CONFISSÃO ENCONTRADA NUMA MASMORRA NA ÉPOCA DE CARLOS II - Conto Clássico de Horror - Charles Dickens
CONFISSÃO ENCONTRADA NUMA MASMORRA NA ÉPOCA DE CARLOS II
Charles Dickens
(1812 – 1870)
Tradução de Paulo Soriano
Eu tinha a patente de tenente no exército de Sua Majestade e servi no estrangeiro nas campanhas de 1667 e 1678. Concluído o Tratado de Nijmegen, voltei para casa e, abandonando o serviço militar, retirei-me a uma pequena propriedade situada poucas milhas a leste de Londres, que havia adquirido recentemente em decorrência de direitos de minha mulher.
Esta é a última noite de minha vida; por isso, revelarei toda a verdade, nua e crua, sem qualquer disfarce. Nunca fui um homem valente; tive, desde criança, uma natureza desconfiada, reservada e taciturna. Falo de mim mesmo como se já não mais estivesse neste mundo, pois, enquanto escrevo, já estão cavando a minha sepultura e escrevendo o meu nome no livro negro da morte.
Pouco depois de meu retorno à Inglaterra, meu único irmão contraiu uma enfermidade mortal. Esta circunstância não me causou sofrimento, pois quase não mantínhamos contato desde que nos tornamos adultos. Ele era um homem generoso e de coração aberto, mais belo do que eu, mais bem-sucedido e, em geral, mais amado. Os que, por serem seus amigos, quiseram conhecer-me no estrangeiro ou em nosso país, raras vezes se apegavam a mim por muito tempo, e sempre diziam, em nossa primeira conversa, que se surpreendiam em encontrar irmãos tão diferentes nos modos e no aspecto. Eu mesmo tinha o costume de provocar tal declaração, pois já sabia a espécie de comparações que fariam entre nós e, como sentia em meu coração uma amarga inveja, tratava de justificá-la diante de mim mesmo.
Nós nos havíamos casado com duas irmãs. Este vínculo adicional entre nós, tal como o considerariam alguns, serviu apenas para nos afastar ainda mais. Sua mulher me conhecia bem. Nunca, estando ela presente, mostrei meus ciúmes e rancores secretos, mas aquela mulher os conhecia tão bem quanto eu. Jamais, naqueles momentos, eu erguia os olhos quando os dela estavam fixos em mim, ou mesmo descia ou desviava olhar, mas sempre constrangia-me a sensação de que ela sempre me vigiava. Foi um alívio inexprimível para mim quando brigamos, e foi um alívio ainda maior quando, encontrando-me no estrangeiro, soube que ela havia morrido. Tenho agora a sensação de que, desde então, algum terrível e estranho prenúncio do que aconteceu pairava sobre nós. Eu a temia. Ela me aterrorizava. Seu olhar fixo e constante flutua sobre mim agora, como a lembrança de um sonho tenebroso, fazendo gelar o meu sangue.
Ela morreu pouco depois de dar à luz a uma criança, um menino. Quando o meu irmão soube que não havia esperança de recuperação em sua enfermidade, chamou a minha mulher para perto de seu leito e confiou o órfão, uma criança de quatro anos, à sua proteção. Legou ao menino todas as suas propriedades e escreveu em testamento que, em caso de morte do herdeiro, os bens passariam à minha mulher, como único reconhecimento que lhe poderia fazer de seus cuidados e amor. Trocou comigo algumas palavras fraternais, lamentando a nossa prolongada separação e, exaurido, mergulhou em um sono do qual jamais despertou.
Nós não tínhamos filhos e, como entre as irmãs houvera uma imensa afeição, e tendo a minha esposa quase ocupado o lugar de mãe para o menino, ela o amou como se a criança fosse realmente dela. O garoto estava fortemente ligado a ela. Todavia, ele era a imagem da mãe tanto na fisionomia quanto no espírito, e sempre desconfiou de mim.
Não posso precisar a data em que tive pela primeira vez aquela sensação, mas sei que começou a incomodar-me a simples presença daquela criança. Sempre que saía de meus melancólicos pensamentos, deparava com ele a olhar-me atentamente. Não com essa singela curiosidade infantil, mas com algo que continha o propósito e a finalidade que com tanta frequência eu observara em sua mãe. Não se tratava de nenhum esforço de minha imaginação: baseava-se na grande semelhança nos traços e na expressão. Eu nunca o surpreendi com os olhos baixos. Ele me temia, mas ao mesmo tempo parecia desprezar-me instintivamente. E, mesmo que retrocedesse ao meu olhar ― tal como fazia quando estávamos sozinhos, e para chegar-se mais perto da porta ―, sustentava fixos nos meus os seus olhos brilhantes.
Quiçá eu esteja escondendo de mim mesmo a verdade, mas não creio que, quando tudo aquilo começou, eu estivesse propenso a fazer-lhe algum mal. Talvez eu tenha refletido sobre o quão proveitosa nos seria a sua herança e, embora fosse possível que eu desejasse a sua morte, jamais pensei em provocá-la. Tal ideia não me chegou de repente. Ela veio aos poucos, insinuando-se, a princípio, de forma difusa, como que à distância, da mesma forma que os homens podem pensar em um terremoto ou no último dia de sua vida, que vai se aproximando cada vez mais, e, com isso, perdendo algo de seu horror e improbabilidade; a ideia convertia-se em parte integrante ― ou, melhor dizendo, quase toda soma e substância ― dos meus pensamentos diários, resolvendo-se não mais em uma questão de perpetração ou abstinência do ato, mas em meios e segurança na sua realização.
Entrementes ao que acontecia no meu íntimo, eu não podia suportar que o menino me apanhasse olhando para ele. Todavia, um fascínio me arrastava à contemplação de sua leve e frágil figura, pensando no quanto seria fácil matá-lo. Às vezes, subia furtivamente as escadas e o observava enquanto dormia; mas, geralmente, eu gravitava pelo jardim ― próximo da janela da sala em que ele se achava, inclinado, a estudar as suas pequenas lições ―, e, ali, enquanto ele permanecia sentado em uma cadeirinha, ao lado de minha mulher, eu o espreitava horas a fio, por detrás de uma árvore, escondendo-me e surpreendendo-me, como um culpado miserável que eu era, ao mínimo farfalhar de uma folha. Mas, ainda assim, esgueirava-me, somente para espiá-lo, e começar tudo de novo.
Bem próxima à nossa casa, mas longe de nossa vista, e, também, de nossos ouvidos quando o vento minimamente se agitava, havia uma extensão profunda de água. Usando a navalha, levei vários dias talhando um tosco modelo de barco, que por fim concluí e o deixei num lugar onde o garoto pusesse encontrá-lo. Então, escondi-me em um lugar secreto, por onde ele deveria escapar sozinho para fazer flutuar a bugiganga, e aguardei a sua chegada. Não veio nesse dia nem no dia seguinte, malgrado eu tenha esperado do meio-dia até o anoitecer. Eu estava certo de que o tinha em minha rede, pois eu o ouvi a falar do brinquedo, e sabia que, em seu prazer infantil, guardava o barquinho ao lado da cama. Eu não me senti cansado ou fatigado: esperei pacientemente e, no terceiro dia, ele passou próximo a mim, correndo alegremente, com seus cabelos sedosos ao vento, cantando ― que Deus tenha piedade de mim! ― uma alegre balada cujas palavras mal conseguia balbuciar.
Deslizei por trás dele, escondendo-me nuns arbustos que crescem naquelas paragens, e só o Diabo sabe com que terror eu, um homem forte e maduro, seguia os passos daquele garotinho, que se aproximava da beira da água. Eu estava praticamente sobre ele ― havia-me agachado sobre os joelhos e levantado uma mão para empurrá-lo ― quando ele viu a minha sombra na corrente e voltou-se para mim.
O fantasma da mãe mirava-me pelos olhos do menino. O Sol irrompeu por trás de uma nuvem: refulgia no céu brilhante, na terra luminosa, na água clara e nas gotas cintilantes de chuva sobre as folhas. Havia olhos em tudo. O imenso universo repleto de luz estava ali para testemunhar o assassinato. Eu não sei o que ele disse; ele procedia de um sangue valente e viril e, apesar de ser apenas uma criança, não se acovardou, nem me adulou. Não o ouvi dizer, entre choros, que me amava, mas que tentaria me amar, e o vi correndo de volta para casa. O que eu vi em seguida foi a espada desembainhada em minha mão e o menino morto aos meus pés, espargido de sangue aqui e ali, mas em nada diferente do corpo que eu havia contemplado enquanto dormia, mantendo a mesma atitude, com o queixo descansando em cima da mãozinha.
Eu o tomei nos meus braços, com grande cuidado, agora que ele estava morto, e o levei até uma moita. Naquele dia, minha mulher havia saído de casa e não regressaria até o dia seguinte. A janela de nosso quarto, o único que havia naquele lado da casa, estava a apenas poucos metros do chão, e eu resolvi descer por ela à noite para enterrá-lo no jardim. Nem me passou pela mente que havia fracassado em meu plano, nem que revolveriam a água sem nada encontrar, nem que o dinheiro estaria perdido, porquanto eu teria que alimentar crença de que o menino havia-se perdido, ou o haviam raptado. Todos meus pensamentos se concentravam na necessidade absorvente de ocultar o que eu havia feito.
Como me senti quando vieram me dizer que a criança estava desaparecida, quando enviei batedores em todas as direções, quando me sobressaltava e tremia à aproximação das pessoas, não há língua humana capaz de expressar, nem mente capaz de conceber. Eu o enterrei naquela noite. Quando eu separei os ramos e olhei dentro do matagal escuro, vi sobre o menino assassinado um vaga-lume que brilhava como o espírito visível de Deus. Mirei o seu túmulo quando ali o coloquei; o vaga-lume continuava a brilhar sobre o seu peito: um olho de fogo que voltava o olhar para o céu, em súplica para as estrelas, que me observavam em meu mister.
Tive de buscar a minha consorte e participar-lhe a notícia, dando-lhe também a esperança de que a criança seria logo encontrada. Tudo isso eu fiz com a aparência de sinceridade, pois eu não era objeto de nenhuma suspeita. Isto feito, sentei-me junto à janela do quarto o dia inteiro, observando o lugar em que se ocultava o terrível segredo.
Ficava este em uma parte do terreno que havia sido revirado, preparado para acolher grama nova, e por isso eu a escolhera, já que os rastros deixados por minha pá tinham menos probabilidade de chamar atenção. Os trabalhadores que replantaram a grama devem ter pensado que eu estava maluco. Continuamente, mandava-os acelerar o trabalho, saía de casa e trabalhava juntamente com eles, pisava a grama com os pés e dava-lhes pressa com gestos frenéticos. Terminaram a tarefa antes da noite e então me senti em relativa segurança.
Dormi não como os homens que acordam felizes e revigorados, mas passando de uns sonhos vagos e sombrios, em que eu era perseguido, a visões de um punhado de grama, através da qual brotava de início uma mão, depois um pé e finalmente uma cabeça. Nesse ponto, sempre acordava e corria à janela para assegurar-me de que nada daquilo acontecera realmente. Depois, voltava à cama. E assim passei a noite em meio a sobressaltos, levantando-me e deitando-me mais de vinte vezes, e tendo continuamente o mesmo sonho, o que era bem pior do que ficar acordado, pois cada sonho significava uma noite inteira de sofrimento. Uma vez pensei que o menino estava vivo e que eu jamais havia tentado assassiná-lo. Despertar desse sonho significou a maior de todas as aflições.
No dia seguinte, voltei a sentar-me junto à janela, sem nunca desviar o olhar do lugar que, malgrado coberto pela grama, parecia tão evidente para mim ― em sua forma, seu tamanho, sua profundidade e suas bordas irregulares, tudo isto ―, como se se exibisse plenamente à luz do dia. Quando um empregado passou por cima dele, pensei que ele iria ali afundar. Depois que seguiu em frente, olhei para verificar se seus pés não haviam danificado as bordas. Se um pássaro pousava ali, eu me aterrorizava ao pensar que, por um estranho imprevisto, ele poderia ser o instrumento da descoberta; se uma lufada de ar lhe soprava por cima, sussurrava-me a palavra assassinato. Não havia o que visse ou escutasse, por mais trivial ou insignificante que fosse, que não me aterrorizasse. E neste estado de vigília incessante passei três dias.
No quarto dia, assomou em meu portão uma pessoa que servira comigo no estrangeiro, acompanhado por um irmão, oficial, que eu nunca havia visto. Senti que não conseguia deixar de olhar para o lugar. Era uma tardinha de verão e pedi aos criados que levassem ao jardim uma mesa e uma garrafa de vinho. Sentei-me, então, com a minha cadeira sobre a sepultura, seguro de que ninguém poderia perturbá-la agora sem o meu conhecimento, e procurei beber e conversar.
Eles desejaram que minha mulher estivesse bem, que não estivesse obrigada a ficar recolhida no quarto, que esperavam não tê-la feito retirar-se. O que eu poderia fazer, a não ser, com a voz vacilante, contar-lhe sobre a criança? O oficial desconhecido era um homem tímido, que mantinha os olhos no chão, enquanto eu falava. Também isso me apavorava! Não podia afastar a ideia de que ele havia visto ali alguma coisa que o fazia suspeitar da verdade. Perguntei a ele, precipitadamente, se supunha que… mas me detive.
― Que a criança tenha sido assassinada? ― disse ele, olhando-me com amabilidade ― Oh, não! O que poderia um homem ganhar assassinando um pobre garotinho?
Eu poderia responder melhor que ninguém o que se poderia lucrar com tal atitude, mas mantive a tranquilidade, embora um calafrio tenha-me feito tremer. Interpretando equivocadamente a minha emoção, os homens se esforçaram em consolar-me com a esperança de que, com toda segurança, o menino seria encontrado ― que grande alegria isto significava para mim! ― quando, de súbito, ouvimos um ganido baixo e profundo. Em sequência, dois enormes cães saltaram sobre o muro, lançaram-se para o jardim, e repetiram os sons dos latidos que já havíamos escutado.
― São cães farejadores! ― gritaram meus visitantes.
Não era necessário que me dissessem! Embora, em toda a minha vida, eu nunca tivesse visto aquela espécie de cão, eu sabia o que eram, e para que finalidade eles tinham vindo. Aferrei-me aos braços da cadeira, sem falar ou mexer-me.
― São de raça pura ― comentou o homem que eu conhecera no estrangeiro. ― Sem dúvida, se precisavam exercitar-se, já escaparam de seus guias.
Tanto ele quanto seu amigo voltaram-se para contemplar os cães. Estes se agitavam incessantemente, com os focinhos grudados ao chão, correndo para cá e para lá, de cima a baixo. Davam voltas em círculos, lançando-se em corridas frenéticas, sem nos prestar a mínima atenção, mas sempre reproduzindo aquele mesmo ganido. E aproximavam novamente o focinho ao chão, rastreando ansiosamente aqui e acolá. De repente, começaram a farejar a terra com redobrada ansiedade. Malgrado continuassem sobremodo inquietos, já não mais faziam círculos tão amplos, mantendo-se constritos a um só lugar, diminuindo fatalmente a distância entre mim e eles.
Aproximaram-se, finalmente, da grande cadeira em que eu estava e lançaram mais uma vez o terrível ganido, passando a dilacerar as colunas de madeira que os impedia de escavar o chão. Pude ver a minha aparência no rosto dos homens que estavam comigo.
― Estão farejando alguma presa ― disseram os dois, em uníssono.
― Não estão farejando presa nenhuma! ― gritei.
― Por Deus, afaste-se daí! ― disse o meu conhecido com grande preocupação. ― Senão, eles vão despedaçá-lo.
― Mesmo que me despedacem membro a membro, daqui não sairei ― gritei. ― Acaso devem os cães levar os homens a uma morte vergonhosa? Vamos abatê-los! Vamos cortá-los em pedaços!
― Há aqui um mistério sinistro! ― disse o oficial que eu não conhecia, desembainhando a espada. ― Em nome do rei Carlos, ajude-me a segurar este homem!
Ambos me agarraram e me conduziram para fora à força, embora eu lutasse e mordesse, batendo neles como um lunático. Depois de uma luta, fui imobilizado. E então... meu Deus! Eu vi os cães iracundos rasgando a terra, lançando-a aos ares como se fosse água.
O que mais tenho a contar? Que caí de joelhos e, rangendo os dentes, confessei a verdade e roguei que me perdoassem. Que depois neguei, mas agora confesso novamente. Que fui julgado pelo meu crime, declarado culpado e sentenciado. Que não tenho coragem de antecipar o meu destino, ou encará-lo com bravura. Que não sou digno de compaixão, nem de consolo, de esperança ou amizade. Que, felizmente, minha mulher perdeu as faculdades que lhe permitiriam saber da minha e da sua desgraça. Que estou sozinho neste calabouço de pedra com minha índole maligna, e que morrerei amanhã!
Ilustrações: Fred Barnard (1846 – 1896) e William Henry Charles Groome (1854-1913).


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