A ESTÉTICA DO CAOS - Conto de Terror - Diony Scandela

A ESTÉTICA DO CAOS

Diony Scandela



Não há graça; não há culpa. Esta

é a Lei: FAZE O QUE TU QUERES!

Aleister Crowley



E disse o Senhor a Satanás: De

onde vens? E respondeu Satanás ao Senhor, e disse: De rodear a terra, e de

passear por ela.

Jó 1:7



Para Javier, viver fora de sua cidade natal não era fácil. Três anos após se formar na universidade, ele teve que passar por múltiplos empregos mal pagos: desde uma pizzaria e uma agência de internet de alta velocidade até cuidador de idosos. Porto Aztur era, naqueles anos, a cidade mais próspera da América Latina; grandes transnacionais estavam injetando empregos na cidade-ilha mais barulhenta do Cone Sul.

Javier Sattori acreditava que seu diploma lhe concederia uma vida de sonhos, com carros esportivos e uma casa simpática nos subúrbios da urbanização Abraxas. E no que resultou seu esforço? Um cargo de redator júnior no Diário Babalon. Eram três anos adiando férias e buscando alguma promoção.

Você está indo bem, rapaz, mas ainda lhe falta tenacidade e energia. Quero artigos impactantes — dizia seu chefe.

Quando não convidava sua namorada para comer em um restaurante barato da cidade, lia quadrinhos em seu quarto com música heavy metal em volume moderado. Javier era obeso, de rosto redondo, olhos tristes de um azul pálido e um corte de cabelo descuidado que combinava com sua barba. Caminhava a passo lento, como se imitasse os movimentos de um pinguim; sua voz parecia quase um sussurro que, combinado com aquela jaqueta jeans que deixava à mostra as camisetas do He-Man ou dos X-Men, dava um leve ar de inocência, quase ternura.

Vivia no terceiro andar de um prédio antigo perto do Bar Engels. Um casal conflituoso de lésbicas alugava o quarto para o pobre Javier. Diariamente ele tinha que ouvir slogans: “Sua presença patriarcal nos incomoda!”. Por que o rapaz aguentava isso? Era o quarto mais barato daquela zona e o Diário Babalon ficava a apenas três quadras de onde morava.

Sua namorada, Elena, o repreendia para que buscasse outro lugar e caísse fora daquele “apartamento de merda”. Javier respondia que, quando chegasse a tão esperada promoção, todos os seus sonhos se tornariam realidade. E lidar com Nuit (a parceira masculina da relação) era terrível. Hadit, a versão feminina, era um pouco mais branda.

Mas naquele treze de outubro, o pobre rapaz levou um bolo de Elena; ela disse que tinha muito trabalho atrasado na faculdade, então o pobre gordinho teve que jantar sozinho no bar do cais. Fazer o quê: tirou um gibi da mochila e começou a ler. Fazia muito frio e a cidade parecia a matéria escura do espaço, apenas adornada com luzinhas. No cais, havia um enorme navio de onde descarregavam mercadorias.

Javier terminou seu jantar e foi parar ali, na borda. O balanço das ondas trazia o fedor da (não muito disfarçada) poluição. Hipnotizado pela lua cheia, notou que perto do cais flutuava uma caixa estranha; sempre levava uma lanterninha na mochila, então decidiu iluminar o objeto. Fez um esforço para descer até o despenhadeiro e a pegou. Ninguém ao redor o viu.

Já em casa, pôde apreciar melhor o conteúdo: era uma caixa de madeira com a palavra SHEDIM. Símbolos estranhos que Javier pôde comparar com um livro que tinha em sua biblioteca: demônios hebreus, magia cabalística e esse tipo de esquisitice que pareceu estúpida a Javier. Abriu a caixa com um canivete suíço; o que havia dentro era ainda mais estranho: a cabeça ridícula de um gato preto de pelúcia, já se desfazendo, talvez por causa do sal do mar.

Entediado e com sono, não deu mais importância ao assunto e decidiu jogá-la no enorme contêiner de lixo em frente ao apartamento. Foi para seu quarto desordenado, onde ainda tinha uma reserva de refrigerante. Seu cachorro doberman, Thor, o esperava ali e pulou nele com grande força. Na TV estava passando Quanto Mais Idiota Melhor (Wayne's World); ele se jogou na cama, viu o início do filme e pegou no sono.

Lá fora, o tráfego já havia se dissipado e um ou outro usuário de drogas, bêbado ou delinquente remexia no lixo. Um viciado em heroína procurou no contêiner onde estava a caixa; em seu desespero, jogou-a no chão. Não viu nada interessante e seguiu seu caminho. No ar da noite, desenhou-se um rastro giratório marrom que saía da cabeça do gato. Aquele vapor misterioso voou até o terceiro andar do apartamento mais próximo, até aterrissar no quarto de um inquilino obeso. O vapor marrom buscava tomar alguma forma, mas na TV mostravam Rob Lowe com um terno elegante. Nas paredes, havia um pôster de heróis de ação, histórias em quadrinhos e filmes dos anos 80. Parou em um gibi do He-Man... Bateram na porta de Javier. Ele acordou.

Eram Nuit e Hadit. Vinham lembrá-lo de que em uma semana era dia de pagar o aluguel. Javier, entre o sono e a vigília, dirigiu-lhes um sorriso de deboche, mas Nuit lhe mostrou o dedo do meio. O rastro vaporoso já havia se escondido sob a cama do inquilino, mas seu “olhar” fixava-se na TV. Javier fechou a porta na cara delas, ignorando a quantidade de palavrões que o casal lhe dedicou.

Madrugar. Café da manhã rápido. Banho expresso e já estava no trabalho. Javier tinha pendente terminar um artigo sobre o desvio de recursos na governadoria. “Meu Deus, meu Deus, que o chefinho não veja que cheguei tarde”. De fato, viu seu chefe chegar à mesa de redação. Ele vinha com uma xícara de café quente.

Rapaz, há poucos minutos apresentei a todo o jornal o novo integrante… Dê as boas-vindas ao nosso novo campeão.

Apontou com solenidade para um sujeito encostado no batente da porta; a figura esbelta parecia brilhar com os raios intensos do sol daquela manhã. Para Javier, ele se parecia muito com James Dean, com um sorriso de galã de novela. Adán Cadmon caminhou direto para a mesa de Javier, ignorando os olhares de desejo das estagiárias e as sobrancelhas franzidas das ativistas da redação. Parou diante dele e baixou um pouco os óculos de sol escuros, revelando olhos que não eram totalmente azuis, mas da cor do ferro aquecido ao fogo; na gravata, tinha um prendedor de uma mulher de túnica vermelha montada sobre uma besta. Javier notou que aquele objeto brilhava levemente. Seria ouro?

Belo gibi, Javier — disse Adán, com um sorriso de canto de boca que lembrava um cigarro aceso na escuridão. — Mas a verdadeira magia não está no papel, mas na propriedade dos atos.

Javier engoliu em seco. O cheiro de sândalo e chuva no deserto que emanava do homem era inebriante.

Eu… oi. Não sabia que contratariam alguém hoje — gaguejou Javier, sentindo-se mais obeso e fora de lugar do que nunca sob aquele olhar de perfeição cirúrgica. Escondeu rapidamente o gibi dos X-Men entre as pastas de sua mesa.

Porto Aztur precisa de uma nova voz, não acha? — Adán apoiou-se na mesa de Javier com uma confiança insultante. — Alguém que fale de liberdade real, não dessas etiquetas de gênero que o seu jornal vomita toda manhã. Alguém que entenda que o mérito é a única lei que sobrevive aos séculos.

Cruzou os braços enquanto via Porto Aztur banhada pela manhã; caminhou graciosamente em círculos e voltou à mesa. Javier olhou para a mão de Adán sobre sua mesa. No dedo anelar, ele usava um anel de sinete com um símbolo que Javier vira em sua biblioteca de livros proibidos: o Thelema. Entre sua torre de gibis e graphic novels, o bom Javier tinha um livro de um ocultista inglês do século passado, um tal de Aleister Crowley. Um livro pesado de capa dura que comprou em um sebo.

O dia todo estiveram imersos na integração. Tanta conversa fiada sobre ter passado por muitos jornais da América Latina estava deixando Javier tonto. Adán se distraía olhando para o traseiro de algumas colegas, piscava para elas e até conseguiu o telefone de algumas. O gordo Javier teve que parar de repente:

Adán. Preciso que você demonstre tudo o que expôs no seu currículo... Você sabe como é o chefe, quer resultados imediatos.

Javier coçou a cabeça e depois deu as costas, como se estivesse envergonhado por ter dito a verdade. Adán estalou os dedos. Jogou-se em sua cadeira giratória e começou a escrever. Bastaram menos de quinze minutos: o sujeito escreveu a lápis e papel, depois na máquina de escrever… Vinte artigos! Três colunas de esportes, dez crônicas e sete de fofocas. Javier quase cuspiu seu café com leite e biscoitos quando viu a montanha de papel organizada sobre sua mesa. Adán Cadmon começou a girar em sua cadeira, até que seus óculos caíram no chão soltando um leve “Maldição!”. Enquanto se abaixava para recolhê-los, Javier pôde notar a diferença abismal de seus olhos: o direito era cor carmesim, o esquerdo era cor verde intenso. “Caralho, que porr...”.

Javier foi para sua cadeira tentando assimilar aquilo. Com a velocidade do raio, aquele homem escreveu algo que custaria semanas aos mais disciplinados jornalistas do Diário Babalon. Quando já quase terminava de ler tudo, Adán já estava quase pendurado em seu ombro com seu rosto de ator de Hollywood: implorou para que compartilhassem o crédito. Dizia que queria ajudar Javier, que gostava muito dele. De fato, enquanto Javier devorava outros biscoitos de chocolate com café, o bom Adán lhe propôs mudar sua vida: TUDO; as roupas, sua personalidade e até agilizar sua promoção. Javier ficou um pouco nervoso dizendo que não precisava que se metessem em sua vida, mas Adán insistiu:

Vamos. Você não pode se refugiar em seus gibis, sua música heavy metal

Como você sabe que eu ouço heavy metal?

Isso não importa, rapaz. Eu te conheço de vista; inclusive, eu moro perto do seu apartamento. Viajei muito: errante como um hebreu do Antigo Testamento. Estive no Rio de Janeiro trabalhando nas favelas, em Buenos Aires conheci um escritor cego que me contratou como copista, também em Caracas, onde mostrei a pior face do subdesenvolvimento latino-americano. Sou um maldito raposo velho que ganhou muito dinheiro à custa do sucesso. Sucesso! Essa é a nossa palavra, meu irmão.

Não sei por que você me parece tão real, mas às vezes irreal. Parece um televangelista gringo, embora use ternos com ombreiras bem retrô.

Adán explodiu em gargalhadas. Javier cobriu o rosto com o gibi dos X-Men para evitar que o vissem ao lado daquele colega louco recém-chegado. Para sua surpresa, ninguém pareceu notar.

Chama-se estilo, Javier. Conheço muito desses temas. Para entender a estética do caos, deste sistema de promoções e graus rumo à excelência, você deve olhar para as origens. O primeiro hierarca celestial, o manda-chuva que muitos chamam de “Deus” e “Pai”. Eu o respeito, acredite, mas não recomendo levá-lo muito a sério; ele não se importou em mandar seu filho sofrer por toda a escória do planeta para depois ressuscitá-lo. Por isso os religiosos tendem a ser um rebanho, uma moral de escravos, Javier! O céu é o primeiro Estado coletivista. Javé queria que todos fôssemos uma massa uniforme de louvor. Nós, os Shedim, fomos os primeiros a dizer “Fora!”. Não somos imundos por nossa essência, mas porque nos recusamos a seguir o roteiro de gênero espiritual que nos impuseram. Contemple minha imagem... reflete sucesso, elegância e estética. Javier, eu sou o homem primordial que saiu do que há de mais baixo na mediocridade. Você deve aspirar às alturas; olhe de cima para a massa de ovelhas ineptas enquanto saboreia os frutos do Éden.

Mais tarde, ambos estavam no Bar Engels. Javier pôde notar que, ocasionalmente, Adán tirava um cofrezinho dourado de sua maleta e cheirava um pedaço raro de pano antigo, como se estivesse se drogando com aquilo. Javier teve um calafrio e tocou levemente a cruz que pendia de seu pescoço.

Essa cruz é falsa — disse Adán, apontando com um dedo impecável para o colar de prata no pescoço de Javier, mal visível entre a gordura e a barba descuidada. — Bem, não falsa de todo. É prata, sim. Mas está vazia. É um símbolo de derrota, não de vitória.

Javier piscou, atordoado. O novo “campeão” da redação havia decidido apadrinhá-lo.

Não entendo o que a minha cruz tem a ver com o jornalismo, Adán — murmurou Javier, dando um gole em sua terceira cerveja. Sentia-se intimidado. Adán vestia um terno de linho branco que parecia repelir a sujeira do bar, enquanto Javier sentia como a gordura de sua própria pele manchava sua camiseta dos X-Men.

Tem a ver com a Vontade, meu querido aspirante a redator-chefe — Adán sorriu, e Javier notou que seus dentes eram afiados demais, perfeitos demais. — Você acredita que sua vida é uma tragédia grega, uma série de infortúnios impostos pelo destino ou por um Deus caprichoso. Mas a verdade é mais... libertadora. — Adán inclinou-se para frente. O cheiro de sândalo e ozônio que emanava se intensificou. — A verdade é que você é o criador de sua própria realidade. Mas você escolheu criar uma merda de realidade! Um lixo maldito!

Adán bateu na mesa com força. Mas, para surpresa de Javier, nenhum dos presentes notou aquele arrebatamento.

Você vive em um apartamento que odeia, com proprietárias que o desprezam, tem uma namorada que te dá o bolo e um trabalho que te explora. E tudo porque você segue as regras. As malditas regras dos cordeiros.

Javier mexeu-se em seu assento. Parte dele queria se levantar e ir embora, mas outra parte, faminta por reconhecimento, estava fascinada.

E o que você sugere que eu faça? Roube um banco? — bufou Javier.

Sugiro que abrace o caos, Javier. O caos não é desordem. É a sopa primordial da possibilidade. É a energia pura que este sistema tenta conter com suas leis e sua moral de escravos. — Adán pegou a mão de Javier. Seu toque era frio, como o gelo de uma geleira. — Eu posso te ensinar a moldar essa energia. Posso fazer seu chefe te implorar para aceitar a promoção. Posso fazer Elena te olhar com adoração, não com pena. Posso fazer do seu corpo um templo babilônico, não uma prisão de gordura.

Em troca de quê? — perguntou Javier, sua voz quase um sussurro. Sabia, por suas leituras de Crowley e gibis de terror, que esse tipo de oferta sempre tinha um preço.

O sorriso de Adán se alargou. Por um momento, pareceu a Javier ver uma sombra gigante projetando-se atrás do homem, uma sombra com asas quebradas e um capacete pontiagudo do qual saíam descargas elétricas. Mas piscou e só viu seu belo colega.

Em troca de nada, Javier. Só quero ver você florescer. Você é... um investimento a longo prazo. Você me lembra a mim mesmo, antes de eu... — Adán fez uma pausa, e pela primeira vez sua expressão tornou-se sombria — antes de eu me dar conta de que o Céu é uma prisão e seu Rei um tirano.

Naquela noite, quando Javier chegou ao seu apartamento, o ambiente estava carregado. Nuit e Hadit estavam gritando de novo. Javier entrou correndo em seu quarto, seguido por seu doberman, Thor. Jogou-se na cama, o eco das palavras de Adán ressoando em sua cabeça: “O caos é a sopa primordial da possibilidade”. Olhou ao redor. Seu quarto era um desastre de gibis, discos de heavy metal e garrafas vazias. Um símbolo de sua própria inércia.

No dia seguinte, Javier chegou ao jornal com uma nova determinação. Não trazia gibis. Trazia um gravador e uma lista de perguntas para o vereador que estava investigando. Adán o saudou com uma piscadela de sua mesa. Durante as semanas seguintes, a transformação de Javier foi palpável. Seguindo os conselhos de Adán, mudou sua dieta. Começou a ir à academia. Sua barba estava aparada, suas roupas eram mais profissionais. Seus artigos começaram a ser mais incisivos, mais... agressivos. O chefe, antes tão crítico, começou a olhá-lo com respeito. Elena, surpresa com a mudança, começou a cancelar menos seus encontros.

Mas a mudança não foi apenas física. Javier começou a notar coisas. Uma noite, enquanto saía do prédio do jornal com Adán, viram um morador de rua dormindo em um banco. Adán parou e olhou para o homem com uma mistura de desprezo e curiosidade.

Está vendo isso? — perguntou Adán. — Isso é o que acontece quando você se submete à vontade alheia. Esse homem é um desperdício de energia. Um parasita no corpo da sociedade.

É apenas um pobre homem, Adán — disse Javier, sentindo-se estranhamente desconfortável.

Não existem “pobres homens”, Javier. Existem apenas homens fortes e homens fracos. Os fortes tomam o que querem. Os fracos esperam que lhes deem. E se não lhes dão, morrem. É a lei natural. Ganha o mais apto, o mais forte.

À noite, o bom Adán Cadmon costumava visitar Javier. Entretinha-se folheando os gibis de sua biblioteca, em especial os mais sombrios; brincava dizendo que o Ciclope dos X-Men se parecia muito com ele. Leu com atenção um livro de capa dura que, ironicamente, Javier nunca havia lido. Chamava-se Filosofia do Thelema. Quase vomitou quando viu Nuit e Hadit passarem pelos corredores: Nuit olhou para ele com um olhar ameaçador e Adán respondeu tirando os óculos.

Olhe para este chiqueiro, Javier — disse Adán Cadmon, ajustando as abotoaduras de prata que brilhavam como escudos em miniatura. — Elas querem que você seja um número, um escravo de seus dogmas de gênero e sua falsa moral. Mas você e eu sabemos que a liberdade não se pede… toma-se com a força de um rei e a elegância de quem não tem nada a explicar. Temos um casal com uma dose reduzida de inteligência e falta de higiene. Acorde, Javier! Ponha para fora seu espírito de magnata, de estrategista de negócios. Você é mais inteligente que um jornalista comum.

Nessa mesma semana, Javier estava diante do apartamento de Nuit e Hadit, pagando o aluguel. O casal estava no meio de uma discussão especialmente violenta. Nuit estava gritando insultos a Hadit, que chorava em um canto. Javier Sattori respirou fundo, cruzou os braços e fuzilou Nuit com o olhar:

Acho que isso é maus-tratos… Tenho amigos advogados e policiais, Nuit. Com apenas algumas ligações você poderia estar atrás das grades por agressão verbal.

Maldito machista patriarcal… — Nuit aproximou-se para lhe dar um golpe, mas Javier parou seu punho com facilidade. — Posso ser um “machista patriarcal”, mas eu nunca bateria em uma mulher.

O sucesso sorria para ele. Agora usava perfumes franceses caros e ternos finos que o próprio Adán Cadmon o ajudou a escolher. Elena adorava o novo amigo do namorado; Javier ainda suspeitava que aquilo não era normal: muita perfeição, muita elegância e estilo. Constantemente via seu bom padrinho cheirar o fragmento raro de pano que tirava do cofrezinho dourado, mas nunca se atreveu a perguntar o porquê daquilo. Uma vez Adán escreveu três artigos e os deu de presente a Javier: o chefe explodiu de emoção e lhe deu um bônus de gratificação.

Em outra ocasião, ambos caminhavam pela rua enquanto viam um velho pregador com um megafone; Adán começou a zombar, mas o pregador apontou para ele, como se soubesse quem ele era. Javier, por sua vez, aceitou uma pequena Bíblia do ancião.

Isto lhe servirá, filho. Tome cuidado.

Não preste atenção nesse velho louco. Jogue isso no lixo — disse Adán.

Mas Javier não obedeceu. Guardou a Bíblia em sua maleta, ignorando o riso de deboche de Adán.

A cidade continuava crescendo a passos largos: a economia estava em ascensão. O apartamento de Javier já não cheirava a mofo. Agora emanava um aroma de sândalo e tabaco caro, o perfume residual de Adán Cadmon. Javier olhou-se no espelho: seu rosto projetava uma segurança que antes só via nos quadros de seus gibis. Sua namorada, Elena, dormia no quarto ao lado com um sorriso de paz absoluta. Antes da chegada do “novo colega”, o relacionamento deles era um campo minado de dúvidas. Mas Adán Cadmon só precisou de uma conversa a sós com ela para que Elena esquecesse suas queixas e se entregasse a uma devoção quase hipnótica.

Eu te disse, Javier. A estabilidade é uma questão de vontade, não de acaso — disse uma voz vinda da penumbra do corredor. — Imagine essas noites mágicas de sexo — piscou para Javier —, você não sentia falta dessa energia?

Adán Cadmon emergiu das sombras. Usava aquele terno azul-meia-noite que parecia absorver a luz. Ajustou uma abotoadura de ouro velho que brilhava como um olho antigo.

Elena está feliz. Sua promoção no Diário Babalon já é um fato; o diretor acredita que seus editoriais sobre a meritocracia são a nova voz da geração. Você deixou de ser um coletivo de inseguranças para ser um maldito vencedor. Um deus maciço!

É… é incrível, não é? — sussurrou Javier, sentindo pela primeira vez que era o dono de seu destino. — Mas elas… as donas… não param de protestar. Dizem que minha “presença” é uma microagressão, que meu doberman rompe o espaço seguro do edifício.

Adán Cadmon soltou uma gargalhada seca, sem alegria. Aproximou-se de Javier, e por um momento sua sombra na parede pareceu se alargar, adquirindo os ombros de um gigante e a silhueta de uma criatura com quatro asas esqueléticas. Na cabeça, um capacete estranho que emitia descargas elétricas.

Essas mulheres são o epítome do que detesto, Javier. Usam a linguagem nojenta da inclusão para exercer a tirania mais medíocre. São Shedim de espírito, parasitas que se alimentam de sua culpa. Mas para que sua liberdade seja total, a “limpeza” deve ser física. Faça sua vontade sem importar nada; torne-se essa besta selvagem que há dentro de sua alma.

Adán pareceu mudar sua forma em questão de segundos: seu rosto adquiriu a forma de um cavaleiro medieval, depois a de um caubói, um palhaço de pelúcia e, finalmente, voltou à sua aparência normal. O anjo caído tirou um pequeno frasco de cristal lapidado e um abridor de cartas de prata que parecia uma adaga em miniatura. Javier Sattori empalideceu e cobriu o rosto com o lençol.

Amanhã haverá outra discussão. Uma delas, a mais barulhenta, se machucará. Um acidente doméstico, talvez com a porta ou um copo quebrado. Só preciso de três gotas de seu sangue maldito, Javier.

Javier levantou-se de repente, mas o olhar de Adán Cadmon o ancorou ao chão. Elena continuava dormindo.

Não te contei, Javier. Meu verdadeiro nome é Shemihaza... Adán Cadmon é apenas um título que me foi dado por um exorcista hebreu do período intertestamentário. Eu preciso de um pouco de sangue imundo: cheio de rancor, ódio, ignorância e perversidade. O sangue de Nuit e Hadit é perfeito para o meu ritual. O último passo para te ajudar, amigo. Não me olhe assim — continuou a entidade com voz aveludada. — Não é um crime, é uma transação. Esse sangue inunda a terra e alimenta os Shedim que vivem sob estas tábuas de madeira. Em troca, elas irão embora. Irão com seu detestável cheiro para outro lugar, presas de um terror que não poderão explicar. O apartamento será seu. Sua propriedade privada. Seu castelo.

Adán começou a folhear um gibi do Capitão Trovão, bocejou e depois lhe estendeu o frasco. Naquele instante, o cachorro doberman se escondeu sob a mesa, como se visse que a mão que segurava o cristal não tinha unhas humanas, mas dedos alongados e geométricos.

Quer cumprir sua vontade verdadeira, Javier? Ou quer continuar sendo o inquilino dessas vadias?

O anjo loiro acendeu um cigarro. A fumaça, em vez de subir, desceu para o chão rastejando como um espectro cor de terra. Uma barata passou perto dos sapatos de Adán e reduziu-se a cinzas em um piscar de olhos. Javier pegou o frasco. O frio do cristal queimou seus dedos, mas a promessa de poder era mais forte que o medo.

O bom Javier Sattori faltou ao trabalho naquele dia: uma ligação para o chefe bastou para resolver o problema. Os gritos e insultos do apartamento de Nuit e Hadit foram o aroma do sucesso que Shemihaza já estava saboreando. O sujeito agora vestia um terno cor de vinho com gravata roxa. O aroma de perfume caro enchia todo o prédio. Javier estava vestido com o mesmo terno de seu “amigo”, ainda indeciso em prosseguir com o plano. Ninguém deve saber disso. Nem Elena, nem ninguém.

Quando, ao longe, a catedral deu três badaladas, Shemihaza tirou de sua maleta uma garrafa de uísque escocês e o derramou sob a borda da porta do apartamento de Nuit e Hadit. Lá dentro, depois de uma briga intensa, Nuit foi em direção à saída após bater em sua parceira... Abriu a porta para dar de cara com Javier e Shemihaza. Um leve deslize pelo chão cheio de uísque e ela caiu de costas. A fratura no pescoço foi causada por um golpe contra a borda da mesa.

Entraram na casa: Hadit estava encurralada junto à janela, com o rosto inchado enquanto chorava. Não havia percebido que sua parceira acabara de falecer. Shemihaza piscou para ela, estalou os dedos e, imediatamente, a mulher caiu no sono. Shemihaza fez uma pequena incisão com uma adaga no pulso de Nuit: o sangue saiu como uma torrente enquanto ele o depositava no cofre dourado, onde se fundia com o fragmento da túnica de Enoque.

Contemple, Javier. O fim da propriedade privada e o início da propriedade eterna — disse Shemihaza, apontando para o oceano, onde silhuetas de seres alados de cem metros de altura começavam a romper a superfície.

Muitos no cais garantiram ter visto naquela tarde nublada como o mar fervilhava com força. Um enorme relâmpago caiu sobre um ponto próximo a um navio que vinha em direção a Porto Aztur; em uma parte da cidade, um rabino começou a riscar as paredes de sua sinagoga em um transe de loucura. O caos estava se alicerçando de forma gradual.

Um vento gelado percorreu a cidade. Alguns gibis no quarto de Javier saíram voando pela janela. Javier foi até sua casa, entrou no quarto e encontrou tudo um desastre: o livro de capa dura do ocultista Aleister Crowley agora tinha o rosto de Shemihaza; das páginas escorria sangue. “Esta é a Lei: Faze o que tu queres”, costumava dizer-lhe também Shemihaza. E Javier fez o que considerou correto.

Regressou para onde estava Shemihaza: já não era o executivo elegante, seu corpo estava se abrindo em suturas… Estava tendo sua metamorfose sombria: quatro enormes asas esqueléticas com múltiplos olhos carmesins, verdes e púrpuras. A cabeça estava tornando-se alongada, enquanto o cabelo loiro ia crescendo em uma espiral dourada. Seus membros, agora dotados de uma musculatura anormal, haviam destruído o elegante terno vermelho. Javier estava gelado, e mais ainda quando Shemihaza dirigiu-lhe o olhar.

O caos é a mãe da vontade verdadeira, Javier — a voz aveludada agora era gutural, sinistra. — Meus irmãos estão prestes a despertar.

Decidido a acabar com aquela loucura, Javier pegou a garrafa de uísque e golpeou Shemihaza na cabeça. O ser, agora atordoado, caiu sobre o cadáver de Nuit. Javier aproximou sua maleta, mas Shemihaza deu-lhe um golpe no rosto para depois empurrá-lo. Mas Javier foi mais ágil e tirou a Bíblia que o pregador lhe dera semanas antes. Abriu ao acaso e leu:

— “A luz brilha nas trevas, e as trevas não a venceram”.

Era João 1:5. Javier havia sentenciado um anjo caído à sua destruição. Shemihaza gritou enquanto seu rosto se convertia em uma amálgama dos rostos dos gibis de Javier: um Coringa de carne, um He-Man de tendões expostos e uma deformidade feita de papel viscoso com capas dos X-MEN. A essência de Shemihaza foi se amontoando em um estranho vapor cor de terra que acabou caindo no cofrezinho dourado, junto com a túnica de Enoque e o sangue de Nuit. O ritual colapsou em uma implosão de fluidos negros. Sob o mar, os Vigilantes recuaram, deixando para trás uma maré vermelha de restos biológicos que cobriu as praias. Javier ficou transformado, com uma mão convertida em uma garra de papel e couro, marcada para sempre pelo Verbo.

Os Vigilantes sob o mar voltaram ao seu sono. O clima acalmou-se, dando lugar ao sol moribundo da tarde. Javier ficou sentado, Thor ganindo a seus pés. O frasco estava vazio, a Bíblia estava aberta e o mundo voltava a ser ordinário, terrivelmente ordinário, exceto pelo rastro de sândalo que nunca abandonaria suas roupas. A seus pés, os óculos de um antigo Adán Cadmon eram o único rastro de caos em sua vida.

Hadit testemunhou perante as autoridades que Nuit havia tentado matá-la em estado de embriaguez, até que escorregou e quebrou o pescoço. Suspeitava um pouco de Javier e seu estranho amigo, mas o que importava aquilo agora? Ela estava livre.

Javier continuou em seu novo cargo; agora o sucesso lhe sorria ainda melhor, sem ter um executivo carismático ao seu lado. Havia planos para mudar-se para um condomínio fechado longe da cidade. Continuou indo à academia. E em uma de suas saídas do trabalho, enquanto comprava alguns gibis na banca da esquina, cruzou com o velho pregador:

Eu te disse, filho.

Sim, e obrigado de verdade.

Ele lhe entregou um folheto de convite para ir no domingo a uma pequena igreja batista perto do Diário Babalon. No fim das contas, Shemihaza tinha razão ao dizer-lhe “Faze o que tu queres”, e Javier escolheu fazer o que é correto em um mundo cheio de caos. Talvez alguém lá em cima tivesse lhe enviado uma prova, como ao bom Jó nas Escrituras. Ainda guardava o cofrezinho dourado, agora trancado à chave, como sinal de sua vitória sobre um antigo anjo caído.





Diony Scandela. Escritor amador nascido na Venezuela, em 3 de julho de 1993. Iniciou-se formalmente na escrita com o romance "Perros de la Prehistoria", é autor de vários contos e relatos, sendo os mais conhecidos "Zorobabel", "Alienación", "La abominación desoladora" e "Al Dios no conocido"; reconhece em seus trabalhos influências de Jorge Luis Borges, Edgar Allan Poe, Horacio Quiroga e Dan Brown. Cristão convicto, é leitor fiel da Bíblia. Atualmente dirige a Revista Paladín, um fanzine dedicado à literatura de gênero.







 

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