvir, a não ser que apurasse demasiadamente os ouvidos. Verdade era que outro empregado me contara que de noite, no velho edifício, havia um ruído incrível de incessante movimento.
— É o velho professor Baldomeu com os seus alunos noturnos — expliquei. — Não deseja assistir a uma dessas aulas? — inquiri, desejoso de arranjar companhia com quem fossem repartidas as possíveis iras do velho.
— Não — respondeu-me com indiferença o homem. — Já não bastam as aulas que se realizam neste colégio durante o dia?! Não faltava mais nada que eu fosse dar agora para assistir às aulas dos alunos que vêm de noite! Mas está bem certo de que há mesmo essas aulas?
Estranhei essa pergunta. Eu era novo no emprego, mas então esse homem nunca tinha ouvido falar na classe noturna do professor Baldomeu?
Tomei a resolução de informar-me mais seguramente no dia seguinte. Mas, não sei porquê, naquela noite eu estava sozinho e sem sono quando a meia-noite se aproximou. Dirigi-me pé ante pé para o velho edifício e vi pela janela passar a figura do velho professor Baldomeu, no corredor de cima. Era exatamente meia-noite. Os alunos mantinham-se em admirável silêncio. Compreendi que ele devia ser muito respeitado ou temido, e procurei, também, pelo meu lado, não incomodá-lo. Fiquei à espreita na sala do lado e comecei a ouvir a voz do estranho velhinho.
— Henrique de Souza, quarto ano, apresente o dever de geografia!
— Paulo Mateus de Oliveira, terceiro ano, corrigiu os verbos franceses?
— Osvaldo da Mota Bicalho, quinto ano, preparou a tese de física?
Escutava a sua voz firme, de velho mestre habituado a mandar e ser obedecido e não ouvia nenhuma resposta dos alunos. Os meninos deviam manter-se mudos de respeito ou, talvez, não soubessem a lição… e o temessem…
— Leão Moreira Lopes, primeiro ano, venha ao quadro-negro! Venha, meu menino… Quero que demonstre a sua habilidade… que prove o que estudou…
Aguardei, com o coração batendo um tanto apressado. Achava curioso que tanto silêncio respondesse às palavras do professor. Estariam os meninos amuados, numa dessas greves de silêncio, tão comuns nos alunos indisciplinados, com que procuram demonstrar aos mestres os seus descontentamentos? Que haveria? Comecei a achar aquilo estranho.
— Bem. Muito bem. Agora você, Belmiro Pontes Ribeiro, segundo ano, sempre distraído, hein?! Nem ouviu a chamada? Vamos, meu menino!
Havia em sua voz um carinho especial, que eu nunca vira — nem em nenhuma voz de professor — quando ele se dirigia aos alunos, chamando-os. Tomava entonações paternais, parecia quase acariciar os nomes proferidos. Por que se conservava muda a classe diante do professor Baldomeu?
De repente, o silêncio se fez mais completo. Nem um leve rumor vinha da sala de aula. Meu coração desandou a bater descompassadamente. Nem mais o professor falava. Senti vagamente que qualquer coisa de muito esquisito devia estar acontecendo ali. Vivamente, e fora de qualquer controle da razão, empurrei a porta que comunicava com a sala de aula e entrei. Diante de mim estava a sala vazia. Sobre a mesa, no estrado, ao lado do quadro-negro, o professor Baldomeu deixara pender a cabeça sobre o braço. Aproximei-me dele, cautelosamente. Estava profundamente adormecido. Trêmulo, tomei o papel que tinha sob a mão. Era uma lista de nomes de alunos:
Henrique de Souza, quarto ano, um dos alunos mais distintos, primeiro em geografia. Morto de pneumonia dupla, aos doze anos.
Paulo Mateus de Oliveira, terceiro ano, expulso da aula e readmitido. Morto aos nove anos, de difteria.
Osvaldo da Mota Bicalho, quinto ano, era o sexto da turma. Morreu de febre amarela, aos quatorze anos.
Leão Moreira Lopes, primeiro ano, primeiro da turma. Morto aos oito anos de idade, sob as rodas de um caminhão.
A lista continuava, contendo uns dez ou doze nomes.
Senti um arrepio percorrendo-me os membros. Compreendi de relance. O professor Baldomeu ministrava uma aula a espectros, a antigos alunos seus, todos hoje mortos… Estava velho e tinha suas manias… Mas andava cansado e, naquela noite, o físico não resistira à doce loucura do espírito… Adormecera… deixando a aula interrompida.
Fiquei um longo minuto em silêncio, olhando a sala de classe deserta e aquele pobre homem adormecido. Senti-me envolvido por um silêncio espectral. Súbito, tirando-me violentamente do meu torpor, fez-se ouvir um estranho ruído… a princípio muito de leve… de leve… aumentando depois… tomando vulto repentinamente… crescendo… insuportável quase… Levei as mãos à cabeça. Seria o professor Baldomeu um doido ou seria eu que o estava ficando? Que significava aquele barulho, aquele sinistro ruído de inumeráveis vozes que não pareciam deste mundo, de atritos singulares, de pancadas surdas que corriam pela sala? Senti os cabelos arrepiados, e, levando de repente as mãos crispadas à boca, soltei um grito abafado! No mesmo momento, os ruídos desapareceram como que por encanto e tudo voltou ao silêncio anterior. Esperei, ofegante… Senti que não aguentaria por mais tempo e dei um passo em direção à porta. Foi então que vi, correndo por todos os lados, saltando dentro das carteiras entreabertas, pulando para o chão e escafedendo-se por entre as frinchas dos rodapés, uma interminável coleção de ratos assustados…
Fonte: “Fon Fon”, edição de 10 de dezembro de 1949.

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