A SEMANA FATAL - Conto Clássico Fúnebre - Alberto Donaudy
A SEMANA FATAL
Alberto Donaudy
(1880 – 1941)
Traduçõo de autor anônimo do séc. XX
Abatendo-se na poltrona do gabinete quando tencionava terminar um ofício, o comendador Bassá (Gustavo Adolfo, como lhe chamavam familiarmente até os contínuos) interrompeu do modo mais inesperado e imprevisto a sua carreira de funcionário publico, que durara vinte e nove anos e doze dias precisos, para empreender a de defunto que, de ordinário, dura mais.
Transportado para casa, deixou que lhe vestissem o fraque da sua primeira juventude (que lhe ficava um pouco estreito), que o cercassem com as flores da sua última primavera (que não tinham um cheiro lá muito agradável); avaro como era, consentiu, no entanto, que triplicassem a iluminação, e, durante vinte e quatro horas, esteve em casa pela última vez, esperando indolente e tranquilo, com os braços cruzados no peito, que, quando a mulher chegasse da Sicília, aonde fora ver a mãe, e os amigos dessem o fora do quarto, onde estavam reunidos desde pela manhã, o deixassem afinal dormir em paz.
O carro fúnebre estava já parado havia um bom pedaço, antes ainda que os íntimos da casa fossem chegados à estação para receber a sua mulher. E todos agora achavam-se consternados pelo golpe que ela teria ao chegar. É verdade que o telegrama que lhe fora expedido no dia anterior estava redigido de maneira a não lhe deixar esperança de salvação; mas se fosse possível escondê-lo em algum logar, aquele carro! Tinham feito tanto para lhe dar a notícia com a necessária cautela! Rasgando rascunhos sobre rascunhos, dez tinham posto mãos à obra no dia anterior sem resultado. Até que enfim chegara, gordo e autoritário, e afeito ao estilo sintético dos ofícios telegráficos, o chefe de seção, o qual imediatamente, com a sua caneta-tinteiro, tinha-o redigido assim:
“Gustavoad ligeiramente indisposto stop enterro amanhã.”
Prudente e definitivo. E econômico também. Tendo conservado um dos rascunhos em que havia uma emenda (Gustavo Adolfo em vez de Gustavoad, com o inútil dispêndio de uma palavra), mostrava-o agora a todos, justamente soberbo, e explicando, a quem queria ouvi-lo que, se a primeira parte, aquela que precedia o “stop”, teria evitado à mulher o golpe inesperado; a segunda, a que se seguia ao “stop”, não podia mais lhe deixar ilusão alguma, de modo a evitar o risco de não a ver chegar a tempo. Tudo, pois, se passaria da melhor forma sem a presença daquele carro fúnebre, que anulava todos os mais sábios preparativos e punha os ânimos num estado de penosa ansiedade, fazendo correr já algumas lágrimas negro-escarlates nos lenços das senhoras.
Mas, de repente, os acontecimentos tomaram um rumo inesperado. A viúva chegara, finalmente, anunciada por um primeiro grito emitido na rua, e já se deixara cair solaçando sobre o cadáver do marido, quando este começava a dar os primeiros sinais de uma certa inquietude.
Uma rápida contração do rosto, como uma tentativa para afastar uma mosca, e o ligeiro piscar de um olho, tinham já propagado um pouco de desordem nas fileiras serradas de quantos choravam derredor. Mas esse primeiro terror fora logo acalmado pela nova intervenção benéfica do chefe de secção, o qual resolvera imediatamente que se tratava apenas de um simples jogo de sombras dos círios acessos em torno do caixão.
— Ai de mim, não! —suspirara ele, ritual e patético. — Não, meus amigos! O nosso pobre Gustavo Adolfo infelizmente não nos será restituído nunca mais!
Esta frase convincente tornara a trazer a calma e a tranquilidade aos espíritos. E todos estavam de novo dispostos a uma fiel espera, quando um outro tipo dá novo alarme. Após o quê, de repente, quase mecanicamente, Gustavo Adolfo escancarara para os presentes dois imensos olhos esbugalhados. E então a gritaria e a fuga foram gerais.
Estranha a humanidade, e incompreensível sempre. Chora um ente querido porque está morto, e depois tem medo que ele possa ressuscitar. É verdade que o defunto devia se convencer de que a morte é uma coisa séria, um passo decisivo na carreira de um homem, e que, portanto, não se presta para brincadeiras e surpresas de um gosto bastante duvidoso; mas também é verdade que a humanidade em semelhantes casos poderia fazer uma exceção à regra, e comportar-se de uma maneira menos falsa e contraditória que a habitual.
Para Gustavo Adolfo, aquele primeiro passo em falso na sua carreira de defunto foi causa de infinitas amarguras. Até então vivera sem alegrias profundas, mas também sem excessivas dores. E no entanto, a partir daquele momento, tudo lhe foi adverso e hostil. Começara também para ele, desde aquele dia, a sua “semana fatal”.
Dizem que foi Balzac quem definiu assim esse ciclo de aflições que subitamente se desencadeiam, solidárias e ao mesmo tempo, sobre um homem só, sem lhe dar trégua, sem o deixar respirar, como se todas as forças inimigas estivessem coadunadas para um assalto geral. Era talvez a Morte vingando-se de ter sido mal compreendida e traída? Se fosse isso, Gustavo Adolfo não podia ter sido punido mais duramente.
Levantando-se do seu leito de morte, no primeiro dia, após o espanto e a fuga de quantos estavam ao redor, teve de se resignar também a aterrorizar quantos lhe eram vizinhos. E foram até tarde da noite gritos, tumultos, esconjuros, rumores de vidros e de portas batidas quando se punha à janela, e fugas precipitadas ao longo das escadas quando aparecia timidamente no patamar.
O segundo dia não foi mais alegre que o primeiro. Antes, pelo contrário, para ele, foi ainda mais amargo. Positivista como era, teve de resignar-se a funcionar como fantasma. Em casa, viu-se constrangido a abolir os reposteiros, a fazer-se preceder de um acesso de tosse, a abster-se de comparecer diante da mulher quando ela tinha nas mãos um objeto frágil que se prestasse a cair, e a não olhá-la fixamente nos olhos para não lhe trazer à recordação o olhar que tinha ao ressuscitar.
Na rua foi pior, visto que, para não fazer ruído em torno do acontecido, a intervenção de alguns amigos autoritários evitara que, após o anúncio inesperado de sua morte repentina, os jornais publicassem o mais inesperado ainda da sua ressurreição, e todo encontro era uma exclamação de maravilha, um suor frio, ou uma brusca palidez. Depois do que, avisado o fato, era de repente a multidão em torno dele. Todos perguntavam, todos queriam saber. Gustavo Adolfo perturbava a circulação. Prudentemente, feitos os primeiros encontros, voltou logo para casa, decidido a não funcionar mais como fantasma. Faltava-lhe a vocação para isso. Um desmentido por meio da imprensa seria talvez o melhor meio para solucionar o caso.
O terceiro dia foi, portanto, dedicado por ele ao seu renascimento, à reconstituição do seu estado civil.
— Ah, o senhor não morreu? — perguntou-lhe o diretor do “Homem de Chumbo”, fitando-o severamente, ao vê-lo entrar na redação.
— É como vê… — respondeu timidamente Gustavo Adolfo, girando o chapéu entre as mãos.
—Isto é um pouco cacete — respondeu o diretor, após madura reflexão, coçando a ponta do nariz.
—Cacete por quê? Bastará uma retificação.
—Aí está. Uma retificação. Já o esperava! Mas não posso, meu caro. Um jornal que se respeita nunca retifica.
Não houve meio de convencê-lo. A única promessa que Gustavo Adolfo pôde arrancar ao diretor do “Homem de Chumbo”, e de coração de pedra, foi a de que pensaria toda a noite e que, se possível, procuraria remediar.
Na manhã seguinte, com efeito, ao passo que os outros jornais punham na rubrica do Registro Civil: Mortos, 29 — Nascimentos, 40, “O Homem de Chumbo” publicava: Mortos, 28 — Nascimentos, 41.
Para um morto de menos, o diretor calculara mais um nascido. Estatisticamente dava certo: desse jeito, com aquela sua sapiente reflexão, o cômputo da população ficava mais exato. Mas Gustavo Adolfo chegou assim a achar-se na difícil situação de um recém-nascido que contava cinquenta e seis anos. E como acreditava — como todos acreditam — cegamente nos jornais, na manhã seguinte, ao acordar, pediu à mulher que lhe desse de mamar.
Estava-se na alvorada do quarta dia. O qual foi por ele dedicado às entrevistas. Os jovens poetas dramáticos tinham começado a saber do renascimento e se interessavam muito pelo seu caso. Se Judas tinha traído Jesus — segundo tudo o que pôde saber F. V. Rato —, para ser depois informado, dada a ressurreição, dos mistérios do Além, os jovens poetas dramáticos pensavam justamente que a ocasião era ótima para ter as mesmas noticias, sem causar a morte de ninguém a não ser a de algum futuro espectador apenas. Mas Gustavo Adolfo nada vira, não se lembrava de nada. Voltava do Além como de um passeio noturno através de um bosque, do qual, se se sai salvo, não se sabe o que contar. Além disso, como bom discípulo de Augusto Comte, perguntava: “Se volto do Nada, como posso dizer qualquer coisa?” — Evidentemente ele era também inimigo das tendencias literárias dos jovens poetas dramáticos, mas estes, nutridos como são do romantismo neoclássico, o abandonaram desgostosos com a sua sorte mesquinha. Um deles que, depois de Borgese e antes de Pirandelo, tinha em mente escrever um “Lázaro” (este, porém, audaz, novíssimo e que não tinha pústulas mal cheirosas), teve de desistir da ideia e contentar-se com uma “Maria Madlena”, diversa, entretanto, da de Maeterlinck, porque não se deixava lapidar facilmente, mas, pegando a primeira pedra que lhe atirava (e aqui é que estava a originalidade), arrumava-a na cabeça do lapidador. A novíssima concepção acabava simbolicamente com a derrota do Mal (na cabeça!), que se curava ao fim de dez dias, e com o triunfo do bem operado por Maria Madalena, mandando a pedra de volta.
Mas, se terminasse assim o ciclo de suas aflições, Gustavo Adolfo não podia lamentar-se muito. Foi a partir do quinto dia que começaram as verdadeiras dores. Era preciso pagar. E pagar despesas que não tinham servido para nada: as dos funerais. Na ausência da mulher, os amigos tinham querido fazer as coisas de modo a honrar-lhe dignamente a memória. E honrar uma memória significa, em jargão funerário, dar de comer aos vivos tudo o que o morto tinha posto de parte. Carro de luxo a oito cavalos, caixão de nogueira com alças de bronze, acompanhamento de frades que iriam cantando atrás deles o “De profundis”, gigantescas coroas com fitas largas como estradas reais. Os amigos não tinham olhado despesas. (Em geral, quando os outros pagam, não se olham despesas. As mulheres que o digam. E então, quando se trata de honrar uma memória, ainda se olham menos).
O pobre Gustavo Adolfo viu-se perdido. A ideia de que, após uma vida inteira de sacrifícios, tivera de botar fora, como morto, as poucas economias que chegara a acumular como vivo, tinha-o posto fora da graça de Deus, não lhe dava tréguas. Mas como? Ele, que nunca tomara o mais escangalhado calhambeque de um só cavalo em toda a sua vida, nem nos maiores dilúvios, tinha de pagar agora um de luxo, a oito cavalos, no qual nem ao menos chegara a andar? Ao menos o caixão, esse sim: sempre lhe poderia servir, qualquer dias e por enquanto podia servir para guardar os mantimentos da casa na cozinha, que ultimamente andava um pouco úmida. Mas o carro! E os coveiros! E a cova que já lhe tinham aberto!
Entretanto, pagou. Faltava-lhe o ar, mas pagou. Só parou na hora de pagar aos frades. Então, não quis mais. Abespinhou-se. Não sabia o que fazer de suas preces. Além disso, estava perfeitamente convicto que, assim como na salvação de sua alma, eles teriam pensado, ao recita-las, na boa ceia que fariam de noite em sua honra.
— Mas eles também vieram — objetou a mulher.
— Mas não rezaram.
— Não por culpa deles.
— Pois bem, pago-lhes o dia, mas quando ao menos tiverem feito seu dever — concluiu Gustavo Adolfo, batendo com a porta na cara do converso que viera cobrar a conta.
A verdade é que estava cansado, arruinado, enjoado, desiludido. Já lhe sorria a ideia de tornar a morrer. E talvez lhe sorrisse também a ideia de que aquela ceia em sua honra, os bravos frades teriam de suá-la, ao menos.
O sexto dia foi o mais cruel. Indo ao Ministério para reassumir o seu posto de chefe de secção, achou-o ocupado pelo seu subalterno imediato. Perdera, pois, até o lugar? Seria o cúmulo! Não era possível. Sufocado, correu imediatamente ao seu superior, o chefe de divisão que, tão afetuoso com ele quando expirara, decerto não lhe podia demonstrar, em vida, menor bondade e solicitude. Mas o chefe de divisão não lhe perdoara desde o dia em que lhe fizera decorar um longo discurso de improviso, sem deixa-lo depois pronunciar. Foi, portanto, seco e lacônico.
—O senhor ignora talvez que, presa à morte de cada um, está a vida, a carreira, a fortuna de um outro?
—Mas eu estou vivo…
—Depois de estar morto dois dias.
— Que diferença faz o senhor?
—Uma grandíssima diferença sob o ponto de vista burocrático. Porque o seu posto, com a sua morte, tinha, ipso facto, ficado vago. E bem sabe que com os regulamentos não se brinca. De resto, além da pensão…
—É tão magra!
—Ainda lhe fica um grau, uma posição social. O senhor tem títulos…
—Que não rendem…
—Tem uma honorificência…
— Que não é comestível.
Gustavo Adolfo saiu do Ministério com as pernas bambas. Estava sobretudo irritado contra si mesmo. Que triste ideia fora a sua de ressuscitar em tempos tão magros e difíceis, como os que o mundo atravessa? Esse excesso de vitalidade podia ser consentido nos tempos de Lázaro, ao qual bastara, após o “Veni foras!”, um bom banho no Jordão para ficar cheiroso e voltar logo à vida de sempre. Mas é possível que um homem ainda tenha tais veleidades em pleno século vinte? Era já tão difícil que o deixassem andar vivo, e ele ousara esperar que o deixassem ainda reviver depois de morto?
Gustavo Adolfo não hesitou mais. Com os últimos cobres parcos que lhe restavam, comprou um bom rolo de cordas, um gancho, um pedaço de sabão, e voltou para casa firmemente decidido a dedicar o sétimo dia da sua ressurreição a morrer a sério.
Na manhã seguinte, com efeito, aproveitando a mulher ter saído para as compras, subiu numa cadeira, pregou o gancho no quadro da porta da cozinha, amarrou-lhe a corda, em que já fizera um nó corrediço, meteu a cabeça no laço, deu um pontapé na cadeira e deixou-se cair.
Mas tinha feito os cálculos sem a Morte, misericordiosa como sempre, a quem pagara, sete dias antes, com tão negra ingratidão. E a Morte não queria mais saber de levá-lo embora. E assim, na pressa dos preparativos, esquecera de untar a corda com o sabão; e esta apertava, sim, mas não bastante para estrangulá-lo e não tão de leve que lhe deixasse forças para libertar-se. Suspenso como uma daquelas toalhas de enxugar pratos que a mulher costumava botar para secar na cozinha, ficou ali por quase meia hora, rodando, esperneando e abandonando-se a toda sorte de movimentos e atos descompostos, alguns dos quais — no dizer dos bem informados — eram até divertidos. E tanto rumor fazia com os seus movimentos que a mulher, voltando para casa, pensou que ele se tivesse empenhado em quem sabe que luta com um dos seus credores.
— Gustavo! Que fizeste?
Era mesmo destino que ela tivesse de encontrá-lo sempre entre a vida e a morte. Mas Gustavo Adolfo, ao vê-la, teve um lampejo de esperança.
—Ajuda-me! —murmurou, indicando-lie o pedaço de sabão no chão.
Pensando realmente ajudá-lo, ela estava para dar-lho, quando percebeu que ele lhe estendia as mãos com os olhos já fora das órbitas e a língua de fora, e isso, coitadinha, a aterrorizou de tal forma que deixou cair por terra o sabão e saiu correndo para pedir socorro aos vizinhos. Mais impressionáveis que ela, estes correram à portaria; e lá o porteiro opinou que a presença de um comissario é sempre necessária em semelhantes casos. Isto conseguiu salvar Gustavo Adolfo, isto é, ajudá-lo no seu proposito. Para falar verdade, ele era até capaz de se dispor a reviver de novo. Certas posições não são positivamente cômodas. E no entanto, a Morte tivera, finalmente, piedade dele; e, quando chegou o comissário seguido por todos os vizinhos, ela já se decidira a pegá-lo de uma vez por todas e levá-lo embora. A Assistência Pública desta vez foi misericordiosa para o sinistrado. Chegar tarde, portanto, nem sempre é mau.
Cortada a corda, todos o rodearam solícitos, numa grande azáfama para faze-lo voltar à vida. Mas ele já podia gozar o espetáculo do além, com indiferença a principio, e depois com simpatia e interesse. Incurável como era na sua boa-fé, estava quase acreditando que os que o rodeavam jaziam e falavam a sério, quando uma última contração espasmódica do seu corpo, devido a um ato reflexo, fez recuar num arrepio todos aqueles salvadores. Tornava ele a viver mais uma vez?
E então Gustavo Adolfo se convenceu finalmente que estava melhor onde estava; e, como nas fábulas antigas, recordou um velho provérbio que diz que quem está bem não muda de patrão.
Fonte: “Primeira”/RJ, edição de 10 de abril de 1929.
Imagem: Johannes Weber (séc. XX).

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